Mundo ficciónIniciar sesiónNos dias que se seguiram, algo estranho começou a acontecer dentro da mansão Castelli.
Não era o silêncio. O silêncio sempre existira ali. Era a ausência de expectativa. Aurora deixou de esperar passos no corredor. Deixou de prestar atenção no som do carro chegando à noite. E, principalmente, deixou de tentar ser vista. Era como se tivesse aprendido a ocupar o próprio espaço sem fazer barulho. Dante, por outro lado, não percebeu. Ou talvez não quisesse perceber. Ele continuava saindo cedo, voltando tarde, e quando estava em casa, dividia sua atenção entre o celular e compromissos que nunca explicava. Mas havia algo diferente. Ele estava mais leve. Mais… distraído. Às vezes sorria ao telefone. Às vezes parecia satisfeito. Aurora entendia o motivo sem precisar de confirmação. Valentina. Ela havia se tornado uma presença constante na vida dele, mesmo sem morar ali. E, curiosamente, isso parecia deixá-lo em paz. Como se Aurora fosse apenas um detalhe fixo na paisagem da casa. Algo que sempre estaria ali. E não alguém que poderia desaparecer. --- Aurora começou a desaparecer aos poucos. Não fisicamente. Mas emocionalmente. Parou de participar dos cafés da manhã. Passava mais tempo na estufa do que dentro da mansão. Reduziu suas palavras ao mínimo necessário. Era mais fácil assim. Menos dor. Menos expectativa. Menos ela mesma sendo ferida sem perceber. E, de forma quase irônica, ninguém percebeu. Nem o marido. Nem os empregados. Nem mesmo a própria casa. A única coisa que ainda a mantinha conectada ao mundo era Helena. --- Capítulo 5 — Helena O café de Helena era pequeno, escondido em uma rua tranquila do centro da cidade. Mas tinha vida. Sempre tinha vida. Aurora passou a frequentá-lo quase todos os dias sem perceber. Helena era o oposto de tudo o que ela conhecia na alta sociedade. Falava alto, ria sem medo, tinha opiniões fortes e não se preocupava em agradar ninguém. E talvez por isso Aurora se sentisse tão em paz ali. — Você sumiu por alguns dias — comentou Helena enquanto limpava a bancada. — Estava ocupada — respondeu Aurora, com um leve sorriso. Helena a observou por alguns segundos. — Ocupada ou tentando desaparecer? Aurora não respondeu. Mas não precisou. Helena já entendia. Com o tempo, a conversa entre as duas deixou de ser superficial. Aurora começou a falar sobre flores. Sobre cores. Sobre formas. Sobre como cada planta parecia carregar uma espécie de linguagem própria. Helena ouvia tudo com atenção genuína. — Você fala disso como se fosse poesia — comentou um dia. Aurora riu baixo. — Talvez seja. Foi nesse dia que algo começou a nascer. --- Capítulo 6 — O Primeiro Presente Helena havia contado, em uma conversa casual, que um dos momentos mais difíceis de sua vida foi quando perdeu o marido. Depois disso, abriu o café. Não como um sonho. Mas como sobrevivência. — Eu precisava ocupar a cabeça — disse ela, servindo café para Aurora. — Ou eu ia me perder de vez. Aurora ouviu aquilo em silêncio. E pela primeira vez entendeu alguém profundamente. Naquela noite, decidiu fazer algo. Não para a mansão. Não para Dante. Mas para Helena. Passou dias na estufa. Selecionando flores. Misturando cores. Criando algo que não era apenas um arranjo. Era uma mensagem. Quando terminou, não era apenas um vaso de flores. Era uma composição viva. Delicada. Mas forte. Como Helena. No dia seguinte, levou até o café. Helena estava organizando mesas quando viu Aurora entrar com o vaso. E parou. — Isso… é para mim? Aurora assentiu. Helena se aproximou devagar. Quando tocou as flores, seus olhos mudaram. — Aurora… isso não é um arranjo. Ela sorriu emocionada. — Isso é arte. --- Capítulo 7 — O Convite Helena passou minutos em silêncio, observando cada detalhe do vaso. Depois respirou fundo. — Você já pensou em vender isso? Aurora franziu o cenho. — Não. — Por quê? — Não é nada sério. Helena riu. — Nada sério? Aurora, isso aqui é melhor do que muita floricultura chique que eu já vi. Aurora ficou quieta. Helena cruzou os braços. — Você tem ideia do que poderia fazer com isso? — Eu só gosto de cuidar de flores. — E é exatamente isso que te torna diferente. A frase ficou no ar. Helena se aproximou um pouco mais. — Abre uma floricultura. Aurora piscou. — Isso é impossível. — Não é. — Eu não tenho experiência. — Você tem talento. — Eu não tenho tempo. Helena sorriu. — Você tem mais vida do que imagina, só está presa em um lugar que não te vê. Aquilo atingiu Aurora em cheio. Mas não doeu. Pelo contrário. Acordou algo dentro dela. Helena colocou a mão sobre a dela. — Você não nasceu para ser invisível. Aurora olhou para o vaso de flores. E pela primeira vez, a ideia não pareceu absurda. Pareceu possível. --- Naquela noite, quando voltou à mansão, Dante não estava. Mais uma vez. Aurora entrou no quarto, mas não se deitou imediatamente. Sentou-se perto da janela. E pensou em Helena. No café. Nas flores. Na ideia. E, pela primeira vez, não pensou em Dante. Pensou em futuro. E isso mudou tudo.






