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Capítulo 2 — Depois do Silêncio

O silêncio dentro do carro era sufocante.

Aurora mantinha o olhar fixo na paisagem noturna que passava pela janela, mas não realmente via nada. As luzes da cidade se misturavam em borrões dourados e frios, enquanto sua mente ainda permanecia presa na mesma cena.

Valentina abraçando Dante.

O sorriso dele.

O olhar que ele nunca tivera para ela.

Nenhuma palavra de defesa. Nenhuma explicação. Nenhuma reação.

Apenas silêncio.

E, de alguma forma, aquilo doía mais do que qualquer ofensa direta.

Quando o carro parou diante da mansão Castelli, Aurora desceu primeiro. Os saltos tocaram o chão de pedra com firmeza, mas dentro dela tudo parecia instável. Ela entrou sem esperar Dante, subindo as escadas devagar, como se cada degrau pesasse mais do que o anterior.

No quarto, retirou os acessórios com movimentos automáticos. O vestido elegante que antes parecia tão bonito agora lhe parecia apenas um disfarce malfeito para algo que nunca foi dela.

Quando finalmente ficou sozinha, sentou-se na beira da cama.

E então a ficha caiu.

Não foi um pensamento súbito. Foi uma construção lenta, dolorosa, quase cruel. As imagens da noite voltavam uma a uma, sem piedade. O sorriso dele. A forma como o corpo dele relaxava perto de Valentina. A maneira como ele a chamara pelo nome.

Dante nunca a chamava assim.

Não daquela forma.

Como se ela fosse importante.

Aurora levou a mão ao peito, sentindo a dor crescer sem controle. Durante três anos, ela havia tentado. Tentado se aproximar, entender, ser suficiente. Tentado transformar aquele casamento frio em algo suportável.

Mas naquela noite, pela primeira vez, algo dentro dela se partiu de verdade.

Não era apenas dor.

Era consciência.

---

Na manhã seguinte, o sol atravessava as cortinas com suavidade, iluminando o quarto luxuoso da mansão como se nada tivesse acontecido. O mundo continuava o mesmo. Apenas ela não.

Aurora levantou mais cedo do que o habitual.

Não havia dormido bem.

Na verdade, quase não dormira.

Desceu as escadas em silêncio e caminhou pela casa ainda adormecida até chegar aos fundos da propriedade. A estufa estava ali, como sempre estivera. Intocada. Viva. Segura.

Ao entrar, o aroma das flores a envolveu imediatamente.

Era diferente do resto da mansão. Ali não havia regras, nem expectativas, nem olhares frios. Havia apenas vida.

Aurora passou os dedos delicadamente pelas folhas de uma roseira, como se pedisse permissão para permanecer ali.

E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que podia respirar.

Enquanto podava alguns galhos e reorganizava vasos, sua mente lentamente se esvaziou do caos da noite anterior. As flores não exigiam explicações. Não julgavam. Apenas existiam.

Talvez fosse por isso que ela sempre se sentira tão ligada a elas.

Horas se passaram sem que percebesse.

E, no silêncio da estufa, uma lembrança antiga voltou à sua mente.

Quando era mais nova, ainda na casa dos pais, costumava ajudar o jardineiro nos fins de semana. Sempre dizia que um dia teria seu próprio jardim. Um espaço só seu, onde pudesse cuidar de flores e viver longe de qualquer pressão.

Na época, parecia apenas um sonho infantil.

Agora, parecia a única coisa real que ainda tinha.

Aurora se apoiou na bancada de madeira, observando o espaço ao redor. Pequeno, simples, mas cheio de vida. Diferente de tudo o que vinha vivendo nos últimos anos.

Talvez não precisasse continuar ali para sempre.

Talvez não precisasse continuar tentando ser vista por alguém que nunca a enxergou.

A ideia surgiu tímida, quase como um sussurro.

E se começasse algo seu?

Algo pequeno.

Algo dela.

Por enquanto, não era um plano. Era apenas um pensamento.

Mas já era o suficiente para aquecer algo dentro do peito.

---

Naquela noite, Dante voltou tarde.

Aurora ouviu o carro parar, mas não desceu para recebê-lo. Permanecia na sala de estudos da mansão, diante de alguns cadernos abertos, rabiscando ideias soltas sem muita ordem.

Quando ele entrou, percebeu sua presença.

— Ainda acordada — comentou, sem emoção.

— Sim.

Dante retirou o paletó com a mesma indiferença de sempre.

— Como foi o jantar?

A pergunta escapou antes que ela pudesse evitar.

Ele parou por um instante.

— Normal.

Simples.

Seco.

Sem detalhes.

Aurora apenas assentiu, voltando os olhos para o caderno.

Dante a observou por alguns segundos, como se esperasse algo mais. Talvez uma reação. Talvez um questionamento.

Mas não recebeu nada disso.

Apenas silêncio.

Ele então subiu as escadas sem dizer mais nada.

Aurora ficou sozinha novamente.

Mas, pela primeira vez, o silêncio não parecia tão esmagador.

Era diferente agora.

Mais lúcido.

Mais claro.

Mais real.

E, no fundo, algo dentro dela começava a entender uma verdade que não podia mais ignorar.

Dante Castelli nunca seria dela.

E talvez nunca tivesse sido.

Ela fechou o caderno lentamente.

E, em vez de dor, sentiu algo novo nascer entre as rachaduras do seu coração.

Decisão.

Se não podia mudar o amor dele, então mudaria a própria vida.

E, dessa vez, não seria por ninguém além de si mesma.

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