Mundo de ficçãoIniciar sessãoNO PASSADO
SOFIA Hoje é meu primeiro dia na presidência da Stuart Corporation. Meu Deus. Encaro meu reflexo no pequeno espelho manchado do banheiro, alisando o tecido da minha saia social preta pela enésima vez. É uma peça simples, comprada em uma loja de descontos, mas está impecavelmente passada. Depois de quase um ano inteiro desempregada, engolida por um mar de rejeições e portas fechadas, esse emprego não é apenas uma oportunidade; é a minha salvação. A única corda jogada para alguém que estava prestes a se afogar. O peso das contas atrasadas, os avisos de cobrança do aluguel empilhados sobre a mesa da cozinha, o saldo negativo no banco… tudo isso martela na minha cabeça em um ritmo frenético enquanto termino de prender meu cabelo em um coque firme e profissional. Ainda me parece irreal. Eu não consigo acreditar que, entre dezenas de candidatas com currículos impecáveis, eu consegui essa vaga de assistente executiva. — Minha filha, você vai arrasar — a voz suave e reconfortante ecoa pelo corredor apertado. Viro-me e encontro dona Mari encostada no batente da porta, segurando uma xícara fumegante. Ela exibe aquele sorriso doce de sempre, o rosto marcado pelo tempo irradiando uma bondade rara. Olho para ela e sinto um nó se formar na minha garganta. Retribuo o sorriso, embora meus lábios estejam trêmulos pela ansiedade. Se não fosse por essa mulher… eu não sei o que teria sido de mim. Quando o chão sumiu debaixo dos meus pés, foi ela quem me segurou. — Senhora Mari, eu prometo… — minha voz sai um pouco embargada, e eu me forço a engolir a emoção. — No meu primeiro salário, a primeira coisa que farei é pagar tudo o que está atrasado. Cada centavo dos aluguéis e da comida que a senhora tem dividido comigo. Ela suspira mansamente e balança a cabeça, com a tranquilidade de quem já viveu o suficiente para saber o que realmente importa na vida. — Não se preocupe com isso agora, Sofia. Vai pagando aos poucos, sem pressa. A prioridade agora é você se reerguer. Engulo em seco, a culpa pesando nos meus ombros. — Mesmo assim… é injusto com a senhora. Ela caminha até mim, deixa a xícara sobre a pequena cômoda e segura o meu rosto com as duas mãos, os polegares calejados acariciando minhas bochechas com um carinho maternal que me desmonta. — Você me faz companhia, minha filha. Depois que sua mãe morreu, a casa ficou tão silenciosa… e eu prometi a mim mesma cuidar de você. E é exatamente isso que eu estou fazendo. Porque família não é só sangue. Sinto meus olhos arderem e pisco rapidamente para afastar as lágrimas. Borrar a maquiagem barata no meu primeiro dia não é uma opção. — A senhora é um anjo, dona Mari. Ela ri baixinho, um som gostoso que aquece o ambiente frio do apartamento. — Anjo nada. Você que é. Só de estar aqui, viva, lutando todos os dias com essa garra, já é uma vitória. Você é como uma flor, Sofia… ilumina essa casa velha. Dou uma risada nervosa, profundamente emocionada pela fé cega que ela deposita em mim. — Só a senhora mesmo para falar essas coisas e me fazer chorar às seis da manhã. Ela solta meu rosto e ajeita a gola da minha blusa branca com um orgulho genuíno. — Agora vai. Chega cedo. O mundo lá fora não tem pena de quem se atrasa, e você tem um império para ajudar a administrar hoje. — Eu sei… — Puxo o ar, enchendo os pulmões de coragem. — Tenho que chegar antes das sete. Pego minha bolsa e dou um beijo estalado no rosto enrugado dela. — Me deseje sorte. — Você já nasceu com ela, minha menina. Vá com Deus. O trajeto até o centro financeiro é uma corrida desumana contra o relógio. Ônibus lotado até a estação e, depois, o metrô. Uma massa sufocante de corpos, de gente apressada, rostos cansados e respirações pesadas. O cheiro de café barato, perfume forte e metal impregna o ar. Meu coração b**e acelerado, ditando o ritmo dos meus passos enquanto desvio das pessoas nas calçadas largas. Mas eu chego. Quando paro diante do imponente edifício de vidro e aço da Stuart Corporation, sinto minha respiração falhar. O prédio arranha o céu, um monólito de poder e dinheiro refletindo a luz fria da manhã. Olho para o relógio no meu pulso. Quinze para as sete. No saguão colossal, onde o piso de mármore brilha como um espelho negro, caminho até a recepção e entrego meu documento para a mulher perfeitamente maquiada atrás do balcão, tentando parecer muito mais calma e segura do que realmente estou. A recepcionista digita meus dados e ergue os olhos, avaliando-me de cima a baixo com uma expressão cautelosa. — Você é a nova assistente do senhor Donovan Stewart? Assinto rapidamente, ajeitando a alça da bolsa. — Sim. Ela suspira, entregando-me o cartão de acesso com um olhar que beira a pena. — Vá direto ao RH no vigésimo andar para assinar a papelada e depois suba para a presidência, no último andar. E, por favor, não demore. Ele está sem secretária há quase uma semana… e anda incrivelmente irritado. O humor dele hoje está pior que o normal. Ótimo. Perfeito. Exatamente o que eu precisava para acalmar meus nervos: um chefe bilionário e furioso logo nas primeiras horas do meu primeiro dia. — Pode deixar. Não vou me atrasar. Obrigada. — Seja bem-vinda ao campo de batalha, Sofia. Boa sorte. Subo rápido, o elevador expresso fazendo meu estômago revirar pela velocidade. No RH, o processo é mecânico: assino os contratos, pego meu crachá magnético com a logo dourada da empresa e sigo direto para o elevador privativo que leva à cobertura. Assim que as portas de metal se abrem no último andar, o silêncio é absoluto. O carpete espesso abafa os meus passos. Caminho até a antessala da presidência, encontro a minha mesa executiva em formato de meia-lua e sigo até ela. Quando olho para a superfície de madeira nobre… eu quase tenho um infarto. — Meu Deus do céu… — o sussurro escapa dos meus lábios. O caos é indescritível. Papéis confidenciais espalhados de qualquer jeito. Pastas misturadas. O livro de visitas jogado sobre o teclado. A agenda de couro físico completamente desorganizada, cheia de post-its indecifráveis. Anotações confusas sobre reuniões com acionistas rabiscadas em guardanapos. A última assistente não se demitiu; ela simplesmente fugiu em desespero e deixou uma granada sem pino para trás. O pânico ameaça subir pela minha garganta, mas eu fecho os olhos e cerro os punhos. — Tá… calma, Sofia… calma… — digo a mim mesma, baixinho. — É só papel. Você é boa nisso. Jogo minha bolsa na gaveta inferior, ligo o computador de última geração, encontro as senhas de acesso anotadas de forma negligente em um papel sob o monitor e começo a trabalhar. O instinto de sobrevivência assume o controle. Se eu perder esse emprego por incompetência no primeiro dia… eu não tenho plano B. Não há rede de segurança. Meus dedos voam pelo teclado. Separo os documentos urgentes dos arquivos mortos. Decifro os rabiscos, cruzo as informações dos post-its com os e-mails não lidos na caixa de entrada do presidente. Reorganizo a agenda inteira. Remarco horários conflitantes, confirmo presenças, bloqueio intervalos estratégicos e crio uma planilha visual para as reuniões. O tempo desaparece. O mundo se resume a pastas azuis, vermelhas e à tela do monitor. Quando finalmente coloco o último clipe de papel no seu devido lugar e alinho as canetas ao lado do telefone, respiro fundo, encostando as costas na cadeira de couro. — Consegui… A mesa está imaculada. A agenda do dia, impressa e perfeitamente detalhada, repousa no centro. Olho para o relógio digital no canto da tela. Nove horas em ponto. Exatamente nesse segundo, o bipe do elevador privativo soa. As portas se abrem com um leve sussurro mecânico. E então, ele entra. Senhor Donovan Stewart. O ar no ambiente parece mudar instantaneamente. Ele é alto. A postura é impecavelmente firme, exalando uma autoridade natural que não precisa ser imposta para ser sentida. Os cabelos escuros estão perfeitamente alinhados, e o terno sob medida, num tom de azul-marinho profundo, abraça seus ombros largos como uma armadura moderna. Mas são os olhos escuros que me paralisam por um microssegundo — intensos, perspicazes e absolutistas. Imponentes. Mas ele não está sozinho. Ele está conversando com uma mulher loira deslumbrante caminhando ao seu lado. Ela veste um conjunto de alfaiataria que grita dinheiro antigo, os saltos agulha estalando suavemente contra o piso de mármore do corredor. Eles conversam como se fossem íntimos. Rindo baixo, uma risada contida, mas carregada de segredos. Há uma familiaridade neles. Eles estão à vontade demais um com o outro para o ambiente estéril de um escritório corporativo. O cheiro do perfume caro dela me atinge de longe. Doce, marcante. Intoxicante. Engulo em seco, espanto a observação para o fundo da mente e me levanto imediatamente, alisando a saia, assumindo a minha postura mais profissional. Eles se aproximam da mesa. A mulher loira me lança um olhar rápido, de cima a baixo, antes de voltar a atenção para ele com um sorriso de canto.






