Mundo de ficçãoIniciar sessãoCONTINUAÇÃO
— Papai! — Shh! É surpresa — sorrio, ajeitando o casaco dele. Seguro firmemente sua mãozinha quente e gordinha, com a outra mão, pego minha bolsa, sentindo o volume da caixa de lingerie contra a lateral, e caminho a passos leves em direção à imponente porta de carvalho duplo da entrada principal. Giro a maçaneta devagar, mecanismo destrava com um clique suave, abafado. Nós entramos no grande hall de entrada, com seu piso de mármore brilhante e o lustre de cristal refletindo uma luz tênue que vem da sala de estar. Tudo parece em ordem, o cheiro de limpeza, o arranjo de flores frescas sobre a mesa de centro. Dou dois passos para a frente. E então… eu paro, ou vozes, donovan está falando com alguém. Meus pés congelam no chão, o ar abandona os meus pulmões de uma única vez, como se eu tivesse levado um soco brutal na boca do estômago. Meu coração não apenas acelera. Ele para, a dor e lancinante , meu marido, está... donovan estava na sala de estar, Ele está no centro do nosso tapete persa, beijando outra mulher, e não é ninguém mais que a ex-esposa do tio dele damien. Eu dou um suspiro forte, e eles me ouvem, donovan me olha assustado, e fala, amor não é o que você está pensando. A bile sobe pela minha garganta queimando, meu estômago revira violentamente, e por um segundo, acho que vou vomitar ali mesmo, sobre o piso de mármore. O chão parece desaparecer debaixo dos meus sapatos. A realidade distorce, estilhaçando a imagem da vida perfeita em milhões de fragmentos pontiagudos que cortam a minha alma. — Meu Deus, o que vocês estão fazendo? A minha voz sai rasgada, um sussurro engasgado, mas no silêncio mortal da casa, soa como um trovão. donovan empurra vanessa se afastando bruscamente, como se tivessem sido atingidos por um choque elétrico. donovan se vira, o rosto dele perde qualquer resquício de cor instantaneamente, passando de ruborizado pelo para um branco cadavérico e aterrorizado, seus olhos se arregalaram de uma forma patética, até parece os olhos de alguém que bebeu muito. vanessa se vira parcialmente para a luz, seu rosto com um sorriso de triunfo. Os traços daquele rosto arrogante e perfeitamente esculpido. Meu Deus. O arrepio que sobe pela minha espinha não é apenas de dor; é de asco. É puro e absoluto nojo. — Vocês dois enlouqueceram? — O choque começa a ceder lugar a um tremor incontrolável que domina minhas mãos e minhas pernas. Minha voz sobe uma oitava, trêmula, carregada de pânico e descrença. — O que vocês estão fazendo dentro da minha casa?! — Amor… sofia, por favor, não é o que você está pensando— donovan começa a dizer, a voz falhando miseravelmente. Ele dá um passo patético na minha direção, erguendo as mãos como se tentasse acalmar um animal assustado. A hipocrisia dele me dá náuseas. — Não é o que eu está pensando?! — falo com voz controlada. A mulher que comprou lingerie de seda há poucas horas morreu de forma agonizante. — Eu estou cega por acaso?! O som agudo e cortante do meu desespero estilhaça a bolha de inocência que ainda restava ali. robert, sentindo a energia pesada, o pânico e o tom irreconhecível da minha voz, se encolhe. O sorriso dele morre instantaneamente, dando lugar ao terror. Ele começa a chorar, um choro alto, desesperado e confuso de uma criança que não entende por que o seu mundo seguro de repente se transformou em um pesadelo. — Mamãe… mamãe… O choro dele é como uma facada no meu coração, é o gatilho que me puxa do abismo da histeria de volta para a realidade cruel. Imediatamente, largo a minha bolsa no chão — a bolsa com a lingerie inútil — me abaixo e o pego no colo. Aperto o corpinho dele contra o meu peito, enterrando meu rosto em seus cabelos com cheiro de shampoo. — Shh… não chora, meu amor… a mamãe tá aqui, não chora— murmuro freneticamente, balançando-o de um lado para o outro. — Tá tudo bem… tá tudo bem… Mas não estava, e nada nunca mais estará bem, donovan engole em seco, os olhos cheios de um pânico covarde. — sofia, por favor, me escute, eu posso explicar, não é o que você está pensando amor, vanessa veio aqui, falar comigo. Antes que ele termine a frase patética, um som corta a sala. Curta, e seca com deboche, que me deixou em choque, vanessa não demonstra remorso, mas mostra um prazer, e absolutamente debochada, fazendo pouco de mim. Eu levanto o olhar, meus olhos ardendo por trás das lágrimas não derramadas, e encaro a outra mulher, vanessa, a ex-esposa do tio de donovan. Ela não olha para donovan, vanessa olha diretamente para mim, de cima a baixo, mal disfarça maldade e repulsa. Ela não demonstra um pingo de vergonha, ou de culpa nem remorso, sai caminhando sobre os escombros da minha vida com seus saltos agulha. Quando a porta dupla de carvalho b**e atrás dela, com um estrondo oco, o silêncio dentro da mansão fica denso, espesso, absolutamente sufocante. robert continua choramingando no meu colo, o rostinho enterrado no meu pescoço, tremendo de medo da tensão invisível no ar. E eu… eu sinto uma vontade incontrolável, primitiva e selvagem de gritar até rasgar as minhas cordas vocais. Sinto vontade de pegar o abajur, os vasos, os porta-retratos com nossos sorrisos falsos e quebrar tudo ao meu redor. Vontade de avançar no pescoço de donovan e destruir aquele rosto bonito que ele usou para destruir a minha vida. Mas eu não posso. As mãos pequenas de robert apertam a minha blusa, o meu filho está me olhando. Ele precisa de mim, ele é a única coisa real e pura que sobreviveu a essa carnificina emocional. Então, com um esforço sobre-humano, eu engulo a dor cortante, e o ódio fervente que quer corroer o meu peito, o choro e as lágrimas ácidas que ameaçam transbordar. Puxo o ar para os pulmões, erguendo escudos de aço ao redor do meu próprio coração em estilhaços. O choque cede, e em seu lugar, nasce uma frieza que eu não sabia que possuía. Ajeito robert nos meus braços de forma protetora. Elevo o queixo e olho diretamente para donovan, o estranho parado no meio da sala destruída. — Eu vou preparar o jantar do meu filho, dar um banho quente nele e colocá-lo para dormir — digo. A voz que sai da minha boca não parece a minha. É monótona, firme e a coisa mais fria que já ousei pronunciar em toda a minha vida. Não há mais amor nela. Não há mais calor. Ele tenta dar um passo vacilante, a mão estendida em um pedido de socorro mudo, os olhos cheios de um arrependimento inútil. — sofia, por favor, me escuta…não me sinto bem. — Claro , depois nós conversamos, amanhã, amanhã é o ideal. O rosto dele perdeu completamente qualquer cor que ainda tentava voltar, como se eu o tivesse esbofeteado com força máxima. Ele entende, naquele exato segundo, que a mulher doce e compreensiva que ele enganou por anos acabou de morrer ali, naquele tapete. Dou as costas para ele, caminhando em direção à cozinha com meu filho protegido no colo, sem olhar para trás nem uma única vez. — Amanhã… nós conversamos, e decidiremos nosso futuro.






