Mundo ficciónIniciar sesiónO MEDO
— Bom dia, senhor Stewart — minha voz sai firme, surpreendendo até a mim mesma. — Eu sou a sua nova assistente executiva. Sofia Sinclair. Ele para, e com o sorriso que dividia com a mulher desaparece, dando lugar a uma máscara corporativa fria. Por um segundo longo e denso, ele me analisa. Os olhos azuis se fixam meu rosto, minha postura, e depois, a mesa perfeitamente arrumada que há duas horas era um campo de destroços. — Bom dia, Sofia. A voz dele é grave. Firme. Vai direto ao ponto, sem a menor cerimônia. — Você pode me trazer um café? Exatamente três gotas de adoçante… e algumas torradas. Não tive tempo de tomar café da manhã. — Sim, senhor, já estou levando. Ele começa a caminhar em direção às portas duplas da sua sala, a mulher loira seguindo logo atrás, mas ele para com a mão na maçaneta e olha por cima do ombro. — E traga minha agenda, quero ver o desastre que herdamos. — Pois não. Ele entra e a porta se fecha com um clique suave. Na copa executiva, escondida no corredor lateral, percebo que minhas mãos tremem levemente enquanto preparo o expresso duplo na máquina italiana. — Calma, Sofia… o pior já passou… você consegue… Conto exatamente três gotas de adoçante. Coloco as torradas torradas no ponto perfeito em um pequeno prato de porcelana. Organizo tudo em uma bandeja de prata com um guardanapo de linho, pego a pasta de couro com o cronograma impresso, respiro fundo, inflando o peito de coragem, e volto. Dou duas batidas leves na porta e entro. A mulher loira já não está na parte principal da sala; ouço o som de água vindo do lavabo privativo. Senhor Donovan está de pé atrás de sua mesa colossal, sem o paletó, afrouxando a gravata de seda enquanto analisa o horizonte da cidade através das paredes de vidro. Aproximo-me em silêncio, e entrego a xícara de café sobre o suporte da mesa, posiciono o pratinho e abro a agenda de couro, revelando a planilha impressa. Começo a falar, mantendo o tom de voz profissional e constante, tentando não me deixar intimidar pela presença esmagadora dele. — Estas são as reuniões do dia, e o cronograma anterior estava com sérios conflitos de logística, então eu reorganizei alguns horários da tarde para otimizar o tempo de deslocamento do senhor. O almoço com os acionistas suíços foi confirmado para as treze horas, e eu já solicitei que enviassem os relatórios trimestrais atualizados para o seu e-mail, para que o senhor possa revisá-los antes da reunião das dez. Ele leva a xícara aos lábios, toma um gole do café e para. Ele me interrompe, baixando a xícara lentamente. Os olhos cravados em mim. — Você conseguiu organizar tudo isso hoje de manhã? Sustento o olhar dele, embora meu estômago esteja dando cambalhotas. — Sim, senhor, cheguei um pouco antes das sete. Ele abaixa o olhar para o papel brilhante e impecável à sua frente. Ele folheia rapidamente as páginas seguintes, analisando o planejamento semanal que eu deixei engatilhado. Silêncio. O único som na sala é o tique-taque distante do relógio de parede e o meu próprio sangue zumbindo nos ouvidos. Meu coração dispara em um ritmo ensurdecedor. Meu Deus… e se eu cruzei uma linha? E se eu mudei reuniões que não devia? E se eu fiz tudo errado tentando parecer proativa demais? Ele continua olhando para o papel. E então, um som baixo sai da sua garganta. — Hum. Ele fecha a agenda com um baque surdo, desliza os dedos sobre o couro, ergue os olhos e os fixa em mim com uma intensidade que faz o ar da sala parecer mais rarefeito. — Seja bem-vinda à STUART CORPORATION, Sofia. Solto o ar que nem percebia que estava prendendo há quase um minuto. Meus ombros relaxam uma fração de milímetro. — Obrigada, senhor. Ele toma mais um gole do café, claramente satisfeito. — Agora, não estou para ninguém até a primeira reunião. Quando der o horário exato, me avise. — Sim, senhor, com licença. Dou um passo para trás, giro sobre os calcanhares e saio da sala, fechando a porta silenciosamente atrás de mim. Caminho de volta para a minha mesa, o salto dos meus sapatos afundando no carpete felpudo. Sento-me na cadeira de couro confortável, olhando para o computador à minha frente, para o horizonte da cidade se estendendo além dos vidros do andar executivo, para o império que agora eu ajudo a organizar. E só então percebo… Sinto um arrepio estranho e quase imperceptível percorrer minha nuca enquanto toco o crachá recém-impresso no meu peito. Que talvez esse emprego não seja só uma chance desesperada de pagar minhas contas. Talvez seja o começo de algo monumental. O início de uma história que vai mudar e reescrever completamente o destino de toda a minha vida.






