Capítulo Dois — Enquanto me calo...

Carmen Gonzalez

— Madre, chega! Eu não aguento mais essa sua insistência em me ver sendo exposta dessa maneira.

Eu me levanto da cama onde estava dormindo até a minha mãe me acorda pelo motivo que tem me tirado do eixo no último ano.

— Carmen, você precisa parar de resistir e aceitar que o Pablo escolheu a Martina. Segue em frente, minha filha.

Estou tão cansada dessa ladainha que todos insistem em me fazer engolir. Minha mãe parece não dar a mínima ao que tudo isso me causa. Ao meu sofrimento.

— Mamãe, você tem noção do que está me pedindo? Tem noção do que sinto diante dessas insistências de vocês? Eu não quero participar desses eventos.

Começo a procurar meu uniforme de trabalho no meu guarda-roupa. Sou médica plantonista no Hospital San Jerónimo. Tenho que sair dessa casa antes que aquelas víboras peçonhentas cheguem.

— Onde você pensa que vai, Carmen? Sua tia e suas primas vão chegar em uma hora. Precisa me ajudar com os preparativos do chá de panela e do bebê da Martina. 

— Eu vou trabalhar, mamãe. Eu estou cansada de bancar a adulta e a pessoa maior e mais equilibrada, enquanto vocês tripudiam dos meus sentimentos. Estou pouco me lixando para o chá de panela, de bebê, ou seja, lá o que essa merda toda é.

— Olha essa boca, garota! Isso lá é jeito de falar sobre sua prima. Esquece o Pablo. Eles estão juntos agora. Vão se casar e ter um filho.

— EU NÃO ME IMPORTO NEM UM POUCO COM O PLABLO, MADRE! — grito, deixando-a paralisada diante da minha reação. Nunca havia agido assim. Mas tudo tem limite e o meu está na beira do abismo.

Continuo organizando minha mochila de trabalho. Tentando controlar minha respiração. Não quero chorar na frente dela e nem de ninguém. 

Minha família quer que eu ignore a traição do meu ex que engravidou a minha prima e então melhor amiga. 

Ele foi tão covarde. Todos estão ignorando os meus sentimentos. Minha própria mãe está fazendo o mesmo. Eles acham que não sinto nada? Não aquento mais isso.

— Eu vou trabalhar e não volto pra casa até essa palhaçada acabar. Não suporto mais ser tratada como um pedaço de carne morta. Não tenho uma pedra no lugar do coração.

— Eu estou viva, mamãe. Ao menos por fora. Porque por dentro, morro um pouco a cada dia desde que vocês me obrigam a conviver com a Martina esfregando na minha cara que me roubou o homem que eu amava.

— Ora, mas que drama é esse, Carmen? Eles se amam e tem o direito de lutar pela felicidade deles. Por que você não consegue alguém? Vai ver é porque está tão gorda e sem graça que ninguém se interessa por você.

Que mulher má! Que. Mulher. Má! Como uma mãe pode dizer isso da própria filha? Ignorar meu sentimento de uma maneira tão fria.

Nem adianta argumentar nada com essa criatura. Estou cansada, magoada. Humilhada. Essas são as palavras certas para descrever como tenho me sentido durante os últimos meses.

— O que pra você é drama, pra mim é o que um ser humano normal, com sentimentos sente quanto o homem que ama a deixa por alguém que ela considerava uma irmã — acabo falando mesmo sabendo que nem vale a pena.

— Todos vocês podem até ignorar isso, mas eu tenho sentimentos, dona Dolores. Ver o homem amei desde a adolescência nos braços da minha melhor amiga e todos da família paparicando os pombinhos como se fossem o casal do ano tem ferido minha alma e dignidade.

— Sua prima não tem culpa dele ter se apaixonado por ela e tê-la deixado. Veja como você está, Carmen. Toda desleixada, não se arruma, não usa um batom, ou arruma esse cabelo. Ele só podia ter escolhido ela por ser linda.  

— Se acha que vai conseguir me convencer a ficar e fingir ser a madre Tereza com esses argumentos mesquinhos e egoístas, não vai conseguir. Eu não vou ser mais conivente com minha própria humilhação.

Entro no banheiro e vou tomar banho. Preciso lavar minha alma além, do meu corpo. Nesses últimos meses tenho enfiado a cara no trabalho, assumindo todos os plantões possíveis para não ter que ficar em casa ou frequentando eventos da família onde sempre tenho que encarar a presença do Pablo e da Martina.

Desço as escadas e já dou de cara com a Martina com aquela cara de boa garota que não me engana mais. A Maisa, irmã dela parece alheia a tudo como se fosse normal irem fazer o chá de panela e bebê na casa da ex do noivo da irmã.

— Vai sair, Carmen? — pergunta, fingindo estar decepcionada por eu não ficar.

Coloco minha máscara de quem não está nem aí pra tudo isso. Fingindo uma felicidade que estou longe de sentir. 

— Tenho plantão hoje. O Hospital está lotado com os feridos do atentado no aeroporto e precisam de médicos pra dar conta. — pego uma maçã na fruteira e mordo, pra disfarçar à vontade e chorar.

— Está trabalhando muito, Carmen. Poderíamos nos divertir hoje com os preparativos do casamento e do chá de bebê, não é mamãe? — ela abraça a barriga que nem está visível ainda e sei que isso é pura provocação.

— Divirtam-se vocês. Eu tenho que ir — me despeço, mas antes de alcançar a porta minha tia me dá aquela alfinetada.

— Você tem que ir mesmo ou está fugindo e morrendo de inveja da sua prima? Ainda não aceitou que o Pablo encontrou nela alguém melhor que você?

Congelei por alguns segundos antes de me virar e encarar aquelas quatro mulheres com quem cresci e dividi todos os meus sonhos. 

— A senhora pode me dizer o que o Pablo viu na Martina que seja “melhor” do que teve de mim? — eu a encarei esperando uma resposta.

— Olhe pra você, Carmen — ela me olha com um desprezo como se eu fosse um monte de lixo — agora olhe para minha filha. Linda. Elegante e está preparada para assumir uma casa, ser uma esposa. Não vai ficar na rua trabalhando o tempo inteiro e deixar o marido sem cuidados.

Eu ri. Entendendo a diferença ela acreditava que o Pablo viu entre mim e a filha. Ela seria a esposa troféu enquanto eu seria a mulher que não cuidaria da casa porque se dedicaria ao trabalho.

Sabia que o interesse dele nunca foi nela e sim no que ele podia alcançar casando-se com a filha do chefe. 

— E a senhora acha que isso me torna inferior a ela a ponto de ser preterida, Tia Rosa? — ela quis me responder, mas eu prossigo antes dela usar aquela voz irritante.

— Se esse foi o motivo pelo qual fui “trocada” por sua filha, eu me orgulho e dou graças a Deus por isso. Não nasci pra ser empregada de marido e viver de lavar as cuecas dele.

— Carmen, não fale assim com a sua tia — minha mãe ralha comigo, defendendo a irmã rica e a sobrinha ao invés da única filha que sustenta a casa.

— Por que mamãe? Você concorda com ela? Já parou para pensar quem iria sustentar a senhora se eu fosse a esposa troféu de alguém? 

— Estou feia, gorda, sem maquiagem e com o cabeço desarrumado porque tenho TRABALHADO MUITO.

Me aproximo um pouco mais do espaço onde elas estão. 

— Alguma de vocês sabe o que é isso? Trabalhar? Pagar as próprias contas? Eu mal tenho tempo pra dormir. Imagine ter tempo pra viver de salão e academia.

Olho pra minha mãe que parece querer me fuzilar. — Vou sair agora para ganhar o dinheiro que paga as contas dessa casa. 

— Você está com inveja da Martina. Homem nenhum vai se interessar por você — tia Rosa continuou destilando o seu veneno e minha mãe nada dizia.

— Deixa, mamãe. Mais cedo ou mais tarde ela vai se acostumar e aceitar que o Pablo agora é meu. Que vamos nos casar e sermos felizes.

— Sabe o que é mais engraçado? — digo, já com a porta aberta prestes a sair. — Isso é tudo o que eu desejo pra vocês. Que realmente sejam muito felizes. 

Saio dali com o corpo tremendo de tanto ódio por ter que ouvir tantos absurdos destro da minha própria casa e minha própria mãe é conivente com isso.

Meu trabalho dá sentido a minha vida. É onde sou essencial. Consigo salvar vida e fazer a diferença. Como foi naquele aeroporto e com aquele homem que segurou minha mão como se eu fosse sua salvação. 

Aquele simples gesto em meio a dor e o desespero, fez me sentir como sempre quis: me sentir importante para alguém. Que faço falta... que minha presença faz a diferença.

Minha vida está vazia, sem graça e sem sentido. Preciso de um milagre. Quem sabe um príncipe em cavalo branco pra me tirar dessa torre onde estou aprisionada. 

Mas príncipes não existem e minha torre não tem saída. Ao menos por enquanto.

A urgência hoje está uma verdadeira loucura. Minha amiga também cirurgiã, doutora Fuentes, mas mim sempre Clara. Estamos a vinte e quatro horas nesse plantão que não termina nunca.

— Esse plantão parece que não vai ter fim. Estou pregada de tanto cansaço — ela me entrega um copo descartável contendo café. 

Estamos na sala dos médicos analisando alguns prontuários de pacientes que aguardam cirurgias. Acabamos de sair do setor de urgência, adiantando o serviço para os próximos colegas que assumirão o turno em alguns minutos.

— Terminei por aqui. Vou me trocar e te encontro próximo ao elevador — Clara sai da sala e eu fico ali, juntando coragem e força para voltar pra casa.

Pego minhas coisas no armário e saiu da sala onde os médicos descansam, em direção ao elevador. 

— Doutora Gonzalez! Por favor... — Ouço a Isabel, enfermeira encarregada do plantão noturno me chamar — esqueceu de assinar a alta do paciente do 402.

— Nossa! Onde anda minha cabeça? — recebo a pasta que ela me entrega para assinar o documento.

Percebo um homem próximo de onde estamos, mexendo em seu celular. Achei estranho estar tão perto, parecia ouvir nossa conversa.

— Você precisa descansar um pouco, Carmen. Do que adianta ajudar a salvar tanta gente e acabar doente? — ela me olha com carinho que sei que tem por mim. — Procura sair um pouco, arejar a mente, se divertir. 

— Vou tentar, Isabel. Só preciso ter coragem pra resolver minha vida. Agora já posso ir? Tem mais alguma coisa pra assinar?

— Não. Era só isso mesmo. Vai lá, que a outra workaholic está esperando no elevador. 

Sigo em direção ao elevador e a Clara já está me aguardando com a porta aberta. Corro e entro, mas antes que aporta se feche, o mesmo homem que estava no celular próximo a mim e a Isabel entra. Ele ainda continua mexendo no aparelho.

— E aí, vai para meu apartamento hoje ou decidiu encarar a dona Dolores?

— Não quero te incomodar por mais tempo, amiga. Já protelei demais e preciso encarar minha realidade. Só precisava recarregar as energias longe daquela situação.

— Sabe que pode ficar lá em casa o quanto quiser, Carmen. Mas também tem que se posicionar e sair desse ciclo tóxico. Isso tem te feito muito mal.

— Vou dar um jeito de sair daquela casa. A mamãe precisa aprender a me respeitar. A vaga no Hospital De La Vega pode ser confirmada a qualquer momento. Isso vai ajudar a alugar um apartamento e ter meu próprio lugar.

— Torço por você, amiga. Vai dar tudo certo e você vai se livrar dessa cruz pesada que carrega.

Vou sim. Minhas costas não suportam mais o peso de uma cruz tão grande.

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