Capítulo 2 Sobrevivendo

Kivia

Demônios.

Na verdade, nem sei onde estou.

Não me permitem ir muito longe do castelo do Alfa dos renegados, onde sirvo como escrava desde que cheguei.

— Vá servir o café da manhã ao mestre.

A cozinheira, uma fêmea asquerosa que vive cheirando a temperos, mas se acha melhor do que todas as escravas, rosna a ordem.

Sigo pelo corredor escuro de pedra até chegar ao quarto, daquele Alfa que obrigam a todas as escravas chamar de Mestre. coloco a bandeja repleta de comida sobre o criado-mudo o mais silenciosamente que consigo.

Ele já está acordado. Me observa.

Sua forma humana é magnífica, tão bonita quanto cruel e perigosa. Pele bronzeada, quase dois metros de puro músculo. Seu olhar me acompanha todos os dias, na ida e na volta. Nunca o vi dormir profundamente, como fazem as fêmeas que passam a noite com ele.

Hoje há duas escravas deitadas ao seu lado.

Mas já houve dias em que eram três.

Ou quatro.

Ele se levanta e segue para o quarto de porta contígua.

— Meninas, o mestre já se levantou. Precisam sair.

As duas acordam a contragosto.

A loira se ergue primeiro. Vejo o sangue escorrendo entre suas pernas alvas. Ela não era virgem.

Ele é que é brutal.

Mesmo assim, elas continuam oferecendo o próprio corpo de bom grado, acreditando que, se se sacrificarem o bastante, um dia deixarão de ser escravas.

A outra tenta se levantar, cambaleando.

— Vamos. — apresso.

— Deixa de ser chata, Kivia. Ainda está muito cedo.

— Então fique aí. Mas também ficará sem a cabeça quando ele voltar.

Ela salta da cama imediatamente. Sabendo quemeu aviso não é vazio.

As duas deixam o quarto tropeçando pelo corredor em direção ao alojamento das escravas.

Retiro os lençóis sujos, coloco um jogo de cama limpo e cheiroso e saio praticamente voando pelo corredor.

Não me apetece passar um segundo a mais do que o necessário perto daquele miserável.

Levo os lençóis até a lavanderia.

A governanta, que nunca foi com a minha cara, surge com ares de Luna.

— Teremos a Festa da Lua na semana que vem. Quero todas as roupas de cama e toalhas impecáveis, escrava.

— Sim.

Sigo carregando o cesto pesado quando sinto um forte puxão nos cabelos, me puxando para trás.

— Sim o quê? — rosna no meu ouvido.

Solto o cesto para tentar afastar sua mão. A dor é tão intensa que, por um instante, tenho certeza de que vou ficar careca.

— Sim, senhora. — gemo.

— Melhorou. Está esquecendo o seu lugar aqui, sarnenta?

— Não, senhora.

Meu couro cabeludo ainda arde.

— Muito bem. Vá fazer o que mandei.

Maldita Virgínia.

Se algum dia eu a encontrasse sem guardas por perto e tivesse tempo suficiente, arrancaria fio por fio daquele cabelo loiro aguado.

Ela acredita que será a próxima Luna desta alcateia.

Não sei se é cega ou apenas iludida.

Nunca vi o mestre demonstrar qualquer interesse por ela.

Mas isso pouco me importa.

Sigo para lavanderia com as costas doendo pelo peso do cesto e a cabeça em chamas e latejando pelo puxão de cabelo que levei.

O que realmente me interessa é que terei uma chance de fugir durante a Festa da lua.

Preciso me organizar.

Se ao menos eu soubesse onde estou...

Minha alcateia ficava no sul do Reino Lupino.

Preciso descobrir onde vim parar.

Quero rever minha filha.

Sentir o cheiro dela outra vez.

Sentir o toque carinhoso do meu companheiro sobre a minha pele.

As lágrimas escorrem apenas por imaginar que talvez eu consiga revê-los.

— O que está fazendo?— Virgínia voltou para me atormentar um pouco mais.

— Vou colocar as roupas para bater, senhora.

— Rose, assuma.

Uma jovem escrava toma meu lugar.

— Kivia, venha comigo.

Sigo atrás dela até o alojamento das escravas.

Todas experimentavam trajes de couro extremamente curtos.

Meu coração dispara.

— Senhora... sou escrava doméstica e exclusiva do mestre.

O tapa faz meu rosto virar para o lado, queimando.

— Insolente! Receberemos muitos machos, e as escravas serão o entretenimento. Aprenda a coreografia como as outras.

Ela j**a um traje minúsculo contra o meu rosto.

Fecho os olhos por reflexo .

A roupa cai aos meus pés.

Selene me ajude pois estou perdendo a fé.

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