Mundo de ficçãoIniciar sessão
Capítulo 1
O olhar delas nunca mente. Quando passo, o rosto se fecha, os sussurros começam, os passos se apressam. Algumas fingem que não me veem — desviam o olhar como se encarar uma mulher como eu fosse contágio. Outras apertam o passo e cochicham ao vento, e eu sei o que dizem. Piranha. Vagabunda. Vergonha do bairro. Já não dói. Faz tempo que deixou de doer. Não é novidade pra ninguém o que eu faço da vida. Nunca fiz questão de esconder, e não é agora que vou começar a ter vergonha. Vergonha é o que eles deviam sentir — os que apontam o dedo com a boca suja e a alma mais suja ainda. Cheguei em casa cedo hoje. Isso, por si só, já era raro. Margarida tava sentada na varanda, os dedos enrugados bordando uns panos velhos que ela insiste em consertar desde que me entendo por gente. O vestido florido dela, manchado de café, balançava com o vento fraco da noite. Mais uma madrugada acordada esperando eu voltar. — Não era pra tá acordada, vó — falei, jogando a bolsa no sofá surrado. — E você não era pra tá chegando essa hora também. Mas a gente faz o que pode, não é? — respondeu, sem tirar os olhos do bordado. Sebastião tava sentado na poltrona de palha, a televisão ligada no último volume, como se ainda ouvisse alguma coisa. Os olhos vidrados na tela, o queixo caído, o peito subindo devagar. Dormindo acordado. Deixei o dinheiro da semana em cima da geladeira, como fazia toda terça e sexta desde que me entendo por gente. As notas amassadas, suadas, sujas de uma vida que ninguém escolhe, mas que sustenta essa casa. Ninguém perguntou nada. Também, pra quê? Eles sabem. Mas também sabem que sem aquele dinheiro não teria o remédio do Sebastião, o leite da Margarida, a conta de luz que sempre chega no limite. — O arroz acabou — disse Margarida, levantando os olhos. — Se der, traz amanhã. — Vou trazer, vó. Pode deixar. Ela assentiu. Só isso. O avô nem olhou pra trás. Apenas resmungou um "boa noite" do canto da boca, sem desgrudar os olhos da novela repetida. O som ecoava pelas paredes finas da casa, misturado com o chiado do ventilador velho e o latido distante de algum cachorro lá fora. Fico calada. Faço o que precisa ser feito. Tem dia que parece que tudo aqui gira do mesmo jeito. Eu saio, volto, pago as contas, finjo que tá tudo bem. E continuo sendo o assunto preferido de quem não tem coragem de viver como quer. As mesmas que me apontam o dedo são as que mandam o marido me procurar na calada da noite. As mesmas que me chamam de vagabunda na rua são as que pedem dinheiro emprestado no fim do mês. A hipocrisia tem cheiro. Cheira a café requentado e sabão em pó barato. E eu tô cansada de sentir esse cheiro todos os dias. O celular vibrou no bolso do short. Tatiane: Cliente marcado. Tô indo. Li a mensagem duas vezes. Ela não perde tempo. E nem eu. Mas hoje, sei lá… tô meio sem saco. Deve ser cansaço. Ou só mais um daqueles dias em que tudo parece pesado demais, como se o ar tivesse mais denso e cada passo exigisse um esforço descomunal. O tipo de dia que a gente olha pro teto e pensa será que é só isso? --- A maioria só me procura no sigilo. Homens casados com aliança brilhando no dedo e a foto da família no celular. Novinhos curiosos que tremem mais que vara verde na primeira vez, as mãos suadas, o olhar perdido. Velhos safados que pagam bem só pra ter alguém que finja que eles ainda são jovens. Tem de tudo nessa vida. De tudo mesmo. Uns pagam certo — dinheiro na mão, antes de qualquer coisa, sem enrolação. Outros tentam dar golpe, conversa mole, promessa vazia, mundos e fundos pra não pagar. Já tive que sair de carro andando com medo, pular em movimento, correr de salto alto pela rua escura. Já chorei calada depois de sair de um quarto, no banheiro, com a maquiagem borrada e a alma em frangalhos. Já engoli sapo por necessidade, sorri pra quem me dava nojo, fingi prazer quando queria era vomitar. Mas também já entrei num carro sabendo que ia sair de lá com o aluguel pago, o mercado cheio, o remédio garantido. E é isso que segura minha cabeça erguida. É isso que me faz levantar da cama nos dias ruins. Não é orgulho. É sobrevivência. Elas me chamam de tudo. Piranha, vagabunda, vergonha do bairro. Mas nenhuma bota comida na minha casa. Nenhuma foi comigo comprar o remédio que meu avô precisa pra dor nas juntas — ele que chegou aos setenta sem nunca ter reclamado de nada e agora mal consegue levantar da cadeira. Nenhuma lavou o lençol da minha avó quando ela tava passando mal, madrugada adentro, sem reclamar do cheiro, do cansaço, da falta de sono. Então podem falar. A língua delas não paga minhas contas. No bairro, ninguém é santo. O vizinho que vende droga na esquina, a mulher que faz jogo do bicho, o cara que desvia mercadoria do caminhão. Cada um tem seu pecado escondido. Eu só não escondo o meu. A maioria só me procura no sigilo. Homens casados com aliança brilhando no dedo e a foto da família no celular. Novinhos curiosos que tremem mais que vara verde na primeira vez, as mãos suadas, o olhar perdido. Velhos safados que pagam bem só pra ter alguém que finja que eles ainda são jovens. Tem de tudo nessa vida. De tudo mesmo. Uns pagam certo — dinheiro na mão, antes de qualquer coisa, sem enrolação. Outros tentam dar golpe, conversa mole, promessa vazia, mundos e fundos pra não pagar. Já tive que sair de carro andando com medo, pular em movimento, correr de salto alto pela rua escura. Já chorei calada depois de sair de um quarto, no banheiro, com a maquiagem borrada e a alma em frangalhos. Já engoli sapo por necessidade, sorri pra quem me dava nojo, fingi prazer quando queria era vomitar. Mas também já entrei num carro sabendo que ia sair de lá com o aluguel pago, o mercado cheio, o remédio garantido. E é isso que segura minha cabeça erguida. É isso que me faz levantar da cama nos dias ruins. Não é orgulho. É sobrevivência. Elas me chamam de tudo. Piranha, vagabunda, vergonha do bairro. Mas nenhuma bota comida na minha casa. Nenhuma foi comigo comprar o remédio que meu avô precisa pra dor nas juntas — ele que chegou aos setenta sem nunca ter reclamado de nada e agora mal consegue levantar da cadeira. Nenhuma lavou o lençol da minha avó quando ela tava passando mal, madrugada adentro, sem reclamar do cheiro, do cansaço, da falta de sono. Então podem falar. A língua delas não paga minhas contas. No bairro, ninguém é santo. O vizinho que vende droga na esquina, a mulher que faz jogo do bicho, o cara que desvia mercadoria do caminhão. Cada um tem seu pecado escondido. Eu só não escondo o meu.






