A escolhida pela lua.
Existem momentos que dividem uma vida em duas partes.
Antes.
E depois.
Hoje eu sei exatamente qual foi o meu.
Não foi o dia em que conheci Gabriel.
Não foi o dia em que descobri os segredos de Serra da Lua.
Nem mesmo o dia em que a profecia finalmente se cumpriu.
Foi antes.
Muito antes.
Foi na manhã em que entrei no meu carro e fui embora.
Naquele momento eu não sabia.
Achava que estava apenas fugindo.
Mas estava caminhando diretamente para o meu destino.
Eu tinha quarenta e três anos.
Um casamento fracassado.
Uma carreira abandonada.
E um coração tão cansado que às vezes parecia mais velho que o resto do meu corpo.
Lembro-me perfeitamente daquela manhã.
O céu estava limpo.
O sol brilhava.
E eu me sentia completamente destruída.
Engraçado como a natureza continua bonita mesmo quando o mundo da gente está desmoronando.
Minhas malas ocupavam o banco traseiro.
Algumas roupas.
Alguns livros.
Meu notebook.
E uma quantidade absurda de sonhos quebrados.
Durante anos eu havia acreditado que estava construindo uma vida.
Uma família.
Um futuro.
Até perceber que estava apenas me apagando aos poucos.
Não aconteceu de uma vez.
Foi lento.
Silencioso.
Traiçoeiro.
Primeiro abandonei alguns projetos.
Depois deixei de escrever.
Depois deixei de acreditar em mim mesma.
Quando percebi, já não reconhecia a mulher que via no espelho.
A escritora cheia de sonhos tinha desaparecido.
No lugar dela havia apenas alguém tentando sobreviver.
Meu celular tocou.
Era Augusto.
Meu tio.
A única pessoa que realmente insistiu em permanecer ao meu lado durante os meses mais difíceis.
— Já saiu?
Perguntou.
Sorri pela primeira vez naquela manhã.
— Acabei de pegar a estrada.
— Ainda dá tempo de desistir.
— Nem pense nisso.
Ele riu.
— Só estou dizendo que a cidade vai sobreviver sem você.
— Talvez.
— Mas eu não garanto que vou sobreviver sem minha sobrinha me ajudando a consertar o telhado.
— Isso parece chantagem emocional.
— Porque é.
Ri.
E aquele pequeno momento de leveza foi suficiente para aliviar parte do peso que carregava.
— Chego antes do anoitecer.
— Estarei esperando.
— Eu sei.
— Dirija com cuidado.
— Sempre.
Desliguei.
E pela primeira vez senti uma pontada de expectativa.
Pequena.
Mas real.
A estrada parecia não ter fim.
Montanhas começaram a surgir no horizonte.
Grandes.
Imponentes.
Antigas.
Na época achei apenas bonitas.
Hoje sei que escondiam muito mais do que paisagens.
Escondiam histórias.
Segredos.
Verdades que mudariam minha vida.
Mas naquela manhã eu era apenas uma mulher cansada tentando recomeçar.
Nada mais.
Conforme dirigia, lembranças insistiam em voltar.
Momentos do casamento.
Discussões.
Promessas quebradas.
Silêncios.
Eu odiava os silêncios.
Às vezes eles machucavam mais do que as palavras.
Principalmente quando percebemos que estamos dividindo uma casa com alguém que já não nos enxerga.
Passei anos tentando salvar algo que já estava morto.
E talvez a pior parte tenha sido admitir isso.
Porque admitir o fim de um sonho dói.
Dói muito.
Fiz uma parada numa pequena lanchonete de estrada.
Pedi um café.
Sentei perto da janela.
E observei o movimento.
Pessoas indo para algum lugar.
Pessoas voltando de algum lugar.
Pessoas vivendo suas vidas.
Enquanto eu tentava descobrir como reconstruir a minha.
Foi ali que abri meu notebook.
Apenas por alguns minutos.
A tela em branco apareceu diante de mim.
Durante anos aquela tela havia sido minha melhor amiga.
Depois se transformou em uma inimiga.
Eu olhava para ela.
E nada vinha.
Nenhuma história.
Nenhuma inspiração.
Nenhuma coragem.
Naquele dia não foi diferente.
Fechei o notebook novamente.
Suspirando.
Sem imaginar que, alguns meses depois, estaria escrevendo a maior história da minha vida.
A história que você está lendo agora.
Quando voltei para a estrada, o sol já começava a descer.
As montanhas estavam mais próximas.
A paisagem mais bonita.
Mais selvagem.
Mais misteriosa.
E então vi a placa.
Bem-vindo a Serra da Lua.
Lembro de ter sorrido.
Foi um sorriso pequeno.
Mas sincero.
Como se alguma parte de mim soubesse que aquele lugar significava algo.
Mesmo sem entender o quê.
A estrada de terra parecia atravessar outro mundo.
Casas simples.
Colinas verdes.
Cercas antigas.
Animais pastando ao longe.
Tudo parecia mais lento.
Mais tranquilo.
Como se o tempo corresse em outro ritmo.
Quando finalmente avistei a casa de Augusto, senti um nó se formar na garganta.
Não por tristeza.
Mas por alívio.
Depois de meses me sentindo perdida.
Finalmente estava chegando a algum lugar.
Eu não sabia por quanto tempo ficaria.
Não sabia o que encontraria ali.
Não sabia que minha vida estava prestes a mudar.
Sabia apenas de uma coisa.
Precisava recomeçar.
E, naquela tarde dourada de junho, enquanto estacionava diante da velha casa cercada por montanhas, eu acreditava que estava chegando ao fim de uma história.
Mal imaginava que estava entrando no primeiro capítulo da maior aventura da minha vida..