O andar superior da mansão era um labirinto de opulência e sombras. Enquanto o andar de baixo fervilhava com música clássica e negócios escusos, Vincenzo havia se retirado com Ysa, uma modelo de beleza agressiva que buscava o favor do Don. No escritório privativo, o clima era de urgência. Entre beijos famintos e mãos impacientes, Ysa agachou-se, iniciando um oral que testava os limites do autocontrole de Vincenzo. Ele segurava os cabelos dela, a mandíbula travada, os olhos fixos no teto, tentando manter a postura de comando mesmo naquele momento de entrega.
Foi então que o trinco girou. A porta se abriu com um solavanco.
Luna entrou no cômodo, o rosto pálido pelo desespero de encontrar um banheiro. A cena que a atingiu foi como um soco. Vincenzo, com a camisa entreaberta e a expressão de puro choque que rapidamente se transformou em fúria, soltou um palavrão pesado em italiano.
— Cazzo! — a voz dele trovejou.
Luna arregalou os olhos, sentindo o sangue fugir do rosto.
— Me desculpe! Eu... eu não sabia! Perdão! — Ela bateu a porta com força, o coração batendo na garganta.
Ela correu pelo corredor até encontrar o banheiro correto. Lá dentro, enquanto tentava se acalmar, suas mãos tremiam. "Eu sou uma idiota", pensava ela. "Eu acabei de interromper o Don Medici".
O Confronto
Uma hora depois, Luna tentava ser invisível. Ela circulava pelo salão com a cabeça baixa, servindo os convidados com uma eficiência robótica. Mas o destino — e Julia — tinham outros planos.
— Vincenzo! — chamou Julia, puxando Luna pelo braço em direção ao círculo central onde o primo estava, agora impecável em seu terno, embora com um olhar que prometia tempestade. — Quero te apresentar formalmente minha melhor amiga, Luna. Ela é incrível e muito inteligente.
Vincenzo se virou lentamente. O reconhecimento em seus olhos foi imediato e cortante. Julia, alheia ao incidente no escritório, continuou:
— Primo, eu quero que a Luna seja minha assistente pessoal. Ela precisa sair da situação em que vive, e ninguém ousaria mexer com ela se ela estivesse sob o teto dos Medici. O que acha?
Vincenzo deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Luna. Seus 1,90m faziam com que ela tivesse que inclinar a cabeça para trás para encará-lo. O cheiro de sândalo e poder que emanava dele era inebriante.
— Então você é a garota que gosta de abrir portas sem bater? — Vincenzo perguntou, sua voz baixa e perigosa, audível apenas para ela. — Você tem o hábito de ser tão... curiosa, Luna?
Os homens de confiança, Giovanni e Luca, trocaram olhares tensos ao fundo. Vittorio observava, curioso com a reação do irmão. Luna sentiu o medo paralisante, mas a imagem do Tio José em casa e a necessidade de proteger Mila lhe deram uma força repentina. Ela não podia recuar.
— Eu tenho o hábito de procurar o que preciso, Don Medici — Luna respondeu, a voz firme apesar do tremor interno. — E, no momento, eu precisava de um banheiro, não de um espetáculo privado. Se a sua segurança fosse tão boa quanto a sua fama, aquela porta estaria trancada.
O silêncio caiu sobre o grupo. Julia prendeu a respiração. Ninguém falava assim com Vincenzo Medici.
Vincenzo estreitou os olhos, uma chama de admiração sombria cruzando seu olhar. Ele estendeu a mão e tocou o queixo de Luna, forçando-a a manter o contato visual. A possessividade que ele sentira mais cedo voltou com força total.
— Você tem língua afiada para alguém tão pequena — ele murmurou, o polegar roçando o lábio inferior dela de forma provocante. — Julia, ela pode ser sua assistente. Mas avise-a: na minha casa, quem dita as regras sou eu. E eu não perdoo erros duas vezes.
Ele se afastou, deixando Luna com as pernas bambas e a certeza de que sua vida, a partir daquele instante, pertencia ao diabo mais perigoso da Itália.