CAPÍTULO 4

— Aquela garota ingrata e egoísta!

Frederico bateu a mão sobre a mesa.

— Como ousa fugir assim? Se os Falconi souberem, será o nosso fim!

Amélia continuava olhando para a tela do celular, lendo e relendo a última mensagem enviada pela filha.

Uma parte dela temia as consequências daquela fuga, mas outra se sentia aliviada por ela ter ido embora.

— Assim é melhor... — murmurou, olhando para a foto de família sobre a mesa.

— O quê? Do que você está falando?! — Frederico perguntou, irritado.

— Eu já perdi uma filha por causa dos Falconi. A Josefina morreu no carro que o Damian dirigia, e agora eles querem destruir também a vida da Serafina? Prendê-la a um homem paraplégico, preso a uma cadeira de rodas?!

— Pare de falar essas besteiras! — Frederico elevou a voz.

— Não! Eu não vou parar! As minhas filhas não têm que pagar pelos erros dos outros! Uma vida por uma vida, não é assim? Eles já tiraram a vida da minha Josefina e não têm o direito de me tirar a Serafina também!

O homem olhou para a esposa com irritação, mas logo suspirou e se acalmou. Aproximou-se dela e segurou-lhe os ombros com carinho e gentileza.

— Eu entendo, meu amor. Mas você sabe como as coisas funcionam. Damian também perdeu muita coisa naquele acidente... mas isso não muda o fato de que os Falconi nunca esquecerão aquela dívida. Josefina morreu, mas nossa dívida com os Falconi permanece.

Frederico fez uma pausa, encarando a esposa.

— E, se não encontrarmos a Serafina antes que os Falconi descubram que ela fugiu, eles considerarão isso uma quebra do acordo de paz. E, neste momento, não temos força suficiente para enfrentá-los. Então, precisamos encontrar a Serafina e trazê-la de volta.

Amélia desviou o olhar, encarando o rosto das duas filhas na fotografia.

— Você sempre manteve contato com ela. Você sabe onde ela está. Diga-me, e eu a trarei de volta para casa, em segurança, para perto de nós. Mas, se ela não voltar, os Falconi irão atrás dela... e isso será muito pior.

Frederico ergueu delicadamente o rosto da esposa, falando baixo e com ternura.

— Me diga para onde ela foi. Esse é o único jeito de proteger a nossa menina.

Amélia voltou a abaixar o olhar, e uma lágrima caiu sobre o rosto da filha na fotografia.

. . .

NOVA IORQUE...

Serafina acordou e se espreguiçou, sorrindo ao olhar pela janela do pequeno apartamento compartilhado.

Mais um dia de trabalho. Mais um dia comum.

Ela se levantou, se arrumou e logo saiu para pegar o metrô rumo ao hospital.

Naquele último mês, aquela havia sido sua rotina. Para muitos, talvez parecesse cansativa e sem graça. Mas ela não se imaginava vivendo de outra forma.

Gostava daquela vida simples e comum.

Completamente diferente da realidade em que cresceu, e para a qual quase foi arrastada de volta.

Ela chegou ao hospital, assumiu o turno e passou a manhã visitando e cuidando dos pacientes.

Mais tarde, durante a pausa, foi pegar um café na cafetaria e ouviu uma voz chamá-la.

— Serafina! Aqui!

Ela pegou seu café e se aproximou da mesa onde algumas colegas conversavam.

— Hoje não era seu dia de folga? — uma delas perguntou.

— Estou cobrindo o professor Lowen. Ele precisou viajar.

— Você trabalha demais — outra reclamou. — Se continuar vivendo dentro desse hospital, nunca vai arrumar um namorado.

— Verdade — concordou uma terceira. — Às vezes me arrependo de ter escolhido medicina. Queria ter nascido herdeira rica. Viver em mansões, viajar, usar roupas de grife...

— Ainda dá tempo. Arranja um herdeiro milionário e casa com ele.

— Aqui? No máximo, ela consegue um velhinho simpático com uma boa aposentadoria.

As garotas caíram na risada.

— Esses herdeiros ricos só se casam entre eles mesmos — comentou outra. — Casamentos arranjados, contratos, essas coisas. O dinheiro nunca sai do círculo deles.

— Meu sonho de adolescente era ter um casamento arranjado com um bilionário bonito e gostoso.

— Ah, vai sonhando!

As risadas continuaram, mas Serafina permaneceu em silêncio, girando lentamente o copo entre os dedos.

Já fazia um mês desde que fugira da Itália. Cortou todos os contatos e pegara voos diferentes para não deixar rastros, mas ainda tinha pesadelos frequentes onde era encontrada e arrastada de volta.

Ela respirou fundo, tentando afastar a ansiedade e se tranquilizar.

Ninguém sabia onde ela estava, ninguém poderia encontrá-la ali.

— Serafina?

Ela piscou, despertando dos próprios pensamentos.

— Estávamos perguntando por que você não foi com o professor Lowen. Todo mundo sabe que você era a aluna favorita dele.

O sorriso dela vacilou por um instante.

— Ouvi dizer que ele foi chamado para a Itália — comentou outra jovem médica. — Parece que um figurão importante sofreu um acidente grave.

O corpo de Serafina ficou tenso imediatamente.

— Não foi só o professor Lowen — acrescentou outra. — Chamaram especialistas do mundo inteiro. Fisiatras, neurologistas, ortopedistas, fisioterapeutas... estão gastando milhões na reabilitação desse homem.

— Tudo isso por causa de um acidente?

A garota se inclinou sobre a mesa, baixando a voz como se contasse um segredo.

— Dizem que ele ficou paraplégico... e que pertence à máfia italiana.

As outras arregalaram os olhos.

— Máfia de verdade?

— Uhum. Um amigo da minha mãe foi chamado para trabalhar lá. Ele disse que a mansão parece uma fortaleza, cheia de homens armados. E o paciente... parece ter ficado completamente amargurado e tem uma atitude e temperamento difíceis.

— Credo...

— Disse também que ele já expulsou vários médicos e quase atirou em um deles durante uma crise.

— Para! Você assiste filmes demais.

— Estou falando sério!

As garotas começaram a sussurrar rumores sobre a máfia italiana, misturando exageros com histórias assustadoras.

— Mas isso existe mesmo? — uma perguntou. — Tipo... famílias mafiosas e tudo mais?

— Serafina, você é italiana. Deve saber alguma coisa.

Serafina viu todos os olhares da mesa sobre ela.

— Eu... eu cresci no interior com meus avós — respondeu rapidamente. — Nunca tive contato com esse tipo de gente.

— Ainda bem — comentou outra. — Porque eu morreria de medo.

— O professor Lowen foi cuidar desse mafioso, já imaginou se ele cometer um erro no tratamento e acabarem cortando as mãos dele?

— Para de falar besteira! O professor Lowen é um dos melhores fisioterapeutas do mundo!

As outras concordaram, confiantes, mas Serafina mal conseguia ouvi-las.

Seu café esfriava lentamente entre seus dedos, nervosa. No fundo, sabia que aqueles rumores não eram apenas histórias exageradas.

E, conhecendo Damian Falconi e seu último encontro com ele... não podia descartar a possibilidade de ele realmente apontar uma arma para a cabeça de um médico e atirar.

No fim do turno, ao entardecer, Serafina pegou o celular para ligar para o professor e saber como ele estava, já que passara o dia inteiro preocupada após ouvir que ele estava cuidando de Damian.

Mas, antes que pudesse fazer a ligação, suas colegas chegaram e a arrastaram em direção à saída.

— Vamos para o barzinho da esquina? Quero tomar só um golinho para relaxar e dormir até depois de amanhã.

— Céus, você só bebe. Nem parece médica.

— Ah, cala a boca, eu só... Gente, o que é isso?

Todas olharam para a frente.

As portas automáticas do hospital se abriram.

Seis SUVs pretos estacionaram na entrada, bloqueando metade da rua.

Homens de terno desceram dos veículos em silêncio, espalhando-se pelo local enquanto os seguranças do hospital eram afastados e neutralizados sem qualquer dificuldade.

As conversas ao redor morreram, e todos os olhares se voltaram para a cena.

As colegas de Serafina recuaram imediatamente.

Mas ela ficou parada. Paralisada de medo ao reconhecer aqueles homens no instante em que os viu.

Um homem alto e forte desceu de um dos carros, caminhando até ela com passos firmes e expressão séria.

Ele se aproximou, parando bem à sua frente, e inclinou a cabeça respeitosamente.

— Senhorita Moretti. Vim levá-la de volta para a Itália. Ordens do Don Falconi.

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