Daniel
Eu fechei a porta de casa com mais força do que precisava. Joguei as chaves em cima da mesa e passei a mão no rosto. Minha cabeça estava um caos. Ódio, ansiedade, pressa. Tudo misturado.
Peguei o celular quase no automático. O número já estava ali, fixo. Eu mesmo tinha mandado salvar daquele jeito. Respirei fundo e liguei.
Chamou duas vezes.
— Fala — a voz do outro lado era seca, grossa.
— Sou eu — disse. — Quero saber das crianças.
Houve um pequeno silêncio. Aquilo sempre me irritava.
— Elas estão bem — ele respondeu. — Do jeito que combinamos.
Fechei os olhos por um segundo.
— Bem como? — perguntei. — Quero detalhes.
Ouvi barulho ao fundo. Gente andando, talvez uma televisão ligada.
— A babá tá com elas o tempo todo — ele disse. — Não sai de perto nem pra ir ao banheiro. As crianças comeram agora há pouco. Arroz, frango. Dormiram depois.
Meu peito apertou mesmo assim.
— E agora?
— Agora estão acordadas de novo. Chorando um pouco.
— Por quê?
— Porque sentem falta dos pais, né?