Mundo ficciónIniciar sesiónMariana quase não dormiu naquela noite.
O papel com a proposta de trabalho estava dobrado sobre a pequena mesa da cozinha, ao lado da xícara de café já frio. Desde que chegara em casa, ela o havia lido pelo menos vinte vezes, como se as palavras pudessem mudar a cada nova leitura. Mas não mudavam. O valor continuava o mesmo. Três vezes mais do que ela ganhava na empresa. Três vezes. Aquilo pagaria o remédio da mãe por meses. Talvez anos. Do outro lado da mesa, Dona Lúcia observava a filha com o olhar preocupado. — O que foi que aconteceu, Mariana? Ela hesitou por alguns segundos. Contar toda a verdade parecia impossível. Nem ela mesma tinha certeza do que estava acontecendo. — Meu chefe… — começou devagar — me fez uma proposta de trabalho. — Uma promoção? Mariana deu um pequeno sorriso nervoso. — Mais ou menos. Ela empurrou o papel em direção à mãe. Dona Lúcia pegou a folha com cuidado e começou a ler. Conforme seus olhos percorriam as linhas, sua expressão mudava de surpresa para incredulidade. — Esse salário está certo? — Está. — Minha filha… isso é muito dinheiro. Mariana assentiu. — Ele quer que eu trabalhe na casa dele. — Como empregada? — Isso. Dona Lúcia franziu a testa. — E por que ele escolheria você? Era exatamente a pergunta que Mariana vinha se fazendo. Ela respirou fundo. — Porque eu ouvi uma conversa que não devia. A mãe arregalou os olhos. — Que tipo de conversa? Mariana ficou em silêncio por alguns segundos. — Coisas da empresa… coisas sérias. Dona Lúcia colocou o papel de volta sobre a mesa. — Isso parece perigoso. — Eu sei. — E você está pensando em aceitar? Mariana olhou para as mãos. — Eu não sei. Ela levantou os olhos e encarou a mãe. — Mas eu sei que aquele remédio custa quase dois mil reais por mês. O silêncio caiu sobre a pequena cozinha. Dona Lúcia suspirou profundamente. — Eu não quero que você se meta em problemas por minha causa. Mariana segurou a mão dela. — Não é só por você. Ela olhou ao redor da casa simples. As paredes descascadas. O sofá antigo. A cozinha apertada. — Eu estou cansada de sobreviver, mãe. Dona Lúcia apertou a mão da filha com carinho. — Então faça o que seu coração mandar. Mas o problema era justamente esse. Mariana não sabia o que o coração dela estava dizendo. Na manhã seguinte, ela acordou mais cedo do que o habitual. Vestiu o uniforme da empresa e pegou o ônibus em silêncio, observando a cidade acordar pela janela. Quando chegou ao prédio da Vasconcelos Capital, o coração já estava acelerado. Ela passou pela recepção, cumprimentou alguns colegas e foi direto para o elevador de serviço. O último andar parecia ainda mais silencioso do que no dia anterior. A secretária de Miguel estava sentada atrás da mesa, digitando no computador. Assim que viu Mariana, levantou os olhos. — Ele está esperando por você. Mariana engoliu seco. — Posso entrar? — Pode. Ela bateu duas vezes na porta. — Entre. Miguel estava de pé perto da janela, olhando a cidade lá embaixo. O sol da manhã iluminava parcialmente o escritório, criando sombras elegantes sobre os móveis escuros. Ele se virou quando Mariana entrou. — Então? A voz dele era calma. — Você decidiu? Mariana segurava a bolsa com força. — Eu preciso desse emprego. Miguel a observou por alguns segundos. — Isso não é exatamente uma resposta. — Eu aceito. As palavras saíram rápidas. Miguel assentiu levemente, como se já esperasse aquilo. — Ótimo. Ele caminhou até a mesa e pegou alguns documentos. — Você começa amanhã. Mariana arregalou os olhos. — Amanhã? — Sim. Ele deslizou um contrato sobre a mesa. — Moradia inclusa. Ela franziu a testa. — Moradia? — Você vai morar na mansão. Mariana ficou em choque. — Eu não posso deixar minha mãe sozinha. Miguel a encarou por um momento. — Então ela vai com você. Aquilo a pegou completamente desprevenida. — O quê? — A casa é grande o suficiente. Ele falava como se fosse a coisa mais simples do mundo. Mariana não sabia o que dizer. Miguel continuou: — Eu quero você disponível. Ela começou a perceber que aquilo era mais do que um simples emprego. Era vigilância. Ele queria mantê-la perto. — Você não confia em mim — disse ela. Miguel não negou. — Confiança se constrói. Ele se aproximou alguns passos. — E você precisa entender uma coisa, Mariana. Ela levantou os olhos para ele. — Aquela conversa que você ouviu… O olhar dele ficou mais sério. — Não é algo que pode sair dessas paredes. Ela assentiu rapidamente. — Eu nunca contaria. Miguel inclinou levemente a cabeça, analisando-a. — Eu espero que não. Por um momento, o silêncio se instalou entre os dois. Foi então que a porta da sala se abriu abruptamente. Olívia entrou. Os olhos dela encontraram Mariana imediatamente. E estreitaram. — O que ela está fazendo aqui? Miguel respondeu com tranquilidade. — Trabalhando. Olívia riu com desprezo. — Trabalhando? Desde quando faxineiras ficam na sua sala? Miguel respondeu sem mudar o tom. — Desde agora. Mariana sentiu o clima ficar pesado. Olívia caminhou até o centro da sala. — Miguel, você só pode estar brincando. Ele cruzou os braços. — Não estou. — Você vai levar essa garota para sua casa? O olhar dela era puro veneno. Mariana sentiu o rosto esquentar. — Senhora, eu— — Fique quieta — cortou Olívia. Miguel falou imediatamente: — Não fale assim com ela. Olívia se virou para ele, incrédula. — Você está defendendo ela de novo? Miguel não respondeu. E aquele silêncio foi pior do que qualquer palavra. Olívia respirou fundo, claramente tentando se controlar. — Isso não acabou, Miguel. Ela lançou um último olhar frio para Mariana. E saiu da sala batendo a porta. Mariana ficou imóvel. — Eu acho que ela me odeia — murmurou. Miguel voltou para trás da mesa. — Ela odeia perder controle. — Eu não quero causar problemas. Ele levantou os olhos para ela. — O problema não é você. Mas Mariana não tinha tanta certeza disso. Quando saiu da sala, o contrato ainda estava em suas mãos. E pela primeira vez ela percebeu que sua vida estava prestes a mudar de uma forma que talvez nem ela estivesse preparada para enfrentar.






