Mundo ficciónIniciar sesiónMariana passou o resto do dia em um estado estranho de ansiedade.
Mesmo enquanto limpava os corredores da empresa, sua mente continuava voltando para a conversa que tivera com Miguel. A proposta parecia boa demais para ser real. Moradia. Um salário três vezes maior. E a possibilidade de levar sua mãe com ela. Mas havia algo por trás de tudo aquilo. Algo que ela não conseguia ignorar. Miguel Vasconcelos não era o tipo de homem que fazia favores. No fim do expediente, Mariana voltou para casa com o contrato dentro da bolsa. O ônibus estava cheio, como sempre, mas ela mal percebia as pessoas ao seu redor. Quando chegou na comunidade, o céu já estava escuro. Dona Lúcia estava sentada no sofá, assistindo televisão. — Chegou cedo hoje — disse ela. Mariana sentou ao lado da mãe e respirou fundo. — Eu aceitei. A mãe ficou em silêncio por alguns segundos. — Você tem certeza? — Não — respondeu Mariana honestamente. Ela pegou o contrato e colocou sobre a mesa. — Mas isso pode mudar muita coisa pra gente. Dona Lúcia pegou o papel novamente. — Ele realmente disse que eu posso ir também? — Disse. — Esse homem deve ter uma casa enorme. Mariana soltou uma pequena risada nervosa. — Acho que enorme é pouco. Dona Lúcia segurou a mão da filha. — Então vamos tentar. — Você não está com medo? — Estou — respondeu a mãe. — Mas também estou cansada de ver você carregando o mundo nas costas. Mariana sentiu os olhos marejarem. — Talvez seja a nossa chance. Na manhã seguinte, um carro preto estava estacionado na entrada da comunidade. Era elegante demais para aquele lugar. O motorista, vestindo terno, esperava ao lado da porta. Mariana saiu de casa segurando uma pequena mala. A mãe vinha atrás, apoiando-se em uma bengala. Alguns vizinhos olhavam curiosos. — Esse carro é pra você? — perguntou Dona Lúcia, surpresa. — Acho que sim. O motorista abriu a porta educadamente. — Senhorita Mariana? — Sou eu. — O senhor Miguel pediu que eu viesse buscá-la. Mariana trocou um olhar com a mãe. — Vamos. A viagem durou quase quarenta minutos. Conforme o carro deixava o centro da cidade e seguia por uma região mais nobre do Rio de Janeiro, as ruas ficavam mais silenciosas, mais limpas, mais organizadas. Quando o portão de ferro da mansão se abriu, Mariana sentiu o coração acelerar. A casa era gigantesca. Jardins impecáveis cercavam a propriedade, e uma fonte elegante ocupava o centro da entrada. — Meu Deus… — murmurou Dona Lúcia. O carro parou em frente à porta principal. Um homem de meia-idade abriu a porta. — Bem-vindas. Ele usava um uniforme elegante e postura impecável. — Eu sou Alfredo, o mordomo da casa. Mariana desceu do carro ainda olhando tudo ao redor, impressionada. — Prazer… — O senhor Miguel já está esperando. Alfredo pegou a mala de Mariana e as conduziu para dentro da casa. O interior era ainda mais impressionante. Pé-direito alto. Escadarias de mármore. Lustres enormes iluminando o ambiente. Parecia um hotel de luxo. — Eu vou mostrar o quarto de vocês primeiro — disse Alfredo. — Nosso quarto? — Sim. O senhor Miguel pediu que acomodássemos sua mãe no quarto ao lado do seu. Mariana não conseguiu esconder a surpresa. — Obrigada. Alfredo sorriu discretamente. Depois de deixarem as malas, ele disse: — O senhor Miguel está no escritório. Ele pediu para falar com você quando chegasse. Mariana assentiu. — Eu vou lá. Ela atravessou um corredor longo até chegar a uma porta de madeira escura. Bateu duas vezes. — Entre. Miguel estava sentado atrás de uma mesa grande, trabalhando em um notebook. Ele levantou os olhos quando Mariana entrou. — Chegou rápido. — Seu motorista foi muito eficiente. Ele assentiu. — Sua mãe está bem instalada? — Está. Mariana olhou ao redor do escritório. Era elegante, moderno, com enormes janelas que davam para o jardim da mansão. — Essa casa é… enorme. Miguel respondeu com naturalidade. — Eu gosto de espaço. Mariana respirou fundo. — Eu queria agradecer pela oportunidade. Miguel a observou por alguns segundos. — Não é uma oportunidade, Mariana. Ela franziu a testa. — Não? — É um acordo. Ele fechou o notebook. — Você trabalha aqui. — E eu fico em silêncio — completou ela. — Exatamente. Mariana assentiu. — Eu entendi. Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio. Miguel se levantou e caminhou até a janela. — Essa casa é tranquila. — Parece mesmo. — Eu passo pouco tempo aqui. Mariana olhou para ele. — Porque trabalha muito? Ele deu um pequeno sorriso sem humor. — Porque gosto de trabalhar. Ela ficou pensando por alguns segundos antes de perguntar: — Sua noiva vem aqui? Miguel virou o rosto lentamente. — Olívia não mora aqui. — Ah. — Ela tem o próprio apartamento. Ele parecia pouco interessado em continuar aquele assunto. — Você começa hoje. — Hoje? — Sim. Ele caminhou até ela e entregou um pequeno rádio comunicador. — A equipe da casa é pequena. — Quantas pessoas trabalham aqui? — Você, Alfredo e o jardineiro. Mariana arregalou os olhos. — Só isso? — Eu não gosto de muita gente circulando. Ela assentiu. — Certo. Miguel voltou para a mesa. — Tem mais uma coisa. Mariana esperou. — Eu não gosto de curiosidade. Ela entendeu imediatamente. — Eu só vou fazer meu trabalho. Miguel a encarou por alguns segundos. — Espero que sim. Naquele momento, Alfredo apareceu na porta. — Senhor. — Sim? — A senhorita Olívia chegou. Mariana sentiu o estômago apertar. Miguel suspirou discretamente. — Mande ela entrar. Segundos depois, Olívia apareceu no escritório. Ela estava elegante como sempre, usando um vestido caro e salto alto. Assim que viu Mariana ali, sua expressão mudou. — Você só pode estar brincando. O olhar dela foi diretamente para Miguel. — Você realmente trouxe essa garota para dentro da sua casa? Miguel respondeu calmamente: — Ela trabalha aqui agora. Olívia soltou uma risada fria. — Isso vai ser interessante. O jeito como ela disse aquilo fez Mariana sentir um arrepio. Porque naquele instante ela teve certeza de uma coisa. Olívia não iria facilitar sua vida naquela casa. Nem um pouco.






