Sob o mesmo teto

O silêncio que se instalou no escritório era pesado.

Olívia permaneceu parada perto da porta, observando Mariana como se estivesse analisando um objeto desagradável que alguém havia colocado no meio da sala.

Mariana, por sua vez, manteve os olhos baixos. Sentia o coração bater forte dentro do peito.

Miguel parecia o único completamente tranquilo.

Ele voltou a sentar-se na cadeira atrás da mesa.

— Você precisava de alguma coisa, Olívia?

A pergunta foi direta.

Sem emoção.

Olívia caminhou lentamente até o centro do escritório, o salto ecoando no piso de madeira.

— Eu precisava entender o que está acontecendo aqui.

Ela cruzou os braços.

— Primeiro aquela cena ridícula na empresa… agora eu chego na sua casa e encontro uma faxineira dentro do seu escritório.

O olhar dela voltou para Mariana.

— Você não acha isso estranho?

Miguel respondeu sem levantar a voz.

— Não.

— Claro que não — ironizou Olívia. — Afinal, a casa é sua.

Mariana tentou dar um passo para trás.

— Eu posso sair…

Miguel falou imediatamente:

— Fique.

A palavra saiu firme.

Olívia arqueou uma sobrancelha.

— Interessante.

Ela caminhou lentamente ao redor de Mariana, analisando-a de cima a baixo.

— Qual é o seu nome mesmo?

— Mariana.

— Mariana… — repetiu Olívia, como se experimentasse o som da palavra.

Ela inclinou a cabeça.

— Você entende onde está, Mariana?

— Senhora, eu só—

— Essa casa não é lugar para qualquer pessoa.

Miguel interrompeu:

— Já chega.

Olívia se virou para ele.

— Você vai defender ela de novo?

— Eu vou defender o bom senso.

Ele apoiou os braços na mesa.

— Mariana foi contratada para trabalhar aqui.

— Trabalhar ou morar?

— Os dois.

Olívia soltou uma risada curta.

— Isso está ficando cada vez mais estranho.

O olhar dela ficou mais frio.

— Desde quando você se interessa tanto pelos seus funcionários?

Miguel não respondeu imediatamente.

— Desde que eu pago o salário deles.

Olívia respirou fundo, claramente tentando se controlar.

— Eu não gosto disso, Miguel.

— Eu não pedi sua opinião.

O silêncio que se seguiu foi quase cortante.

Olívia pegou a bolsa sobre o braço e caminhou até a porta.

Antes de sair, parou e olhou novamente para Mariana.

— Cuidado.

A palavra foi dita em tom baixo.

— Esse mundo não é para pessoas como você.

Ela então abriu a porta e saiu.

O som dos saltos ecoou pelo corredor até desaparecer.

Mariana soltou o ar que estava prendendo.

— Eu sinto muito.

Miguel franziu levemente a testa.

— Pelo quê?

— Eu não queria causar problemas entre vocês.

Ele se recostou na cadeira.

— Você não causou nada.

Mariana hesitou por alguns segundos.

— Ela parece… muito brava.

Miguel soltou um pequeno suspiro.

— Olívia está acostumada a ter controle sobre tudo.

— Inclusive sobre você?

Ele levantou os olhos lentamente.

— Às vezes.

Mariana percebeu que talvez tivesse ido longe demais.

— Desculpa.

Miguel apenas disse:

— Você pode ir agora.

— Certo.

Ela saiu do escritório com passos rápidos.

No andar de cima, Dona Lúcia estava sentada na cama quando Mariana entrou no quarto.

— E então? — perguntou a mãe.

Mariana sentou ao lado dela.

— Acho que eu já arrumei uma inimiga.

— Quem?

— A noiva dele.

Dona Lúcia arregalou os olhos.

— Ela esteve aqui?

— Sim.

— E?

Mariana suspirou.

— Ela me odeia.

A mãe soltou uma pequena risada.

— Isso foi rápido.

— Mãe, eu estou falando sério.

— Eu também.

Dona Lúcia segurou a mão da filha.

— Pessoas muito ricas às vezes não sabem lidar com quem vem de uma realidade diferente.

Mariana ficou olhando para o chão.

— Eu não quero me meter na vida deles.

— Então não se meta.

— Eu vou tentar.

Mas lá no fundo, Mariana sabia que aquilo talvez não fosse possível.

Mais tarde naquela noite, a mansão estava silenciosa.

Miguel estava sozinho no escritório, analisando alguns relatórios no computador.

O celular sobre a mesa vibrou.

Era uma mensagem de Augusto.

Precisamos conversar.

Miguel ligou imediatamente.

— Fale.

A voz de Augusto veio tensa do outro lado.

— Temos um problema.

— Que tipo de problema?

— O auditor.

Miguel ficou em silêncio.

— Ele não desistiu da investigação.

Miguel fechou lentamente o notebook.

— Onde ele está?

— No Rio.

— Sozinho?

— Pelo que sabemos, sim.

Miguel olhou pela janela do escritório para o jardim escuro.

— Então resolvam isso.

— Já estamos resolvendo.

Augusto fez uma pausa antes de completar:

— Mas agora tem outra coisa.

— O quê?

— Aquela faxineira.

Miguel não respondeu imediatamente.

— O que tem ela?

— Ela ouviu demais.

Miguel apertou levemente a mandíbula.

— Ela está sob controle.

— Você tem certeza?

— Tenho.

Do outro lado da linha, Augusto pareceu pensativo.

— Espero que esteja certo.

A ligação terminou.

Miguel permaneceu parado por alguns segundos.

Então passou a mão pelo rosto.

Na cozinha da mansão, Mariana terminava de guardar alguns utensílios quando ouviu passos atrás de si.

Ela se virou.

Era Miguel.

Ele estava sem o paletó, com as mangas da camisa dobradas até os cotovelos.

Parecia mais humano assim.

Menos distante.

— Está se adaptando?

— Estou tentando.

Miguel abriu a geladeira e pegou uma garrafa de água.

— Minha mãe gostou do quarto?

— Muito.

— Ótimo.

Mariana ficou alguns segundos em silêncio antes de dizer:

— Obrigada por isso.

Miguel a observou por um instante.

— Não me agradeça.

— Por quê?

— Porque isso ainda é um acordo.

Ela assentiu.

— Eu sei.

Miguel deu um gole na água.

— Mariana.

— Sim?

— Você tem medo de mim?

A pergunta a pegou de surpresa.

Ela pensou por alguns segundos.

— Um pouco.

Miguel ergueu uma sobrancelha.

— Só um pouco?

Ela deu um pequeno sorriso.

— Ainda estou decidindo.

Por um breve instante, algo quase imperceptível apareceu na expressão dele.

Um começo de sorriso.

E naquele momento, sem perceber…

Os dois começaram a atravessar uma linha perigosa.

Uma linha que poderia mudar completamente o destino dos dois.

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