Cap 2

Crystal Dixson

Senti Gina me puxar para trás um segundo antes que o pior acontecesse.

O carro passou em alta velocidade, e o motorista colocou a cabeça para fora da janela, xingando até a minha décima geração.

E, para ser sincera...

Ele tinha razão.

Eu estava atravessando a rua com o sinal completamente vermelho.

Gina_ Meu Deus, Crystal! Você está com a cabeça nas nuvens? Quase foi atropelada!

Olhei para ela ainda tentando recuperar o fôlego. Meu coração parecia querer sair pela boca.

Crystal_ Eu... estava distraída.

Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.

Gina_ Disso eu percebi. Mas o que está acontecendo? Você nunca foi assim.

É claro que ela perceberia.

Gina me conhecia melhor do que qualquer outra pessoa.

Crystal_ Não foi nada... só mais uma briga com a Mirian.

Gina_ Como assim? Vocês se falaram hoje?

Crystal_ Sim. Liguei para o meu pai, mas foi ela quem atendeu.

Gina_ E por que você ligou para ele?

Por um instante, hesitei.

Eu não queria preocupá-la.

Crystal_ Nada demais. A universidade mandou os recibos para o meu e-mail por engano. Era só para avisar.

Mentira.

E eu só esperava que Gina acreditasse nela.

Ela me encarou por alguns segundos, como se tentasse descobrir o que eu estava escondendo.

No fim, apenas sorriu.

Gina_ Esquece isso, amiga. Eles não merecem a sua tristeza. Para te animar, que tal irmos àquela cafeteria perto do campus que você tanto ama? Depois da aula.

Sorri de verdade pela primeira vez naquele dia.

Eu adorava aquele lugar.

Meu café gelado favorito, um bom livro e algumas horas de paz.

Para mim, aquilo era praticamente felicidade.

Crystal_ Fechado. A gente se encontra lá depois da aula.

Gina_ Ah, e tem mais. O Kelan me chamou para a festa da fraternidade dele hoje à noite. Vamos?

Fiz uma careta.

Crystal_ Muito obrigada, mas prefiro ficar em casa na companhia dos meus livros. Comecei um romance novo, Traficada para o Don, e estou completamente viciada...

Gina soltou uma risada.

Gina_ Outro romance de máfia? Amiga, você precisa parar de sonhar com personagens que nem existem e viver um pouco a vida real. Vai que encontra um gatinho na festa?

Crystal_ Já disse que esses caras da universidade não fazem o meu tipo.

Gina_ Claro. Você prefere um mafioso sexy, perigoso e completamente fictício.

Revirei os olhos.

Crystal_ Me deixa. Eu não fico julgando você por namorar um jogador de hóquei. Não foi você mesma quem dizia que namorar um atleta da universidade era clichê?

Ela riu.

Gina_ Pode até ser... mas o meu clichê existe. E falando nisso, o Justin perguntou por você.

Franzi a testa.

Crystal_ Quem é Justin?

Gina_ Se você não vivesse com a cara enfiada nos livros, saberia. Ele é o capitão do time de hóquei e o garoto mais popular da universidade.

Crystal_ E de onde esse garoto tão popular me conhece?

Gina_ Ele já me viu com você algumas vezes.

Naquele momento atravessamos os portões do campus.

Crystal_ Mesmo assim, não estou interessada.

Gina_ Mas você nem...

Crystal_ Estamos atrasadas! Melhor correr. Nos vemos na cafeteria de sempre!

Saí correndo antes que ela pudesse insistir mais uma vez.

Na verdade, nem estávamos atrasadas.

Eu só precisava fugir daquele assunto.

Não era que eu não quisesse encontrar alguém.

Eu apenas era tímida demais.

Além disso, nenhum garoto da universidade despertava meu interesse.

Talvez Gina tivesse razão.

Talvez eu realmente tivesse criado expectativas impossíveis depois de tantos romances que li ao longo da vida.

Mas, naquele momento, encontrar um namorado era o menor dos meus problemas.

Eu precisava descobrir como continuaria pagando a faculdade caso não conseguisse uma bolsa de estudos.

Deixei meus pensamentos de lado e segui para a aula.

Eu amava o meu curso.

Cozinhar sempre foi a minha maior paixão, tanto quanto ler.

Por isso, nem percebi o tempo passar.

Quando me dei conta, o sinal já estava tocando, anunciando o fim das aulas.

Fui direto para a minha cafeteria favorita, onde combinamos de nos encontrar.

Gina sempre demorava um pouco mais. Além de ter algumas matérias a mais que eu, ainda costumava passar um tempo com Kelan antes de aparecer.

Pedi meu café gelado de sempre e abri o livro para continuar a leitura.

Fiquei tão envolvida na história que perdi completamente a noção do tempo.

Só voltei à realidade quando o celular vibrou sobre a mesa.

Era uma mensagem da Gina.

«"Amiga, me perdoa! Vou ajudar o Kelan a organizar a festa da fraternidade. Não vai dar para passar aí. A gente se vê em casa. ❤️"»

Suspirei, decepcionada.

Não gostava de levar bolo, mas também entendia.

Respondi que não havia problema e fechei o livro.

Levantei-me, fui até o balcão, paguei a conta e pedi outro café para viagem.

Quando me virei...

Esbarrei em alguém.

O copo escapou das minhas mãos, e o café gelado foi derramado quase por completo sobre um terno que, à primeira vista, parecia custar mais do que todo o meu guarda-roupa.

Meu coração despencou.

Crystal_ Ai, meu Deus! Me desculpe! Eu não vi você aí! Foi um acidente, eu juro!

As palavras começaram a sair todas de uma vez.

Nervosa, procurei um lenço na bolsa para limpar o estrago que havia acabado de fazer.

Antes que eu pudesse tocar no tecido do terno, senti mãos grandes segurarem delicadamente meus pulsos.

Foi só então que levantei os olhos.

E me esqueci completamente de respirar.

O homem à minha frente era, sem exagero, o mais bonito que eu já tinha visto.

Nem todas as autoras dos romances que eu lia juntas conseguiriam descrever alguém como ele.

Era alto, tinha ombros largos e uma postura imponente.

Os olhos cor de mel pareciam prender qualquer pessoa que os encarasse.

A pele bronzeada contrastava com o terno escuro perfeitamente alinhado ao corpo.

Os cabelos castanho-escuros estavam impecavelmente arrumados, e a barba curta deixava seu rosto ainda mais atraente.

Por um instante, tive a estranha impressão de que ele simplesmente não podia ser real.

Desconhecido_ Está tudo bem. Não se preocupe.

A voz grave e levemente rouca percorreu meu corpo como um arrepio inesperado.

Meu estômago pareceu dar um nó.

Crystal_ Tem... tem certeza?

Minha voz saiu quase em um sussurro.

Ele olhou rapidamente para o próprio terno molhado e, para minha surpresa, sorriu de leve.

Não era um sorriso aberto.

Era discreto.

Quase imperceptível.

Mas foi suficiente para transformar completamente a expressão séria de seu rosto.

Desconhecido_ Acontece.

Continuei olhando para a enorme mancha de café.

Crystal_ Eu estraguei o seu terno...

Desconhecido_ Já passei por coisas bem piores.

A resposta me fez erguer os olhos novamente.

Por alguma razão, tive a impressão de que aquelas palavras carregavam um peso muito maior do que aparentavam.

Antes que eu pudesse pensar em outra forma de pedir desculpas, um homem alto, vestindo um terno preto, aproximou-se rapidamente.

Sua postura era rígida, e seus olhos examinavam toda a cafeteria.

Parecia um segurança.

Homem_ Senhor, está tudo bem?

Pela forma como falou, tive a certeza de que aquele homem trabalhava para ele.

O desconhecido apenas fez um leve gesto com a cabeça.

Desconhecido_ Está tudo sob controle.

O segurança lançou um rápido olhar para mim.

Por um instante, senti um arrepio percorrer minha espinha.

Não havia nada de amigável naquele homem.

Crystal_ Eu... realmente sinto muito.

O desconhecido voltou a olhar para mim.

Dessa vez, seus olhos permaneceram nos meus por alguns segundos.

Tempo suficiente para fazer meu coração disparar novamente.

Desconhecido_ Não precisa se preocupar.

A culpa foi dos dois.

Sorri sem jeito.

Era estranho.

Mesmo sem conhecê-lo, eu tinha a sensação de que havia alguma coisa nele...

Alguma coisa impossível de explicar.

Algo que me fazia querer continuar olhando, mesmo sabendo que deveria ir embora.

Sem dizer mais nada, peguei meu café e me afastei.

Só quando já estava do lado de fora da cafeteria percebi que nem sequer perguntei o nome dele.

E, por algum motivo, tive a estranha sensação de que aquele encontro não tinha acontecido por acaso.

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