A esposa secreta do executor da máfia
A esposa secreta do executor da máfia
Por: Daniane Fernandes
Cap 1

Crystal Dixson

Acordei com o som da notificação do celular. Ainda sonolenta, peguei o aparelho sobre a mesa de cabeceira e vi que era um e-mail da universidade.

Franzi a testa.

Minha mensalidade ainda não havia sido paga.

Aquilo era estranho.

Meu pai nunca atrasava o pagamento.

Olhei as horas no visor do celular. Ainda era cedo. Papai só saía para o trabalho às oito da manhã, então provavelmente ainda estaria em casa.

Fazia tempo que não nos falávamos.

Na verdade, nossa relação nunca mais foi a mesma desde que minha mãe morreu em um acidente de carro. Meu pai mal esperou o enterro terminar para assumir o relacionamento com a amante, que já estava grávida.

Mesmo assim, fui obrigada a morar com eles durante quatro anos, até conseguir entrar na universidade.

Foram anos difíceis.

Anos suportando os abusos da minha madrasta enquanto meu pai fingia não enxergar. Sofri com o luto pela perda da minha mãe e com os constantes maus-tratos de Mirian. Foi uma fase muito difícil da minha vida... e ainda dói lembrar.

Pagar meus estudos e minhas despesas em Nova York é o mínimo que meu pai pode fazer depois de tudo o que sofri. Ainda assim, existe uma parte de mim que acredita que ele faz isso porque ainda se importa comigo.

Talvez seja apenas a parte idiota do meu coração.

Minha melhor amiga, Gina, veio comigo para Nova York. Esse sempre foi o nosso sonho de infância: morar juntas, estudar na Universidade de Nova York e, depois de formadas, abrir nosso próprio restaurante.

Ela cuidaria da parte administrativa.

Eu realizaria o sonho de trabalhar com gastronomia e artes culinárias.

Até agora, tudo vinha dando certo.

Com um suspiro resignado, digitei o número do meu pai.

Quase não nos falávamos desde que me mudei para Nova York, no ano passado.

Também nunca mais voltei para casa.

Não queria ter que lidar com minha madrasta nem com meu meio-irmão mimado.

Garret tinha apenas quatro anos. Era uma criança linda, mas estava sendo criada sem limites. Mirian fazia todas as suas vontades e nunca o contrariava.

O telefone chamou algumas vezes até que a ligação foi atendida.

Mas não foi a voz do meu pai que ouvi do outro lado da linha.

Foi a dela.

Mirian_ O que você quer, Crystal?

A impaciência em sua voz era evidente.

Crystal_ Quero falar com o meu pai. Ele está por aí?

Mirian_ Seu pai está no banho. Pode falar comigo que eu passo o recado.

Eu não queria falar com ela, mas o assunto era urgente.

Crystal_ Acho que o papai esqueceu de pagar a minha mensalidade da faculdade. Você pode lembrá-lo, por favor?

Ela soltou uma pequena risada debochada.

Mirian_ Não esqueceu. Nós conversamos e decidimos que não vamos mais bancar você. Já tem dezenove anos e pode muito bem se virar. Além disso, precisamos economizar para o futuro do Garret.

Quase revirei os olhos.

Ela falava como se contribuísse com alguma coisa. Mirian nunca trabalhou na vida.

Crystal_ Você não pode estar falando sério. Eu quero falar com o meu pai. Cadê ele?

Mirian_ Estou falando muito sério. E já disse que o John está no banho.

Meu coração acelerou.

Crystal_ Mas, Mirian, eu estudo em período integral. Não tenho como trabalhar. E, mesmo que conseguisse um emprego, não seria suficiente para pagar a universidade, o aluguel e todas as minhas despesas.

Mirian_ Se vira. Você ainda tem o dinheiro do seguro de vida da sua mãe. Use ele.

Crystal_ Mas...

Não tive tempo de dizer mais nada.

Ela desligou o telefone na minha cara.

Afastei lentamente o celular do ouvido e fiquei encarando a tela apagada.

O desespero tomou conta de mim.

O pior não era perder a ajuda financeira.

O pior era saber que meu pai não teve coragem de me contar aquela decisão pessoalmente.

Mais uma vez, deixou que Mirian resolvesse tudo por ele.

Respirei fundo e tentei controlar as lágrimas.

A verdade é que eu já estava sozinha desde o dia em que minha mãe morreu.

Só demorei tempo demais para aceitar isso.

Mesmo com o peito apertado, obriguei meu lado racional a assumir o controle.

Abri o aplicativo do banco onde estava guardado o dinheiro do seguro de vida da mamãe.

Conferi o saldo.

Era suficiente para me manter até o fim do semestre.

Depois disso...

Eu não fazia ideia do que faria.

Precisaria procurar uma bolsa de estudos ou encontrar alguma outra solução.

Desistir da universidade não era uma opção.

Batidas na porta ecoaram pelo quarto, fazendo-me levar um susto.

No impulso, acabei caindo da cama.

Era a Gina.

Gina_ Crystal! Acorda! Vamos nos atrasar para a aula. Aposto que ficou lendo até tarde de novo e perdeu a hora.

A voz da minha melhor amiga me arrancou dos pensamentos. Eu nem tinha percebido o tempo passar.

Crystal_ Cinco minutos e estarei pronta!

Gritei de volta enquanto corria pelo quarto, decidida a não contar nada a ela por enquanto.

Não queria preocupá-la com os meus problemas.

Gina_ Cinco minutos. Nem um minuto a mais! Não quero me atrasar de novo por sua causa. Aposto que passou a noite lendo um daqueles romances de máfia.

Ah, se ela soubesse o verdadeiro motivo do meu atraso...

Embora, para ser sincera, eu realmente tivesse ficado acordada até tarde lendo.

Era o meu passatempo favorito.

Sempre fui completamente apaixonada por romances, principalmente aqueles em que mafiosos perigosos se rendiam ao amor de mulheres inocentes.

Era impossível não suspirar por histórias assim.

Crystal_ Não vamos nos atrasar. Já estou saindo!

Vesti a primeira roupa quente que encontrei e calcei minhas botas, quase tropeçando de tanta pressa.

Nova York, naquela época do ano, era congelante, e eu não tinha a menor intenção de pegar um resfriado.

Corri para o banheiro, prendi meus longos cabelos loiros em um coque bagunçado, escovei os dentes e lavei o rosto em tempo recorde.

Coloquei os óculos, que só precisava usar para ler, mas que insistia em manter no rosto para não correr o risco de esquecê-los em qualquer lugar.

Quando saí do quarto, Gina já me esperava na sala.

Ela me analisou da cabeça aos pés e abriu um sorriso divertido.

Gina_ Você tem muita sorte de ser bonita. Porque, com essas roupas horríveis que vive usando, só esse rostinho de anjo mesmo para te salvar.

Sorri, fingindo indignação.

Crystal_ Ei! Não me julgue. Foi o melhor que consegui fazer em cinco minutos.

Saímos do apartamento lado a lado.

Gina_ Ah, como se você não se vestisse assim todos os dias.

Revirei os olhos.

Ela me conhecia bem demais.

Afinal, éramos amigas desde a infância.

Desde que me entendia por gente, Gina fazia parte da minha vida.

Ao contrário da minha família completamente desestruturada, ela teve a sorte de crescer em um lar cheio de amor.

Seus pais sempre foram presentes, e ela ainda tinha dois irmãos mais novos, os gêmeos encapetados, como gostava de chamá-los.

Gina_ Ainda bem que moramos perto do campus. Dá para ir andando. Hoje o trânsito está mais lento do que uma tartaruga.

Crystal_ Verdade. Mas eu ainda preferia ir com a minha bicicleta.

Gina_ Nem pensar! Você é estabanada demais para andar de bicicleta em um lugar tão movimentado. Da última vez quase foi atropelada por um ônibus.

Fiz um bico.

Crystal_ Que culpa eu tive? O ônibus surgiu do nada.

Ela caiu na risada.

Gina_ Do nada? Crystal, você atravessou o sinal vermelho pedalando igual uma maluca.

Dei de ombros.

Ela estava certa.

Mesmo assim, ainda não me conformava por ela ter escondido minha bicicleta.

O celular de Gina tocou.

Pelo sorriso que surgiu em seu rosto antes mesmo de atender, tive certeza de que era Kelan, seu namorado.

Enquanto ela conversava, permaneci em silêncio.

Minha mente continuava presa às palavras de Mirian.

Agora eu estava completamente por conta própria.

Precisaria encontrar uma forma de continuar pagando a faculdade, o aluguel e todas as minhas despesas.

Conseguir uma bolsa de estudos já não era apenas uma opção.

Era uma necessidade.

Tão perdida em meus pensamentos, mal prestava atenção ao caminho.

Foi então que uma buzina ensurdecedora cortou o ar.

Gina_ Crystal, cuidado!!

Ergui a cabeça por instinto.

Um carro vinha em alta velocidade na minha direção.

Meu corpo congelou.

Por um segundo, fui incapaz de dar um único passo.

Vi apenas os faróis se aproximando cada vez mais.

Meu coração disparou.

Tudo aconteceu rápido demais.

Senti alguém segurar meu braço com força.

Meu mundo girou.

E, antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, tudo ficou escuro.

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