Mundo de ficçãoIniciar sessãoA porta se fechou e, por alguns segundos, ninguém disse nada.
Eu fiquei olhando para o lugar por onde Isadora tinha saído, tentando processar aquela mulher, aquela frase e aquela entrada triunfal de ex-noiva rica e venenosa. Todas as mulheres acham que podem salvar Rafael Montenegro. Até descobrirem que ele destrói tudo o que toca.
Que maravilha. Eu tinha acabado de assinar um contrato de casamento falso e já ganhei uma ameaça embalada em perfume importado.
— Ela é sempre assim? — perguntei.
Rafael voltou para perto da poltrona, usando a bengala com uma segurança irritante. Ele sabia exatamente onde estava cada móvel daquela sala. Nem encostou em nada. Nem hesitou. Parecia menos um homem cego e mais o dono de tudo, inclusive do ar que a gente respirava.
— Pior.
— Ótimo. Adoro quando a realidade consegue ser pior do que a primeira impressão.
Augusto pigarreou, como se tentasse lembrar a nós dois que ainda estava ali.
— Senhor Rafael, talvez seja melhor continuarmos com as instruções.
— Instruções? — repeti. — Que instruções?
— As básicas para a sua permanência na casa — Augusto respondeu.
A minha permanência na casa. Que jeito bonito de dizer que eu tinha acabado de ser presa num palácio por contrato. Sentei no sofá sem pedir licença, porque minhas pernas estavam começando a falhar. Acho que meu corpo só estava entendendo agora o tamanho da merda em que eu tinha me metido.
— Tá. Vamos lá. Quais são as regras do cativeiro?
Augusto me olhou torto. Rafael, de novo, quase sorriu. Quase. Aquilo estava começando a me irritar.
— Primeira regra — Rafael disse. — Nada de falar sobre o contrato. Para ninguém. Nem para sua mãe.
— Minha mãe não é idiota.
— Então minta melhor.
— Nossa, que conselho lindo. Devia mandar estampar numa almofada.
— Segunda regra: você não circulará sozinha por algumas áreas da casa.
— Por quê?
— Porque não.
— Resposta de criança birrenta.
— Resposta de quem paga suas contas.
Aquilo me deu vontade de levantar e ir embora. O problema é que ele sabia onde bater. Minha mãe. A cirurgia. O dinheiro. Aquele desgraçado não precisava gritar para me colocar no lugar. Bastava lembrar que eu não tinha lugar nenhum.
— Terceira regra — Augusto continuou, claramente tentando evitar uma guerra. — A senhorita deverá usar a aliança o tempo todo, especialmente diante dos funcionários, familiares e convidados.
Olhei para minha mão. A aliança ainda parecia errada no meu dedo. Bonita demais. Pesada demais. Real demais para uma mentira comprada às pressas.
— Minha mãe vai perguntar — falei.
— Diga que se casou — Rafael respondeu.
— Assim? Simples?
— Mentira boa é mentira dita sem pedir desculpa com os olhos.
Eu olhei para ele.
— O senhor fala isso como quem tem prática.
Rafael não respondeu. E foi aí que percebi: ele não respondia quando a pergunta chegava perto demais de alguma coisa verdadeira.
Augusto me entregou outro papel, com horários, nomes de funcionários, orientações da casa e um monte de coisa que eu não tive a menor condição de absorver. Eu só escutava pedaços. Café às sete. Motorista disponível. Segurança. Eventos. Jantares. Família. Imprensa. A cada palavra, meu estômago afundava um pouco mais.
— Estenda a mão — Rafael disse.
— De novo isso?
— Sua aliança está torta.
Eu congelei.
— Como o senhor sabe?
Augusto parou de mexer nos papéis. Rafael ficou quieto por um segundo, como se tivesse percebido tarde demais o que tinha dito.
— Pelo jeito como você está mexendo nela.
A resposta veio rápida. Rápida demais.
— Sei.
Eu devia ter afastado a mão. Mas não afastei. Estendi, mais por desafio do que obediência. Rafael se aproximou até ficar diante de mim. O cheiro dele chegou antes do toque, amadeirado, caro, irritantemente bom. Ele segurou meus dedos e girou a aliança devagar, arrumando a pedra para cima.
Foi um gesto pequeno. Ridículo. Só que íntimo demais. O polegar dele roçou minha pele, e eu odiei o arrepio que subiu pelo meu braço. Odiei mais ainda porque ele percebeu.
— Você prendeu a respiração — ele murmurou.
Puxei a mão.
— Porque o senhor invade o espaço dos outros como se tivesse comprado junto no pacote.
— Comprei o papel de marido.
— Papel não dá direito a encostar.
A boca dele quase sorriu.
— Então me avise quando eu estiver atuando mal.
Meu rosto esquentou, e isso me deu raiva. Rafael Montenegro era arrogante, frio, controlador e provavelmente cheio de problemas. Não fazia sentido nenhum meu corpo reagir a ele. Corpo burro. Corpo sem responsabilidade social nenhuma.
— E onde eu vou dormir? — perguntei, tentando mudar de assunto antes que eu mesma me traísse mais.
Augusto olhou para Rafael. Ah, pronto. Quando advogado olha para o cliente antes de responder, é porque vem bomba.
— No quarto do senhor Rafael — disse ele.
Eu ri. Não uma risada fina, educada. Ri porque era isso ou surtar.
— Não. Nem fodendo.
Augusto arregalou os olhos. Rafael ficou imóvel.
— Lia — ele disse, calmo.
— Lia nada. Eu aceitei fingir casamento, não dividir cama com desconhecido.
— Ninguém falou em dividir cama.
— Mas falou em dividir quarto. Já é ruim o suficiente.
— A casa tem funcionários demais. Minha família tem olhos demais. Se você dormir em outro quarto, vão desconfiar em dois dias.
— Então a sua família é fiscal de colchão?
— Minha família é pior que isso.
A maneira como ele disse me calou por um segundo. Não porque me convenceu, mas porque tinha um peso ali. Como se aquela casa, com todo aquele luxo, fosse menos lar e mais campo de guerra.
— Vai ter tranca? — perguntei.
— No banheiro.
— Estou falando da porta do quarto.
— Tem.
— Ótimo. Eu tranco.
— Se isso te fizer sentir segura.
— Não é para me sentir segura. É para o senhor ficar longe de mim.
Ele virou o rosto na minha direção. De novo, aquele movimento exato demais.
— Você acha que eu sou o perigo desta casa?
— Até agora, o senhor é o único homem que me comprou por contrato. Então, sim, está bem colocado no ranking.
Rafael ficou quieto. Augusto parecia querer desaparecer dentro da própria pasta. Antes que alguém respondesse, uma batida soou na porta. Dessa vez, pelo menos alguém teve educação. Uma mulher de uniforme entrou. Devia ter uns sessenta anos, cabelo preso, expressão séria e olhos atentos demais.
— Senhor Rafael, a suíte foi preparada.
— Obrigado, Amália.
Então aquela era Amália. A governanta. Ela me olhou de um jeito diferente dos outros. Não era desprezo, como Isadora. Nem frieza, como Augusto. Era quase pena, por isso odiei.
— Dona Lia — ela disse. — Posso acompanhá-la.
Levantei tentando parecer firme, mas ainda sentia no dedo o lugar onde Rafael tinha tocado. Isso me irritou tanto que fechei a mão.
Amália abriu a porta para mim. Quando passei por ela, ouvi sua voz baixa, quase um sussurro:
— Não confie em ninguém nesta casa.
Olhei para trás, assustada. Mas Rafael estava virado exatamente para nós, como se tivesse ouvido. E, pela primeira vez, pensei que talvez o perigo daquela suíte não fosse só dividir o quarto com ele.







