CAPÍTULO 3

— Então talvez seja melhor começar a atuar.

Eu encarei Rafael por alguns segundos, tentando decidir se respondia de forma educada ou se mandava aquele homem para a puta que pariu logo no primeiro dia. A segunda opção era mais honesta, mas minha mãe estava sendo transferida para uma clínica particular graças ao dinheiro dele. Era humilhante. Eu estava com raiva, aliviada e apavorada ao mesmo tempo. Um combo maravilhoso para enlouquecer qualquer pessoa.

— Que bom para o senhor — respondi, segurando o impulso de falar coisa pior. — Mas eu não sou atriz. Muito menos móvel da sua casa.

Rafael ficou em silêncio. Augusto também. Talvez ninguém ali estivesse acostumado com alguém respondendo daquele jeito para o poderoso herdeiro Montenegro. Azar o deles. Se esperavam uma mulher muda, submissa e agradecida, tinham escolhido errado.

— Não preciso que você seja atriz — Rafael disse, calmo demais. — Preciso que pareça minha esposa.

— E qual a diferença?

— Uma atriz finge para a plateia. Uma esposa convence até quando está irritada.

Aquilo me incomodou mais do que deveria. Talvez porque ele falasse como se soubesse exatamente o que fazia uma mulher parecer íntima de um homem. O jeito de tocar, de responder, de ficar perto sem recuar. E eu recuei só de pensar nisso.

Ele percebeu. Claro que percebeu. Aparentemente, Rafael Montenegro não enxergava, mas fazia questão de ser insuportável de outras formas.

— Está com medo de mim? — perguntou.

— Estou com medo de precisar de você. É diferente.

Pela primeira vez, a expressão dele mudou de verdade. Foi rápido, quase nada, mas mudou. Como se eu tivesse acertado alguma coisa sem querer. Augusto pigarreou, provavelmente tentando impedir que a conversa virasse uma briga logo no primeiro dia de casamento falso.

— Senhorita Lia, sua mãe será admitida na clínica ainda hoje. A senhora receberá a confirmação dos próximos procedimentos em breve. Amanhã poderá visitá-la com calma.

— Amanhã? — repeti. — Eu quero ver minha mãe hoje.

— Hoje você fica — Rafael respondeu.

— Eu não perguntei ao senhor.

— Mas eu respondi.

Soltei uma risada curta, sem humor nenhum.

— É minha mãe, cacete.

Augusto travou a mandíbula, ofendido com o palavrão. Rafael, por outro lado, quase sorriu. Quase. Era pouco, mas eu vi o canto da boca dele mexer.

— Você fala palavrão quando fica nervosa.

Meu corpo inteiro gelou por um segundo.

— Como o senhor sabe que eu estou nervosa?

— Sua respiração muda. E você aperta a aliança como se quisesse arrancar o dedo junto.

Olhei para minha própria mão. Eu estava mesmo apertando a aliança. Que ódio. Pior do que ele perceber era eu perceber que ele tinha razão.

— Talvez eu esteja nervosa porque acabei de descobrir que meu marido falso quer mandar até no horário em que eu vejo minha mãe.

— Se você sair agora, sai chorando. E não quero minha esposa chegando à clínica parecendo uma vítima.

— Eu sou uma vítima.

— Não na frente dos outros.

Antes que eu respondesse, a porta se abriu sem ninguém bater. Uma mulher entrou como se aquela casa fosse dela. Alta, loira, elegante de um jeito irritante, vestido claro, salto fino, cabelo perfeito, perfume caro. Eu nem precisava saber o nome para entender o tipo: rica, mimada e acostumada a ser esperada, não barrada.

Ela parou quando me viu.

— Rafael… quem é essa?

A sala ficou estranha na hora. Augusto fechou a pasta devagar. Rafael não pareceu surpreso. Eu, sim. Mulher entrando sem bater em sala de homem rico geralmente significa intimidade. E intimidade, naquele caso, era problema.

— Isadora — Rafael disse, frio. — Você deveria avisar antes de entrar.

— Eu moro praticamente aqui.

— Morava.

Ela sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos.

— Que grosseria. Vai me apresentar?

Rafael virou o rosto na minha direção. Mesmo sem me ver, parecia saber exatamente onde eu estava.

— Lia Santos.

Isadora me analisou de cima a baixo. Minha roupa simples, minha bolsa barata, meu cabelo preso de qualquer jeito. Senti cada segundo daquele olhar. Era como se ela estivesse calculando meu preço e achando baixo.

— Funcionária nova? — ela perguntou.

Eu já ia responder, mas Rafael foi mais rápido.

— Minha esposa.

O silêncio que veio depois foi tão absurdo que eu quase olhei para trás para ver se tinha outra mulher ali. Isadora soltou uma risada seca.

— Sua o quê?

— Esposa.

— Rafael, não seja ridículo.

— Não estou brincando.

Eu olhei para ele, chocada. O contrato dizia que eu seria apresentada como esposa, sim, mas eu não esperava que a mentira começasse daquela forma, na minha cara, sem ensaio, sem aviso, sem nada. Nem treinamento para golpe eu tinha recebido. Isadora deu um passo à frente.

— Você espera que eu acredite que se casou com ela?

O “ela” saiu como se eu fosse uma cadeira feia. Respirei fundo, mas Rafael se mexeu antes de mim. Em dois passos, estava ao meu lado. A mão dele tocou minha cintura.

Foi leve. Quase formal. Só que meu corpo não recebeu como formal coisa nenhuma. O toque atravessou o tecido da blusa e me deixou dura feito uma idiota. Não porque eu quisesse. Porque meu corpo era um traidor sem noção de contexto.

— Cuidado — Rafael disse.

A voz dele não aumentou. Nem precisava. O ambiente esfriou. Isadora olhou para a mão dele na minha cintura. Depois olhou para mim. Dessa vez, não havia só desprezo. Havia raiva. E uma pontinha de susto.

— Então é isso? — ela perguntou. — Você arrumou uma substituta?

— Não fale dela como se ela não estivesse aqui.

Minha esposa. Minha cintura. Minha defesa. Tudo falso, claro. Mas falso nenhum deveria bater daquele jeito no estômago.

Rafael aproximou o rosto do meu, perto o bastante para Isadora ver, perto demais para eu respirar normal.

— Sorria um pouco, Lia — ele murmurou. — Esposas costumam gostar quando o marido as defende.

Eu sorri. Não por obediência. Por ódio mesmo.

— Muito prazer, Isadora — falei. — Eu sou a esposa.

O rosto dela endureceu.

— Eu sou Isadora. Ex-noiva do Rafael.

Claro. Óbvio. Sempre tem uma ex-noiva. Gente rica não tem ex-ficante, tem ex-noiva. Ela se aproximou, perfume caro brigando com o cheiro de Rafael ao meu lado.

— Não sei o que ele prometeu a você, mas espero que tenha cobrado caro.

Senti meu rosto esquentar.

— Não é da sua conta.

— Ainda não sabe onde se meteu, né?

Rafael apertou de leve minha cintura. Não doeu. Mas eu senti. E odiei sentir.

— Isadora, vá embora.

Ela ajeitou a bolsa no ombro, caminhou até a porta e, antes de sair, olhou direto para mim.

— Boa sorte, Lia. Todas as mulheres acham que podem salvar Rafael Montenegro.

Fez uma pausa, sorrindo sem alegria.

— Até descobrirem que ele destrói tudo o que toca.

A porta se fechou. Rafael tirou a mão da minha cintura, e o frio que ficou no lugar me irritou mais do que o toque. Pela primeira vez desde que assinei aquela porcaria de contrato, pensei que talvez salvar minha mãe tivesse sido só o começo do problema.

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