Mundo ficciónIniciar sesión2 de Janeiro 2009
Felipe Hoje é o dia mais importante da minha vida, até agora. O aniversário de 13 anos da Kamila. Há anos, o meu presente tem sido apenas uma margarida. Lembro-me da primeira vez que colhi uma; eu tinha sete anos e minha mãe as vigiava como tesouros. Ela me deixou de castigo o dia todo por ter mexido no canteiro, mas, mais tarde, ela viu a Kamila com a flor no cabelo e tudo mudou. Minha mãe me perguntou se eu tinha arrancado para ela e eu confessei que sim. Como era aniversário dela e eu não tinha moedas no bolso, queria dar algo que fosse bonito como ela. Pedi desculpas por bagunçar o jardim, e o olhar da minha mãe amoleceu. Ela decretou: a única exceção para colher uma flor era o aniversário da Mila. Este ano, porém, uma flor não é suficiente. Quero algo que ela possa guardar, um símbolo tangível do que sinto. Eu sempre a amei, mas o sentimento amadureceu, ganhou corpo e me assusta às vezes. A amizade e a admiração que sinto por ela só crescem. Sinto uma vontade inabalável de protegê-la, de ser o arquiteto dos seus sorrisos e o lenço para as suas lágrimas. Para isso, trabalhei duro. Peguei um carrinho de picolé para vender na praça durante as férias, sob o sol quente. Tenho juntado cada centavo há dias. Duas semanas atrás, fui à joalheria e encomendei um anel de prata, simples, mas com um pingente de coração e nossas iniciais gravadas. Não sei qual será a reação dela, mas meu peito transborda a esperança de que ela sinta o mesmo. Hoje vou buscar o anel para pedir que ela seja, oficialmente, minha namorada. Minhas mãos estão suando tanto que mal consigo segurar as coisas. A ansiedade é um peso no estômago e o medo da rejeição é uma sombra que insiste em me seguir. E se ela não quiser? E se eu estragar a amizade mais preciosa que tenho? Perder a Mila seria como perder o chão; ela é o meu elo, a garota que faz tudo parecer certo no mundo. Coloquei a camisa que ela mais gosta: preta, do Charlie Brown Jr. É a nossa banda favorita e ela sempre diz que preto combina comigo. Passo as mãos nervosamente pelos bolsos, conferindo pela décima vez se a caixinha de veludo ainda está lá. Respiro aliviado ao sentir o volume. Ao chegar na casa dela, sou recebido pela Dona Joana, que me sorri com cumplicidade. Os pais dela já sabem de tudo. Pedi permissão antes, como manda o respeito que tenho por eles. Eles disseram que, desde que o carinho fosse sincero e a amizade continuasse a base de tudo, nos apoiavam. No fundo, eles já esperavam que esse dia chegaria. Quando ela aparece, meu ar foge por um segundo. Kamila caminha em minha direção com um sorriso radiante, usando um vestido cor-de-rosa. Sei que ela prefere roupas mais leves, mas usa o vestido para agradar a mãe; esse sacrifício silencioso é só mais uma das coisas que me fazem amá-la. Como em todos os anos, a margarida que dei de manhã está presa em seu cabelo. Olho para o lado e vejo meus pais chegando; o olhar do meu pai é um incentivo silencioso de "vai lá, garoto", enquanto o da minha mãe transmite a paz de que tudo dará certo. Me aproximo dela e, de repente, as palavras parecem ter fugido da minha mente. O discurso ensaiado entala na garganta. O medo de parecer um idiota é grande, mas a vontade de tê-la ao meu lado é maior. Pigarreio, respiro fundo e deixo o coração falar antes que a coragem me abandone. — Mila, você sabe que eu sempre te admirei. Meu dia começa e termina com você nos meus pensamentos. Quando não te vejo, parece que o sol esqueceu de nascer. O amor que sinto por você hoje é mais forte, ele cresceu junto com a gente. Às vezes, eu sinto que você também percebe isso... Por isso, eu gostaria de perguntar: você aceita namorar comigo? Coloquei tudo para fora, mas o silêncio que se segue parece eterno. A ansiedade me consome. Lembro-me do anel. Com as mãos trêmulas, retiro a caixinha do bolso, abro-a e a estendo em sua direção. O brilho da prata reflete a luz da tarde. — Sim, eu quero ser sua namorada! — ela responde, com a voz embargada e um sorriso que apaga todos os meus medos. Ela estende a mão delicadamente. Ainda tremendo, deslizo o anel em seu dedo. Levo sua mão direita aos meus lábios e deposito um beijo suave ali, selando a promessa. Sinto no fundo da alma que este é o início da nossa história real. Mas, por um breve segundo, um arrepio estranho percorre minha espinha, como um pressentimento de que o destino pode testar esse laço. Espanto o pensamento. Hoje, o mundo é só nosso.






