Capitulo 8

Se dependesse das minhas expectativas, analisando a minha primeira impressão na casa dos Montenegros, eu não teria durado muito tempo nesse trabalho. E a própria governanta me alertou que já haviam passado três babás em um único mês e nenhuma tinha conseguido ficar no emprego. Eu não me gabo, porque não é meu mérito, mas já estou a quase um mês nesse trabalho e tenho agradecido todos os dias pelo senhor Montenegro ter ido com a minha cara.

Eu já estava me apegando ao pequeno Theo, ele era meu motivo de me levantar todos os dias de madrugada, fazer minha corrida matinal e ir para o trabalho. Aquele garoto precisava de atenção e carinho e pelo que parecia, até antes de eu chegar naquela casa, ele ainda não tinha experimentado o que era o amor.

A rotina se instalou, de forma orgânica. Trabalhávamos todos como um relógio programado para nunca errar os ponteiros. Theo acordava bem cedo, quando eu chegava ele me recebia na porta com um abraço. Sua pergunta era sempre a mesma.

— Você vai ficar hoje?

Sua pergunta não era uma surpresa, mas sempre que eu ouvia com aquele delicioso sotaque sulista que eu sou apaixonada, meu coração se derrete. Eu não me vejo abandonando aquele garoto.

— É óbvio que eu vou ficar hoje. Vem cá. — agarro Theo e o levanto no ar até o meu rosto e o encho de beijos.

Suas bochechinhas vermelhas e macias ficam manchadas com meu gloss. Me apresso para limpar antes que a fofoqueira da Helena apareça. Ela é a única na casa que não gosta de mim e eu não entendo o motivo, já que nunca fiz nada contra ela, quase nunca nós conversamos. Mas a primeira vez que me viu, já resmungou.

— O que essa daí tem que encantou o seu Arthur? Aposto que fica de gracinha pro lado dele.

Eu ouvi um resmungo por trás da porta, mas não tinha nada contra ela, então, não fiz questão de tirar satisfação. Como diz a minha mamãe, “as cobras morrem pelo próprio veneno”.

Naquela manhã, o sol atravessava as cortinas com uma suavidade rara, o dia estava lindo e iluminado, mas no final de junho no sul, era muito frio, mesmo com aqueles raios desenhando sombras na parte interna da casa, precisávamos evitar brincar no jardim, pela saúde do Theo. Mas dentro da casa, algo havia mudado, eu não conseguia definir o que era, mas o ar estava leve, aquela sensação sombria do primeiro dia tinha desaparecido. A casa agora era no mínimo um lugar habitável, mesmo com o frio lá fora, existia um calor humano lá dentro. Tirando Helena que sempre que aparecia no ambiente conseguia fazer tudo se tornar desconfortável.

— A professora disse que desenho muito bem, sabia?

Theo tagarelava enquanto tomava café e eu arrumava a mochilinha dele para levá-lo para a escolinha. Ele amava ir para escola, mas contava os minutos para chegar em casa e contar tudo o que acontecia para mim. Eu o encarava e meu rosto não disfarçava o amor que eu sentia em vê-lo tão feliz.

— Está pensando que vai substituir a mãe dele, querida? — Helena apareceu com um balde na mão, atrás de mim — logo o seu Arthur enjoa da sua cara e em uma das suas crises vai acabar de jogando na rua, assim como fez com as outras.

Expremi os lábios e revirei os olhos. Eu não queria causar um desconforto na frente do Theo, então mantive a postura e chamei-o para sair. Até no caminho para a escola, Theo gostava de tagarelar.

— Meu pai disse que vai chegar mais cedo hoje pra gente ir no McDonald 's. — ele comentou casualmente.

Aquilo me pegou desprevenida, eu não sabia nada sobre isso, não estava nos planos. Meu coração acelerou e eu demorei um pouco para reagir.

— Você vai com a gente, né Lív? — ele me deu um apelido carinhoso e eu gostei.

—  Não sei, gatinho. Seu pai não me convidou. —  fiz sinal de confusa com as mãos e ele me encarou.

—  Tenho certeza que ele vai te chamar. Ele fica diferente quando você está perto. —  seus olhos penetrantes e profundamente azuis me tiraram o equilibrio.

—  Diferente como? —  esse assunto me interessou mais que o MC.

—  Ele fica menos bravo e sorri, às vezes.

—  Porque você acha isso? —  eu precisava saber o que acontecia na minha ausência.

—  Acho que é o jeito que você olha pra ele. As outras pessoas olham pra ele, estranho, você olha normal.

Antes que pudéssemos dissolver esse assunto, já tínhamos chegado na escola. Theo precisava descer do carro e eu voltaria com uma questão em mente. Eu precisava saber mais. Voltei para casa e enquanto Berta organizava a cozinha, Helena limpava, eu recolhi alguns brinquedos espalhados pela casa.

Arthur costumava almoçar em restaurantes perto da empresa, ele só voltava para casa a noite, geralmente Theo já tinha dormido quando ele chegava. A casa sem a presença de Theo ficava vazia e silenciosa e eu sem o que fazer. Peguei meu livro que tinha ganhado de Adriana no amigo secreto, Mulheres que correm com os lobos, sentei na cadeira de balanço na varanda da lavanderia e me aprofundei na história até a hora de buscar Theo. Assim que ele chegou, a vida em casa voltou. Sentamos de frente um para o outro e inventamos histórias mirabolantes sobre dragões que moravam em roda gigante.

—  Você pode morar aqui pra sempre? —  Theo perguntou de repente e me pegou desprevenida. Eu não soube o que dizer, mas uma voz grave e firme respondeu por mim.

—  Não, filho. Lívia não vai morar aqui para sempre. Ela é só sua babá.

—  Papai!!!! —  Theo levantou rapidamente e agarrou o pescoço do pai.

Aquela cena tão simples e tão delicada me encheu o coração, fiquei emocionada e sem perceber, meu sorriso estava saindo no canto da boca. Assim que Arthur olhou para mim eu disfarcei rapidamente e olhei para outro canto da sala. Ele não podia perceber o quanto aquele abraço aconchegante dele no filho mexia comigo. Meus planos era construir uma família assim, unida, com uma criança feliz e com todas as contas pagas, mas não podia ter esse sonho com meu patrão, ele era muita areia para meu caminhãozinho e se eu ao menos cogitar essa possibilidade, seria demitida na mesma hora.

—  Senhorita Lívia, vou levar o Theo para almoçar no McDonald’s, ele te falou?

—  Falou sim. O senhor quer que eu espere aqui ou vá para casa?

—  Papai, deixa a Lív ir com a gente? Por favorzinho? —  os olhinhos de Theo brilharam ao fazer o pedido para o pai.

Arthur olhou firme para o filho e eu já esperava que seria uma resposta negativa. O senhor Montenegro não era muito de socializar. Mas sua resposta me surpreendeu.

—  Filho, talvez ela não queira ir com a gente. —  ele comentou olhando mais para mim do que para Theo.

—  Vamos, Lív. Por favor? —  Theo me pediu de um jeito que eu não consegui dizer não.

—  É claro, querido. Se você quer, a Lív vai, está bem?

Theo vibrou com a resposta positiva e Arthur assentiu e comentou com Berta que iríamos almoçar fora e não precisava se preocupar. De longe, eu vi o rosto de Helena se contorcer. Ela fez um bico quilométrico e virou a cara.

Sentamos em uma mesinha no Mc, que de tão pequena, nos deixava próximos demais. Sempre que o pé de Arthur acidentalmente pegava no meu por baixo da mesa, meu coração disparava, mesmo eu tentando disfarçar, era impossível, era muito forte o que eu sentia. Minhas bochechas ficaram vermelhas e eu abaixei a cabeça para disfarçar.

—  Você está bem? —  Arthur pergunta observando meu desconforto.

—  Estou bem sim. Só preciso ir ao toillete. —  uma desculpa manjada.

Fui ao banheiro e joguei água no rosto para resfriar as bochechas. Mesmo eu sendo morena clara, quando ficava tímida ou nervosa, era perceptível meu rosto vermelho. Encarei-me no espelho e repetia para mim mesma. ARTHUR MONTENEGRO É TERRITÓRIO PROIBIDO. Sentimento proibido, reação proibida. Contenha-se garota.

Voltei para a mesa e ainda a distância, vi Arthur com Theo no colo, mostrando como funcionava o brinquedinho que vinha com o combo do McDonalds. Meu coração vibrou de um jeito que eu nunca tinha percebido antes. Mesmo quando tive meu primeiro namorado, o Teddy, eu nunca tinha sentido uma emoção tão forte, capaz de me tirar o equilíbrio racional. Sentei-me à frente deles e meu lanche já estava na mesa.

—  Pode comer. Você prefere beber o que? —  Arthur novamente me desconcertou.

Pedi uma coca-cola e ele me trouxe rapidamente. Eu não era acostumada a receber as coisas assim, eu sempre cuidei de mim mesma, sempre paguei minhas contas. E eu jamais esperava isso de Arthur que tinha a fama de um homem duro, cruel e sem sentimentos. Ele estava se mostrando um homem gentil e sensível. Além de ser extremamente gato, isso acabava comigo. Só de olhar todos os dias para seu maxilar perfeitamente alinhado, músculos aparentes sob a camisa branca, lábios carnudos, cabelos cuidadosamente penteados. Sem perceber eu estava mordendo meu lábio inferior e meu coração estava falando mais alto que eu.

—  Quer mais alguma coisa, srta Lívia?

—  Ahn? Oi? —  ele repetiu a pergunta e me apressei em responder —  Não, obrigada.

Arthur nos levou no playground do Mc, onde tinha um brinquedo como fliperama, de mexer nos botões. Me distraí tanto com o brinquedo que não percebi que nossos laços estavam ficando mais próximos e mais fortes. Perdi várias vezes e Arthur pediu para me ensinar como jogar. Eu recusei e disse para ensinar Theo, ele que importava nesse passeio.

—  Não. Vem cá, vou te mostrar.

Arthur colocou sua mão macia e hidratada sobre a minha e meu coração disparou. Ele explicava e eu nem ouvia, meus pensamentos fugiram completamente da minha mente. Sem notar, meus olhos estavam fechados e ao abrir, Arthur estava me encarando de muito perto, de forma que eu conseguia sentir sua respiração no meu rosto. Ficamos nos encarando por alguns segundos que pareciam horas. Os ponteiros do relógio pareciam ter parado. A direção entre meus olhos e os olhos azuis penetrantes de Arthur, saiam faíscas.

— Preciso ir. —  puxei minha mão da dele com rapidez e corri sentido a rua sem olhar para trás.

Não faço a menor ideia do que aconteceu depois, mas meu coração sabia exatamente o que estava acontecendo e eu não podia deixar. Arthur era um homem poderoso que sempre tinha o que queria, eu era só a babá.

Cheguei em casa mais cedo e Adriana já tinha chegado, por algum motivo, a chefe dela fechou o salão mais cedo e ela estava em casa às 16h00. Adriana trabalhava como depiladora a laser em um salão chique da área nobre do Rio Grande do Sul.  Ao chegar, levei até um susto em ver minha amiga ali. Eu só queria me esconder do mundo naquele momento, mas não consegui me esconder da minha amiga que morava na frente do meu AP. Não sei como, mas ela me ouviu chegar e correu para o meu apartamento já fazendo um milhão de perguntas, mesmo eu não querendo responder, não tive como fugir da aquisição da detetive Adriana.

—  Ah, amiga. Parece que você está apaixonada pelo seu patrão.

—  Eu não, está louca? —  respondi imediatamente, mas meu coração dizia outra coisa.

—  Pelo jeito que está agindo, parece que está sim, se apaixonando por ele.

—  Claro que não? Porque eu estaria? Só porque ele é lindo, elegante, gentil, gostoso, rico… —  parei um pouco e viajei nos meus pensamentos.

Adriana caiu na gargalhada, ela me conhecia muito bem e me tirou da minha viagem. Me abraçou e me parabenizou por eu estar caidinha pelo meu chefe.

—  Eu não posso, Dri. Tem algo que iria destruir eu e ele se viesse a tona. Ainda mais se eu me envolver com ele.

—  Mas que segredo é esse que eu ainda não estou sabendo?

—  Na hora certa, você vai saber. Só preciso de um tempo para raciocinar direito.

O passado poderia estragar tudo o que tinha construído, principalmente a confiança do senhor Arthur Montenegro. Se ele soubesse realmente quem eu era, eu não iria para a rua, eu iria para a prisão.

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