4 — A entrevista

CAPÍTULO 4 — A entrevista

"Emma Carter"

O silêncio no escritório era tão denso que parecia ter peso.

As paredes em tons neutros — elegantes, impessoais — pareciam absorver qualquer tentativa de conforto. Eu permanecia parada, com as mãos unidas à frente do corpo, sentindo o coração bater forte demais para um ambiente tão controlado. Cada segundo se alongava como um teste invisível, como se ele não estivesse avaliando apenas meu currículo, mas minha resistência.

O homem atrás da mesa não desviava o olhar.

Agora eu conseguia observá-lo melhor — e isso só piorava tudo.

Ele era alto...o suficiente para impor respeito mesmo sentado. O terno escuro moldava um corpo impossível de ignorar: costas largas, ombros firmes, músculos evidentes sob o tecido caro. Havia força ali. Uma força contida, afiada, como algo sempre à beira de explodir. Era bonito,

de um jeito que intimidava. Cabelos castanhos perfeitamente alinhados. Traços marcantes. Mandíbula rígida, moldada pelo hábito do controle. Os olhos verdes eram frios, atentos, clínicos. Eles não olhavam — avaliavam.

A postura era imponente. Dominante. Ele não ocupava o espaço. Ele o comandava. E, ainda assim… havia algo errado. Algo quebrado, escondido sob camadas de disciplina.

— Você só pode estar brincando comigo — disse ele novamente, a voz baixa, controlada, carregada de impaciência.

Aquela voz atravessou minha pele.

Engoli em seco.

— Eu… não estou — respondi, sentindo o ar faltar um pouco. — Eu vim pela vaga.

Ele soltou um riso curto, sem humor.

— Pela vaga — repetiu, como se aquilo fosse absurdo.

Levantou-se de repente.

O movimento foi tão brusco que meu corpo reagiu instintivamente, me fazendo dar um passo para trás sem perceber, sentindo o coração gelar.

De pé, ele parecia ainda maior, mais ameaçador e mais consciente do efeito que causava.

— Você tem ideia de onde está? — perguntou, caminhando lentamente em minha direção. — Isso não é uma casa comum. Não é um emprego qualquer.

Cada passo dele era calculado. Como um predador encurralando sua presa.

— Eu sei — murmurei. — Mas eu posso aprender. Eu preciso—

— Não — interrompeu, seco. — Não pode.

Parou a poucos passos de mim. O perfume discreto misturava-se à tensão que fazia o ar parecer quente demais. Eu sentia sua presença como uma pressão física.

— Não contrato pessoas desesperadas.

A palavra atingiu em cheio.

— Eu não sou desesperada — menti, forçando firmeza enquanto tudo dentro de mim tremia.

Ele inclinou levemente a cabeça, observando-me como quem já conhece a verdade.

— Seus olhos dizem o contrário.

Meu peito apertou com força.

— Eu tenho experiência com crianças — continuei, apressada, com medo de perder aquele fio de oportunidade. — Já cuidei de...

— Isso não é suficiente — cortou. — Aqui não existe margem para erro. Não é um teste. É responsabilidade real.

Ele se afastou, voltou para trás da mesa e pegou um documento, encerrando a conversa sem sequer olhar pra mim.

— A entrevista acabou.

Meu estômago afundou.

— Senhor Thompson, por favor — as palavras escaparam antes que eu pudesse contê-las. — Eu sei que posso fazer esse trabalho.

Ele ergueu o olhar devagar.

— Eu não quero uma babá emocionalmente instável. Não quero uma chorona perto da minha filha.

Filha.

A palavra ecoou dentro de mim.

Antes que eu pudesse reagir, o som atravessou o escritório. Um choro agudo, persistente e cortante.

Meu corpo reagiu antes da razão. Olhei para a porta lateral. O choro aumentou e meu coração apertou.

— Ignore — ele disse, rígido. — Não é da sua conta.

Mas algo dentro de mim já tinha mudado.

Era choro de bebê, e não era qualquer choro...Era um choro de incômodo.

— Ela pode estar com dor — falei, sem perceber que cruzava uma linha delicada. — Parece desconforto…

O olhar dele mudou. Por um segundo apenas.

— Ela está — respondeu, mais duro do que esperava. — Ela está irritada, tendo reação ao nascimento dos dentes.

Houve uma pausa.

— Eu a levei ao hospital ontem à noite por causa disso.

A constatação pesou no ar.

Ele me observou com atenção, como se tentasse entender como eu tinha chegado àquela conclusão sem saber de nada.

— Foi só um palpite — acrescentei, sentindo o rosto queimar.

O choro ficou mais intenso. Vi a tensão atravessar o corpo dele, os punhos se fecharam.

— Isso não muda nada — disse. — A entrevista acabou.

O choro cortou o silêncio outra vez. Agora mais alto...mais urgente.

— Posso… — hesitei — posso só tentar acalmá-la? — pedi em um sussurro. — Se não funcionar, eu vou embora.

Ele demorou a responder. O tempo pareceu se esticar. Vi a indecisão, o conflito, o cansaço profundo de alguém que estava perdendo uma batalha silenciosa.

— Cinco minutos — disse por fim. — Só isso.

A porta se abriu e Margot entrou visivelmente aflita.

— Matteo, ela não para de chorar — disse, lançando um olhar rápido para mim.

— Leve-a para o quarto — ordenou. — Ela vai tentar. Margot assentiu.

— Venha comigo, querida — disse para mim, com gentileza

O quarto era claro, delicado demais para tanto choro.

E ali, no berço, estava ela. Pequena, tão frágil. O rostinho vermelho de tanto chorar. Assim que me aproximei, o choro diminuiu levemente.

— Oi princesinha — sussurrei. — Está tudo bem

Peguei-a no colo com todo cuidado para não assustá-la. O efeito foi imediato, o choro cessou quase completamente. Ela fungou uma vez...e se aninhou contra meu peito, como se aquele fosse o único lugar seguro no mundo.

Quando ergui os olhos, Matteo estava parado à porta nos observando. Não havia suavidade em seu rosto. Apenas atenção. Como se guardasse aquela cena sem saber ainda o motivo.

A bebê soltou um pequeno suspiro e fechou os olhos.

— Qual é o seu nome? — perguntou.

— Emma.

Ele assentiu lentamente.

— Fique — disse, quase contra a própria vontade. — Por hoje.

Não havia suavidade. Era uma decisão prática.

— Isso não é uma contratação — completou. — É uma avaliação.

Olhei para a bebê adormecida, depois para ele.

E, pela primeira vez desde que entrei naquela casa, senti medo...não dele, mas do que poderia acontecer se eu ficasse, porque algo me dizia que, a partir daquele momento, nada estaria sob meu controle. E eu não fazia ideia do que me esperava quando o dia seguinte chegasse.

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