Capítulo 2
Enquanto eu descansava no sofá com o tornozelo machucado, Marcelo se ofereceu para terminar o serviço e depois ir embora.
Antes de sair, perguntou se eu precisava de mais alguma coisa. Agradeci e disse que não.
Pouco depois, ouvi a porta da frente abrir. Samuel voltou de repente.
Ele raramente aparecia em casa naquele horário. Por isso, fiquei surpresa.
— Esqueci um contrato importante — explicou, olhando rapidamente para a sala e depois para o corredor. — Você está bem?
Contei que havia torcido o pé no jardim e que Marcelo tinha me ajudado a entrar.
Samuel franziu a testa, mas não demonstrou preocupação real. Seus olhos pareciam procurar alguém dentro da casa.
— Ele ainda está aqui?
— Acho que está recolhendo as ferramentas no quintal.
Samuel mexeu no celular com pressa. Quando percebeu que eu estava olhando, guardou o aparelho no bolso.
Aquela reação me chamou atenção.
Fui até o quarto procurar o tal contrato que ele dizia ter esquecido, mas não encontrei nada na gaveta, na mesa ou na pasta de documentos. Quando voltei, Samuel já estava perto da porta.
— Deve estar no escritório. Eu me enganei — disse ele, evitando meu olhar. — Preciso ir.
Assim que ele saiu, senti que havia algo errado.
Marcelo apareceu minutos depois para avisar que havia terminado o serviço. Enquanto falava, o celular dele caiu do bolso. A tela acendeu com duas mensagens recentes.
Eu não teria prestado atenção se não tivesse visto o nome de Samuel na notificação.
Meu coração acelerou.
Marcelo percebeu meu olhar e tentou pegar o celular rapidamente, mas eu fui mais rápida.
— Por que meu marido está mandando mensagens para você?
Ele hesitou. A expressão dele mudou. A postura confiante desapareceu.
— Senhora, isso é assunto de trabalho.
— Que tipo de trabalho exige mensagem escondida do meu marido?
Depois de alguma insistência, Marcelo finalmente cedeu. Disse que Samuel o havia contratado não apenas para cuidar do jardim, mas para se aproximar de mim e criar uma situação comprometedora.
Eu senti o chão desaparecer sob meus pés.
— Comprometedora como?
Marcelo respirou fundo.
— Ele queria fotos ou gravações que parecessem provar que a senhora estava tendo um caso. Disse que precisava disso para um divórcio favorável.
Pedi para ver as mensagens.
No histórico, Samuel falava sobre pagamento, sobre fazer com que eu parecesse culpada e sobre desaparecer depois que tudo fosse feito. Não havia dúvida: meu marido estava armando contra mim.
Fotografei as mensagens e salvei tudo em uma pasta protegida por senha.
Marcelo então revelou que não sabia o motivo completo, mas desconfiava que havia outra mulher envolvida.
— Um homem não arma algo assim sem ter muito a ganhar — disse ele. — Dinheiro, liberdade ou os dois.
A frase ficou ecoando na minha cabeça.
Samuel havia mudado havia seis meses. Trabalhava até tarde, escondia o celular e se irritava quando eu tentava conversar.
Pela primeira vez, percebi que talvez o problema nunca tivesse sido cansaço. Talvez fosse culpa.