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Capítulo 6 — A Viagem Que Não Deveria Acontecer

Charles ficou vermelho.

Emma trocou o slide com discrição. A tela mostrou um gráfico com a posição financeira da empresa, as reservas de caixa e a estrutura de crédito disponível.

— Nossa posição é sólida — continuou Alexander. — Mais sólida do que a da Hargrove. Mais sólida do que a imprensa gostaria. E muito mais sólida do que alguns nesta sala demonstraram acreditar nas últimas vinte e quatro horas.

O silêncio ficou desagradável.

Alexander gostava de silêncios desagradáveis. Eles revelavam caráter.

O COO, Daniel Mercer, arriscou:

— A preocupação não é a liquidez real. É a percepção do mercado. Se Hargrove alimentar essa narrativa por mais dois dias, podemos sofrer pressão nas ações.

— E qual é sua sugestão?

Daniel respirou fundo.

— Uma nota pública imediata. Talvez uma entrevista. Mostrar força antes que a narrativa cresça.

— Mostrar força? — Alexander repetiu.

O tom foi baixo.

Perigoso.

Daniel percebeu tarde demais.

— Quero dizer—

— Eu sei o que quis dizer. Você acha que devemos reagir a Hargrove para provar que não temos medo da Hargrove. O que, naturalmente, demonstraria medo da Hargrove.

Ninguém interveio.

Emma permaneceu junto à tela, olhos atentos, sem demonstrar emoção. Mas Alexander sabia que ela já havia chegado à mesma conclusão antes dele. O relatório que preparara naquela madrugada era claro: qualquer resposta pública direta daria mais relevância ao boato.

— Não vamos responder — disse Alexander.

Charles se inclinou para frente.

— Alexander, com todo respeito, o mercado pode interpretar silêncio como confirmação.

— O mercado interpreta fraqueza como confirmação. Silêncio, quando sustentado por números, é controle.

— Ainda assim, precisamos considerar—

— Não. Precisamos executar. Emma.

Ela imediatamente avançou o slide.

A nova tela mostrou uma linha do tempo com três movimentos estratégicos.

— Às dez horas — disse Alexander —, anunciamos a extensão da nossa linha de crédito com o North Atlantic Bank. Às onze, Ryan Pierce envia à MedCore uma atualização formal da proposta com garantias adicionais. Ao meio-dia, almoço com Kenji Watanabe e os investidores japoneses. Às quinze horas, a Hargrove descobrirá que todos os seus esforços compraram apenas um aumento no nosso poder de negociação.

O representante de relações públicas abriu a boca.

— E a imprensa?

Alexander olhou para ele.

— A imprensa receberá uma frase.

— Qual?

— A Blackwood Global não comenta rumores criados por concorrentes em desespero.

Emma digitou algo no tablet.

O representante de relações públicas ficou pálido.

— Isso é... bastante agressivo.

— Não. Agressivo seria comprar a Hargrove apenas para demitir a diretoria.

Um silêncio absoluto dominou a sala.

Alexander se endireitou.

— Ainda não decidi se farei isso.

Ninguém riu.

Não era uma piada.

A reunião prosseguiu por mais quarenta minutos. Alexander desmontou cada objeção como se fossem estruturas frágeis montadas por crianças. Quando alguém hesitava, ele pressionava. Quando alguém exagerava riscos, ele exigia números. Quando alguém tentava esconder insegurança atrás de linguagem corporativa, ele arrancava a verdade com duas perguntas.

Emma assistia àquilo com uma mistura de admiração e desconforto.

Alexander Blackwood era brilhante.

Esse era o perigo.

Se fosse apenas arrogante, seria fácil odiá-lo. Se fosse apenas frio, seria fácil evitá-lo. Mas ele era competente de um jeito quase assustador. Sua mente se movia rápido, cortante, impiedosa. Ele via padrões antes dos outros, antecipava movimentos, manipulava salas inteiras sem alterar a voz.

Era o tipo de homem que fazia o mundo obedecer.

E talvez fosse por isso que parecia incapaz de pedir qualquer coisa ao próprio coração.

Quando a reunião terminou, os executivos saíram em silêncio disciplinado. Alguns com expressões tensas. Outros aliviados por terem sobrevivido. Emma começou a recolher os documentos, mas Alexander permaneceu junto à janela, olhando a chuva.

Ele não parecia satisfeito.

Parecia distante.

— A reunião foi bem — disse Emma.

— Foi aceitável.

— Para seus padrões, isso significa bem.

— Meus padrões não são negociáveis.

— Eu sei.

Alexander virou-se.

— Sabe?

— Trabalho para o senhor há três anos.

— Isso não significa que me conhece.

Emma deveria ter concordado. Deveria ter dito algo neutro e profissional. Mas havia um cansaço estranho nele naquela manhã, uma sombra mais profunda atrás dos olhos. Talvez por isso ela respondeu com mais honestidade do que prudência.

— Não. Mas significa que conheço seus padrões.

O olhar dele ficou imóvel.

— E quais são?

Emma abraçou a pasta contra o peito.

— Pontualidade. Precisão. Lealdade. Controle. Resultados. Silêncio quando perguntas pessoais chegam perto demais.

A última frase escapou antes que ela conseguisse detê-la.

Por um instante, só se ouviu a chuva contra o vidro.

Alexander a encarou como se ela tivesse tocado em um arquivo confidencial que não tinha autorização para abrir.

— Cuidado, Emma.

A voz dele foi baixa.

Não furiosa.

Pior. Contida.

Emma sentiu o aviso, mas não baixou os olhos.

— Desculpe.

— Não parece.

— Porque eu não menti.

A tensão entre eles mudou de forma. Não era a tensão quente do elevador. Era outra coisa. Mais afiada. Mais perigosa. O tipo de proximidade que vinha quando duas pessoas viam demais uma na outra e nenhuma sabia o que fazer com isso.

Alexander caminhou até a mesa e pegou o arquivo confidencial.

— Tenho uma ligação com Londres em doze minutos.

A porta se fechou.

Assunto encerrado.

Emma ficou sozinha na sala, respirando com calma forçada.

— Excelente, Emma — murmurou para si mesma. — Comece o dia provocando o bilionário emocionalmente indisponível que paga seu salário.

Ela reuniu os últimos papéis e voltou para a própria mesa.

O problema era que Alexander tinha esse efeito nela.

Perto dele, Emma era eficiente, disciplinada, profissional. Mas também ficava mais corajosa. Como se a frieza dele desafiasse alguma parte dela a procurar rachaduras. E isso era estúpido. Muito estúpido.

Homens como Alexander não se abriam porque alguém enxergava dor neles.

Homens como Alexander construíam muralhas em cima da dor e depois cobravam aluguel de quem tentasse chegar perto.

Às dez e meia, a nota pública foi enviada.

Às onze, Ryan Pierce apareceu no andar executivo.

Ryan era o oposto de Alexander em quase tudo. Tinha cabelos castanho-claros sempre um pouco bagunçados, olhos verdes atentos e uma elegância relaxada que parecia irritar profundamente o CEO. Era diretor jurídico da Blackwood Global e amigo de Alexander desde a universidade, embora Emma às vezes suspeitasse que “amigo” fosse uma palavra otimista demais para alguém como Alexander.

— Bom dia, Emma — disse Ryan, parando diante da mesa dela. — Ou devo dizer: boa sobrevivência?

— Depende. Você está falando da reunião ou do humor dele?

— Os dois costumam ser a mesma coisa.

Emma permitiu-se um sorriso pequeno.

— Ele está na ligação com Londres.

— Gritando?

— Alexander não grita.

Ryan suspirou.

— Verdade. Ele apenas reduz a temperatura da sala até as pessoas confessarem crimes que nem cometeram.

Emma quase riu.

— Ele está focado.

— Isso é ainda pior.

Ryan apoiou uma pasta sobre a mesa dela e olhou na direção do escritório fechado.

— Como ele está hoje?

A pergunta pareceu casual. Não era.

Emma estudou o rosto dele.

— Você o conhece há mais tempo do que eu.

— Justamente por isso perguntei a você. Ele deixa você notar coisas que finge esconder de mim.

Emma sentiu um desconforto imediato.

— Ele não deixa ninguém notar nada.

Ryan inclinou a cabeça.

— E, ainda assim, você nota.

Ela desviou os olhos para a tela.

— Ele está mais impaciente do que o normal. Dormiu pouco, provavelmente. Não almoçou ontem até eu insistir. E está reagindo a Hargrove com mais agressividade do que o necessário.

Ryan ficou sério.

— Hargrove toca em nervos antigos.

Emma ergueu os olhos.

— Por quê?

Ryan pareceu se arrepender de ter dito demais.

— Pergunte a ele.

— Alexander não responde perguntas pessoais.

— Não mesmo.

— Então por que sugerir?

Ryan soltou uma risada baixa.

— Porque ele talvez responda a você.

Emma ficou imóvel.

— Não diga isso.

— O quê?

— Coisas que não são verdadeiras.

O sorriso dele suavizou.

— Emma, uma das poucas coisas divertidas neste prédio é ver Alexander Blackwood tentar fingir que você é apenas uma funcionária eficiente.

O coração dela deu um salto doloroso.

— Ryan.

— Está bem. Não vou me meter.

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