Mundo ficciónIniciar sesiónEntão o elevador deu um leve solavanco.
Nada grave. Apenas uma oscilação rápida. Mas Emma, pega de surpresa, perdeu o equilíbrio por um segundo.
Alexander segurou seu braço.
A reação dele foi imediata.
Firme.
Quente.
Os dedos envolveram o cotovelo dela com cuidado inesperado. Emma levantou os olhos e encontrou os dele muito perto.
— Está bem? — ele perguntou.
Não havia frieza na voz.
Essa foi a pior parte.
— Estou — ela respondeu baixo.
Mas ele não a soltou imediatamente.
O ar entre eles mudou.
De novo.
Só que agora não havia mesa, reunião, telefone ou relatório. Apenas o silêncio do elevador, a cidade descendo ao redor deles e a mão de Alexander em seu braço.
Emma sabia que deveria se afastar.
Sabia.
Mas por um segundo ficou imóvel.
Os olhos de Alexander desceram para a boca dela.
Foi rápido.
Rápido demais para ser uma certeza.
Mas lento demais para ser imaginação.
O coração de Emma pareceu parar.
Então as portas se abriram no térreo.
Alexander soltou o braço dela.
A frieza voltou ao rosto dele como uma porta batendo.
— Boa noite, Emma.
Ela respirou, tentando lembrar como se fazia isso.
— Boa noite, Sr. Blackwood.
Ele saiu primeiro, atravessando o saguão de mármore em direção ao carro que já o esperava do lado de fora. O motorista abriu a porta. Alexander entrou sem olhar para trás.
Emma ficou parada perto do elevador por alguns segundos.
Lá fora, Manhattan brilhava indiferente.
Ela tocou o próprio braço, exatamente onde os dedos dele haviam estado.
— Idiota — sussurrou para si mesma.
Mas não sabia se estava falando com ele.
Ou consigo mesma.
Naquela noite, ao chegar ao pequeno apartamento no Queens, Emma tirou os sapatos perto da porta, colocou a bolsa sobre a cadeira e ficou olhando pela janela para as luzes distantes da cidade.
Seu celular vibrou.
Uma mensagem de Olivia.
Sobreviveu ao deus do gelo?
Emma deveria responder com uma piada. Algo leve. Algo que fingisse normalidade.
Em vez disso, sentou-se na beira da cama e encarou a tela por tempo demais.
Então digitou:
Acho que estou em apuros.
A resposta veio quase imediatamente.
Eu sei. A questão é: ele também sabe?
Emma fechou os olhos.
A imagem de Alexander no elevador voltou com força cruel. O toque. O olhar. A pergunta baixa.
Está bem?
Ela queria acreditar que não significava nada.
Talvez não significasse.
Talvez Alexander Blackwood apenas segurasse funcionários prestes a cair em elevadores corporativos. Talvez mandasse chá por eficiência. Talvez defendesse sua secretária porque ela era útil. Talvez olhasse para a boca dela porque estava cansado, distraído, humano por um instante.
Talvez.
Mas, no fundo, Emma sabia que mentiras bonitas ainda eram mentiras.
E a verdade era simples.
Ela amava um homem que não sabia amar.
Pior: começava a suspeitar que, por trás de toda aquela frieza, Alexander Blackwood também sentia alguma coisa.
E isso não tornava tudo mais esperançoso.
Tornava tudo infinitamente mais perigoso.
Alexander Blackwood não acreditava em manhãs ruins.
Acreditava em decisões ruins, funcionários ruins, contratos ruins e fraquezas mal administradas. O resto eram desculpas que as pessoas inventavam para justificar atrasos, fracassos e emoções fora de lugar.
Por isso, quando entrou na sala principal de reuniões da Blackwood Global às sete e cinquenta e oito da manhã, com a expressão fechada e um arquivo confidencial nas mãos, ninguém teve coragem de comentar que a manhã parecia especialmente pesada.
A chuva castigava Manhattan contra as paredes de vidro. O céu estava escuro demais para aquele horário, os prédios vizinhos desapareciam atrás de uma névoa cinzenta, e o trânsito lá embaixo se arrastava como um animal ferido. Dentro da sala, porém, tudo era luz branca, aço polido e tensão.
Doze executivos já estavam sentados.
Nenhum deles falava alto.
Todos esperavam.
Emma Collins estava de pé ao lado da tela principal, organizando os últimos documentos da apresentação. Usava um vestido azul-marinho discreto, blazer cinza claro e os cabelos castanho-claros presos em um coque baixo. A imagem perfeita de uma secretária executiva impecável.
Impecável demais.
Alexander percebeu a sombra de cansaço sob os olhos dela.
Também percebeu que havia um pequeno arranhão em seu dedo indicador direito, provavelmente de papel. Percebeu que ela havia prendido o cabelo de modo mais firme do que o habitual, o que significava que estava determinada a não se distrair. Percebeu ainda que sua xícara de café, esquecida sobre a mesa lateral, estava cheia.
Ela não tinha bebido nada.
Isso o irritou.
O fato de ter percebido também.
— Começamos em dois minutos — disse Emma, aproximando-se dele com o tablet na mão. — O senhor quer revisar a ordem dos pontos?
— Não.
Ela assentiu, profissional.
— Martin Shaw ligou duas vezes antes das sete. Disse que gostaria de discutir a postura da empresa em relação à imprensa.
— Martin Shaw gostaria de discutir qualquer coisa que o faça parecer indispensável.
— Ele também solicitou que o senhor seja mais flexível na reunião com os investidores japoneses.
Alexander tirou o sobretudo e o entregou a ela sem pensar.
Emma o recebeu sem hesitar, como fazia com relatórios, pastas, horários e pequenas partes da vida dele que ninguém mais tocava.
— Flexível é uma palavra que pessoas sem poder usam quando querem que alguém poderoso ceda — disse ele.
— Ou quando querem evitar uma guerra desnecessária.
Alexander olhou para ela.
Emma manteve a expressão serena.
Aquilo era uma das coisas que mais o incomodavam nela.
Não a obediência. Obediência ele encontrava em qualquer lugar. Bastava pagar bem ou intimidar o suficiente.
O que Emma tinha era pior: equilíbrio.
Ela sabia quando calar. Mas também sabia quando falar. E, quando falava, geralmente estava certa.
Isso era inconveniente.
Muito inconveniente.
— Está sugerindo que eu ceda? — perguntou ele.
— Estou sugerindo que o senhor escolha em qual mesa quer vencer. Nem toda vitória precisa acontecer nos primeiros cinco minutos.
Um dos executivos do outro lado da sala fingiu não estar ouvindo. Alexander percebeu mesmo assim.
Ele inclinou o rosto levemente para Emma.
— Você ensaiou essa frase?
— Não, senhor. Mas posso anotá-la se tiver sido útil.
A boca dele quase reagiu.
Quase.
Alexander desviou o olhar antes que isso acontecesse.
— Prepare a tela.
— Sim, senhor.
Emma se afastou.
Ele a acompanhou com os olhos por uma fração de segundo a mais do que deveria. O suficiente para notar o jeito como ela endireitou os ombros antes de se virar para a sala. O suficiente para lembrar do elevador na noite anterior.
O solavanco.
A mão dele no braço dela.
O olhar dela subindo até o seu.
A boca dela perto demais.
Alexander fechou a mandíbula.
Aquilo não deveria estar em sua cabeça.
Emma Collins era sua secretária. Sua funcionária. A pessoa mais eficiente da empresa. O eixo silencioso ao redor do qual sua rotina girava sem falhas.
Era justamente por isso que ele não podia permitir que ela se tornasse outra coisa.
Desejo era simples. Administrável. Podia ser satisfeito, ignorado ou encerrado.
Mas Emma não despertava apenas desejo.
E esse era o problema.
— Senhores — disse Alexander, caminhando até a cabeceira da mesa. — Vamos começar.
A sala inteira se ajustou à voz dele.
Conversas morreram. Cadeiras pararam de ranger. Canetas foram erguidas.
Alexander colocou o arquivo sobre a mesa, apoiou as mãos na superfície fria e olhou para cada rosto presente. CFO, COO, diretores regionais, consultores externos, dois membros do conselho e um representante de relações públicas que parecia estar se arrependendo de ter escolhido aquela profissão.
— A Hargrove Capital iniciou, nas últimas doze horas, uma tentativa de interferência na aquisição da MedCore BioSystems — disse ele. — Eles vazaram para a imprensa que a Blackwood Global está superalavancada e sem liquidez suficiente para sustentar a compra.
O diretor financeiro, Charles Whitman, pigarreou.
— A matéria ainda não saiu nos grandes veículos, mas alguns blogs de mercado já estão especulando.
— Blogs não especulam. Blogs mendigam atenção — disse Alexander. — O problema começa quando pessoas inseguras leem lixo e confundem barulho com informação.







