Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlexander ergueu os olhos.
— Meus hábitos ruins?
Ela poderia recuar. Deveria recuar. Mas o rosto dele estava mais pálido do que de manhã, e havia uma tensão discreta em sua mandíbula. O tipo de tensão que vinha quando ele passava horas sem comer e fingia ser feito de aço.
— O senhor teve três reuniões, duas ligações internacionais e uma discussão com o conselho. Bebeu metade de um café e nada mais. Se desmaiar, vai atrapalhar a agenda da tarde.
Um brilho estranho apareceu nos olhos dele.
— Então sua preocupação é com a agenda.
— Naturalmente.
— Não comigo.
Emma apertou a pasta contra o corpo.
De novo, aquela camada.
De novo, o perigo.
— O senhor é parte essencial da agenda — respondeu.
Alexander levantou-se.
O movimento foi lento, mas fez o escritório parecer menor. Ele contornou a mesa com a pasta nas mãos e se aproximou. Emma teve que se forçar a não recuar.
Ele parou diante dela, perto demais para um chefe. Longe demais para qualquer outra coisa.
Entregou-lhe a pasta assinada.
Os dedos dele tocaram os dela por um segundo.
Apenas um segundo.
Mas foi o suficiente para que uma corrente quente subisse pelo braço de Emma.
— Peça o almoço — ele disse.
A voz saiu baixa.
— Para quantas pessoas?
— Duas.
Emma ergueu os olhos rápido demais.
Alexander sustentou o olhar.
— Você também não comeu.
Ela abriu a boca. Fechou.
— Tenho trabalho na minha mesa.
— Traga para cá.
— Sr. Blackwood—
— Emma.
O nome dela, de novo.
Sem pressa. Sem dureza. Quase íntimo.
Ela odiou como aquilo a desarmou.
— Sim, senhor — disse, porque era mais seguro.
Vinte minutos depois, os dois trabalhavam na mesa de reuniões do escritório dele enquanto recipientes de comida italiana permaneciam abertos entre relatórios e tablets. Emma comeu pouco, consciente demais da presença dele. Alexander comeu menos ainda, mas pelo menos comeu alguma coisa.
Por quase meia hora, foram apenas profissionais. Discutiram Chicago, a agenda da conferência, os investidores japoneses, as reservas no hotel, a segurança, o tempo de voo.
Então Emma mencionou:
— Vanessa Hart também estará em Chicago. Ela confirmou presença no jantar beneficente de abertura.
Alexander não reagiu.
— Cancele minha presença no jantar.
— O jantar é importante para networking.
— Cancele.
— Evitar Vanessa Hart pode parecer uma reação.
— Não estou evitando Vanessa.
Emma ficou calada.
Alexander ergueu os olhos.
— O que foi?
— Nada.
— Você tem uma expressão específica quando discorda em silêncio.
— Eu não tenho.
— Tem.
— Então talvez o senhor devesse ignorá-la.
— Eu não ignoro coisas que quero entender.
A frase ficou entre eles.
Emma sentiu o coração se mover de um jeito tolo.
Ela se obrigou a focar nos papéis.
— Só acho que cancelar pode dar a ela mais importância do que comparecer.
Alexander apoiou o garfo no recipiente.
— Você fala como se conhecesse Vanessa.
— Não conheço.
— Mas não gosta dela.
Emma ficou quieta por tempo demais.
Alexander percebeu, claro.
— Por quê?
Porque ela olha para mim como se eu fosse uma mancha no tapete caro dela.
Porque ela ainda acha que tem direito a você.
Porque, quando ela entra numa sala, eu lembro exatamente do lugar que mulheres como eu ocupam no mundo de homens como você.
Emma não disse nada disso.
— Ela me parece calculista — respondeu apenas.
— Vanessa é calculista.
— Então por que foi noiva dela?
A pergunta escapou.
O silêncio veio afiado.
Emma gelou.
— Desculpe. Isso foi inadequado.
Alexander ficou olhando para ela por um longo instante.
Ela esperava uma reprimenda. Uma frase fria. Talvez o fim imediato daquele almoço imprudente.
Mas ele apenas disse:
— Porque, na época, eu achava que casamento era uma fusão como qualquer outra.
Emma sentiu algo apertar dentro dela.
— E agora?
O olhar dele mudou.
— Agora eu não considero casamento.
A resposta deveria tê-la aliviado. Confirmava o que ela já sabia. Alexander não era um homem disponível. Não emocionalmente. Talvez nunca.
Mesmo assim, doeu.
Emma sorriu de forma profissional e fechou a pasta.
— Vou finalizar os preparativos de Chicago.
Ela se levantou rápido demais.
— Emma.
Parou.
— Sim?
Alexander também se levantou, mas não se aproximou.
— Sobre Harold.
Ela demorou a entender.
— O comentário dele não foi importante.
— Foi desrespeitoso.
— Estou acostumada.
A expressão de Alexander endureceu.
— Não deveria estar.
A frase a atingiu de um jeito ridículo.
Não deveria estar.
Tão simples. Tão pouco. E, ainda assim, mais do que muita gente lhe dizia.
Emma desviou o olhar.
— Faz parte.
— Não aqui.
Ela olhou para ele.
— Aqui especialmente.
Alexander ficou imóvel.
Emma soube que havia tocado em algo delicado, talvez perigoso. A Blackwood Global era um império de predadores bem vestidos. Ali, respeito era dado a quem tinha poder. Pessoas como Emma precisavam provar todos os dias que mereciam ocupar espaço.
— Se alguém voltar a falar com você daquela forma, me avise — ele disse.
— Para quê?
— Para eu resolver.
Emma soltou uma risada curta, quase triste.
— É justamente isso que eu não quero.
— Por quê?
— Porque eu preciso ser respeitada pelo que faço, não porque o senhor ordenou.
Alexander não respondeu.
Pela primeira vez naquela manhã, pareceu realmente não saber o que dizer.
Emma pegou os documentos.
— Com licença.
Saiu antes que sua coragem se desfizesse.
Do lado de fora, sentou-se à mesa e encarou a tela do computador sem ver nada.
Ela havia falado demais. Sentido demais. Esperado demais.
Esse era o problema de trabalhar tão perto de Alexander. Ele era frio o bastante para fazê-la querer distância, mas atento o bastante para impedi-la de esquecer que havia um homem por trás da armadura.
Um homem que mandava chá quando ela esquecia de comer.
Um homem que a defendia diante do conselho.
Um homem que dizia “não aqui” como se pudesse redesenhar o mundo apenas porque ela havia sido ferida dentro dele.
E, ainda assim, um homem que não considerava casamento, não confiava em ninguém e provavelmente jamais a enxergaria como mais do que a mulher eficiente que mantinha sua vida em ordem.
Às cinco da tarde, a viagem para Chicago estava confirmada.
Jato privado. Suíte presidencial para Alexander. Quarto executivo para Emma no mesmo andar. Conferência de dois dias. Jantar beneficente pendente. Reunião privada com investidores.
Emma enviou o itinerário para ele e tentou ignorar a ansiedade fina que se instalou sob sua pele.
Às sete, a maioria dos funcionários já havia ido embora. O andar executivo ficou novamente silencioso, tingido pelas luzes douradas da cidade acendendo lá fora.
Emma ainda revisava documentos quando a porta de Alexander se abriu.
— Você deveria ir para casa — ele disse.
Ela olhou para cima.
— Ainda tenho que terminar a pasta de Chicago.
— Amanhã.
— O voo é depois de amanhã.
— Exatamente. Amanhã.
Emma quase sorriu.
— Está me dispensando?
— Estou dizendo que são dezenove horas e dezessete minutos.
— Ainda é cedo para os seus padrões.
— Não estamos falando dos meus padrões.
Ela fechou o notebook devagar.
— O senhor também deveria ir para casa.
Alexander olhou para a vista noturna atrás dela.
— Casa é apenas outro lugar para trabalhar.
A frase foi dita sem autopiedade. Talvez por isso doesse mais.
Emma pegou a bolsa.
— Isso é triste.
Ele voltou os olhos para ela.
— Outra observação?
— Sim.
— Crítica educada?
— Nem tão educada desta vez.
Pela primeira vez naquele dia, algo quase parecido com um sorriso tocou a boca dele.
Foi mínimo. Rápido. Talvez inexistente para qualquer outra pessoa.
Mas Emma viu.
E desejou não ter visto.
Porque aquele quase sorriso fez algo perigoso dentro dela florescer.
Alexander caminhou até o elevador privativo. Emma o acompanhou, mantendo a distância adequada. Quando as portas se abriram, ele entrou primeiro. Ela hesitou.
— Pode usar o outro elevador se preferir — ele disse.
— Não é necessário.
Ela entrou.
As portas se fecharam.
O espaço era grande, elegante, espelhado. Ainda assim, parecia pequeno demais com Alexander ali. Emma ficou de um lado, segurando a bolsa com as duas mãos. Ele ficou do outro, olhando para frente.
Por vários andares, ninguém falou.







