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Capítulo 3 — O Café Que Ela Preparava em Silêncio

— Observações costumam ser críticas educadas.

— Nesse caso, talvez.

Alexander a encarou por mais um segundo.

Então entrou no escritório.

Emma o seguiu.

O cheiro dele estava no ambiente, discreto e caro. Madeira, âmbar, sabonete limpo e algo que ela nunca conseguia nomear. Ela odiava perceber esse tipo de detalhe. Odiava mais ainda guardar todos eles.

Alexander sentou-se atrás da mesa, abriu o relatório e começou a fazer perguntas. Emma respondeu uma por uma. Números, riscos, projeções, nomes dos acionistas, vulnerabilidades jurídicas. Era nisso que ela era boa. Não apenas em agendar reuniões ou servir café, como alguns executivos idiotas presumiam. Emma lia contratos, antecipava problemas, organizava crises antes que elas explodissem.

Alexander sabia disso.

Por isso a mantinha tão perto.

— O conselho vai pressionar pela oferta imediata — ela disse, apontando um trecho do relatório. — Mas, se o senhor esperar quarenta e oito horas, a instabilidade da Hargrove pode baixar o preço.

— Eles não vão gostar de esperar.

— O conselho não gosta de nada que exija paciência.

— E você gosta?

Emma levantou os olhos.

— De paciência?

— De esperar.

A pergunta tinha uma camada estranha. Talvez fosse impressão dela. Talvez fosse cansaço. Talvez fosse apenas Alexander testando sua capacidade de reagir sob pressão.

— Depende do que está no fim da espera — respondeu ela.

O silêncio veio rápido demais.

Alexander ficou imóvel, os dedos apoiados sobre o papel, o olhar preso ao dela.

Emma percebeu tarde demais como sua resposta poderia soar.

Sentiu calor subir pelo pescoço.

— Quero dizer, em termos estratégicos — acrescentou. — Algumas esperas valem o custo. Outras são apenas indecisão disfarçada.

Alexander não desviou o olhar.

— Claro.

A palavra saiu baixa.

Baixa demais.

Por um momento, o escritório pareceu menor. A vista de Manhattan desapareceu da percepção de Emma. Só havia Alexander, a mesa entre eles e alguma coisa não dita crescendo no espaço.

Então o telefone tocou.

Emma se moveu primeiro, grata pela interrupção.

— É Ryan Pierce.

— Coloque na linha dois.

Ela transferiu a chamada e Alexander atendeu sem tirar os olhos do relatório. A voz dele voltou ao normal, fria e afiada, enquanto discutia cláusulas e riscos jurídicos com Ryan. Emma aproveitou para reorganizar as anotações e recuperar o controle do próprio rosto.

Ridícula.

Era isso que ela era.

Uma resposta ambígua, um olhar mais longo, uma pergunta inesperada, e lá estava ela, construindo castelos emocionais sobre o terreno mais instável de Nova York.

Alexander Blackwood não era um homem para fantasias.

Era um homem para contratos.

E contratos tinham letras miúdas.

Às oito e quinze, a reunião com o conselho começou.

Emma ficou sentada à direita de Alexander, um pouco atrás, como sempre. Havia doze pessoas na sala, a maioria homens acima dos cinquenta anos, ternos escuros e egos maiores do que suas carteiras de ações. Alguns a ignoravam. Outros a tratavam como uma extensão da agenda de Alexander. Poucos entendiam que ela conhecia mais detalhes operacionais da Blackwood Global do que metade deles.

O presidente do conselho, Martin Shaw, abriu a reunião com um tom de reprovação cuidadosamente polido.

— Alexander, estamos preocupados com a velocidade da aquisição de Boston. A janela pode fechar.

— Não vai fechar — disse Alexander.

— Hargrove está se movimentando.

— Hargrove se movimenta quando quer parecer relevante.

Alguns conselheiros trocaram olhares.

Emma manteve os dedos sobre o tablet, pronta para acessar qualquer número que ele pedisse.

— A recomendação deste conselho é avançar com a oferta hoje — insistiu Shaw.

— Recomendação anotada.

— E ignorada?

Alexander inclinou-se um pouco para trás.

— Se eu ignorasse o conselho, Martin, esta reunião teria sido um e-mail.

O silêncio que se seguiu foi quase bonito.

Emma abaixou os olhos para esconder qualquer reação.

Alexander era arrogante. Não havia como negar. Às vezes, insuportavelmente arrogante. Mas havia algo fascinante na forma como ocupava uma sala. Ele nunca levantava a voz. Nunca precisava. Cortava com precisão, não com volume.

— Emma — ele disse.

Ela ergueu os olhos.

— A projeção comparativa.

Emma conectou o tablet à tela principal e exibiu o gráfico preparado naquela manhã.

— Considerando a queda de três vírgula sete por cento nas ações da Hargrove e a instabilidade da diretoria deles após a renúncia do CFO, há uma probabilidade significativa de redução no valor competitivo da proposta dentro de quarenta e oito horas. Se a Blackwood Global ofertar hoje, paga mais caro para parecer rápida. Se esperar, pode pagar menos e parecer inevitável.

Um dos conselheiros, Harold Finch, olhou para ela com desdém.

— Com todo respeito, senhorita Collins, estamos discutindo estratégia de aquisição, não organização de agenda.

A sala ficou tensa.

Emma sentiu o golpe, mas não demonstrou.

Antes que pudesse responder, Alexander virou lentamente o rosto para Harold.

— Então talvez devesse escutar com mais atenção, Harold. A senhorita Collins acabou de explicar a estratégia de aquisição melhor do que você nos últimos vinte minutos.

O rosto de Harold endureceu.

Emma ficou absolutamente imóvel.

— Eu só quis dizer que—

— Eu sei exatamente o que você quis dizer — interrompeu Alexander. — E foi por isso que corrigi.

Ninguém falou por alguns segundos.

Emma manteve os olhos na tela, embora o coração batesse tão forte que ela temeu que todos ouvissem.

Alexander não olhou para ela depois disso. Apenas continuou a reunião como se defender sua secretária diante do conselho fosse tão natural quanto pedir outro café.

Mas não era natural.

Não para ele.

E isso foi pior.

Porque pequenos gestos eram mais perigosos do que grandes promessas. Grandes promessas podiam ser desacreditadas. Pequenos gestos entravam pelas rachaduras.

Ao fim da reunião, o conselho aceitou a espera de quarenta e oito horas. Não felizes. Mas aceitaram. Alexander saiu da sala primeiro, como sempre. Emma recolheu os documentos e ouviu quando Harold Finch se aproximou.

— Não se acostume, senhorita Collins.

Ela olhou para ele.

— Com o quê?

— Com Blackwood defendendo você. Ele defende qualquer coisa que considere útil. Até deixar de considerar.

As palavras foram ditas em voz baixa, venenosas o bastante para não deixarem marca visível.

Emma sentiu o rosto esfriar.

Harold sorriu e saiu.

Por alguns segundos, ela ficou sozinha na sala, segurando os papéis com força demais.

O problema é que ele não estava totalmente errado.

Alexander valorizava competência. Valorizava utilidade. Valorizava resultados. Mas valorizar não era o mesmo que se importar.

Emma sabia disso.

Ainda assim, quando voltou ao escritório, encontrou sobre sua mesa um copo de chá.

Ela parou.

Não era o café que ela costumava beber. Era chá de gengibre com limão, o mesmo que tomava quando estava com dor de garganta ou quando pulava o café da manhã e o estômago reclamava.

Ao lado do copo, havia um pequeno pacote de biscoitos integrais.

Nenhum bilhete.

Nenhuma explicação.

Emma olhou para a porta do escritório de Alexander, fechada.

A assistente da recepção executiva passou por ali e comentou:

— O Sr. Blackwood pediu para entregarem isso.

Emma passou os dedos pelo copo morno.

— Ele pediu?

— Sim. Disse que você não comeu nada desde que chegou.

A assistente seguiu pelo corredor, deixando Emma com uma sensação que ela não queria nomear.

Ele havia percebido.

Claro que havia.

Alexander percebia tudo.

Mas perceber não era sentir.

Ela repetiu isso mentalmente enquanto bebia o chá.

Perceber não era sentir.

Perceber não era se importar.

Perceber não era amar.

Mesmo assim, o chá desceu quente demais pelo peito.

O resto da manhã passou em uma sucessão de ligações, alterações de agenda e pequenos incêndios corporativos. Alexander trabalhou sem pausa. Emma também. Ao meio-dia, ela entrou no escritório dele com uma pasta para assinatura e encontrou a xícara de café intocada, agora fria.

— O senhor não almoçou — disse ela antes que pudesse se conter.

Alexander assinou a primeira página.

— Estou ocupado.

— Está sempre ocupado.

— Isso é uma reclamação?

— É outra observação.

Ele assinou a segunda página.

— Suas observações estão se tornando frequentes.

— Talvez porque seus hábitos ruins também estejam.

A caneta parou.

Emma percebeu que havia ido longe demais.

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