####CAPÍTULO 04

O DIA EM QUE MEU MUNDO DESABOU

O som estridente e cortante do meu celular rasga a penumbra do quarto, despedaçando o leve e miserável cochilo em que finalmente consegui afundar.

O toque agudo me arranca brutalmente de um pesadelo sufocante que venho tendo repetidamente ao longo das últimas setenta e duas horas.

— Mas a verdade mais cruel é que acordar não me traz alívio algum: o pesadelo de olhos abertos é a minha própria e devastadora realidade.

Há exatamente três dias eu não sei o que é dormir em paz, não sei o que é engolir uma única colher de comida.

O meu corpo, num ato de rejeição visceral, recusa qualquer alimento ou descanso enquanto eu não tiver uma resposta clara, concreta e viva sobre onde estão a minha esposa e a minha filhinha.

—Recuso-me terminantemente a atuar como um homem são, recuso-me a atender chamadas de amigos e parentes que tentam em vão me consolar com palavras vazias.

Permaneço aqui, encarcerado na escuridão do meu próprio quarto, encarando as paredes frias e esperando, em um silêncio absoluto, denso e torturante, que a polícia me dê qualquer sinal de vida.

E cada segundo desses três dias tem se arrastado como um século de suplício, queimando as minhas entranhas com o peso insuportável da incerteza.

Minhas mãos tremem tanto que quase deixo o aparelho deslizar pelos meus dedos suados quando tento atender.

— A respiração trava inteiramente na minha garganta, arranhando o meu peito.

— Alô? — minha voz sai trincada, um sussurro seco, rasgado e rouco que mal lembra a voz de um ser humano.

Do outro lado da linha, o tom do interlocutor é estritamente profissional, mas carrega uma gravidade pesada, uma cautela calculada que faz cada gota do meu sangue congelar instantaneamente nas veias.

— Senhor Carter Davenport? Aqui é do Departamento de Polícia de Oakland County. Precisamos que o senhor compareça ao Instituto Médico Legal imediatamente.

Nesse exato instante, o mundo ao meu redor perde completamente a cor, a forma e o som.

O quarto parece girar em um turbilhão violento, o ar é simplesmente sugado do meu peito e sinto o chão desaparecer debaixo dos meus pés, como se a casa inteira e a minha própria existência tivessem desmoronado em um abismo sem fim. — Um zumbido agudo e insuportável assume o controle dos meus ouvidos, enquanto uma pressão esmagadora prensa a minha caixa torácica, fazendo-me sentir como se cada uma das minhas costelas estivesse prestes a se despedaçar sob o peso do pavor.

— Por quê? — pergunto, as palavras saem rasgando a minha garganta, em um tom gutural e aterrador que nem sequer reconheço como meu.

— Por que o IML?

— Ouve-se um breve e torturante silêncio do outro lado da linha.

Aquele tipo de silêncio cruel, pesado e covarde que sempre antecede uma sentença de morte.

— Posso ouvir o ruído da respiração pausada do policial antes de ele criar coragem para pronunciar as palavras que vão destruir a minha vida.

— Encontramos um corpo feminino compatível com as características físicas da sua esposa, senhor Davenport.

O meu coração simplesmente para de bater. Sinto um golpe invisível e devastador ser desferido bem no meio do meu peito, fazendo a minha visão escurecer por uma fração de segundo.

— O choque elétrico da negação invade cada célula do meu corpo.

— NÃO!

— começo a gritar, a minha voz falhando desesperadamente, subindo de tom e rasgando a minha garganta enquanto o pavor puro se espalha pelas minhas veias.

— Isso não pode ser verdade, meu Deus!

—Vocês estão enganados, estão confundindo as coisas!

— Não é a minha Lise, não pode ser ela, ela está viva!

— Senhor Davenport… por favor, tente manter a calma — pede o agente, a sua voz tentando soar apaziguadora, o que só aumenta o meu desespero.

— Entenda… nós precisamos que o senhor venha fazer o reconhecimento formal do corpo, é o procedimento padrão.

Aperto o celular contra a orelha com uma violência tão desmedida que as articulações dos meus dedos ficam completamente pálidas, sem sangue.

— A dor física nos meus dedos não é nada, absolutamente nada comparada à tempestade de fogo e pânico que devora a minha mente.

— E a minha filha?! — urro para o telefone, tomado por uma agonia cega, descontrolada e visceral.

— Minha filha estava com ela!

— A minha garotinha de três anos estava naquele carro!

— Onde está a minha filha?! Onde está a Rose?!

Outra hesitação brutal e angustiante na linha.

—O silêncio do agente é como uma lâmina embriagada cravada direto na minha jugular.

— Senhor… não havia nenhuma criança no local onde o corpo foi localizado.

O meu corpo inteiro congela de dentro para fora. —O sangue nas minhas veias parece se transformar em blocos de gelo pontiagudos. Sinto a mão gélida da morte me abraçar no meio daquela sala.

— O que… o que vocês estão me dizendo? — engulo em seco, mas a minha garganta está destruída, em carne viva.

— Vocês estão me dizendo que encontraram a minha esposa morta… e que a minha filhinha simplesmente sumiu?

— É só isso que vocês têm para me dizer?!

Que a minha bebê desapareceu, que me esposa está morta?!

— Senhor Davenport… nós… acreditamos que sim.

Passo a mão livre pelo rosto com força selvagem, cravando as unhas na minha própria pele, arranhando-me, querendo rasgar o meu próprio rosto para acordar dessa alucinação infernal que está despedaçando a minha alma.

— Cambaleio para o lado, esbarrando com violência na cômoda do quarto, e me seguro no batente da porta para não desabar de vez.

— Eu avisei vocês! — minha voz explode em um rugido de desespero e raiva incontida, o choro finalmente rompendo a minha garganta.

— Eu denunciei o sequestro no mesmo instante em que recebi a porcaria daquela ligação!

— Eu mandei todas as provas! Eu entreguei o vídeo que aqueles desgraçados fizeram delas!

— Eu fiz tudo o que vocês me mandaram fazer!

—Vocês me garantiram que estavam investigando!

— Disseram para eu não fazer nada estúpido, para eu não pagar o resgate por conta própria!

— E agora a minha mulher está morta e a minha filha sumiu?!

— Nós estamos investigando, senhor, eu garanto — responde o policial, o seu tom revelando um desamparo impotente.

— Continuamos nas buscas, mas, neste exato momento, o protocolo exige que o senhor venha imediatamente ao IML.

Os meus joelhos fraquejam de vez, caí de joelhos no chão frio de madeira, o impacto ressoando pelas minhas pernas, mas a dor física nem sequer alcança a minha consciência anestesiada pelo choque.

Lise… a minha esposa, a minha companheira, a mulher da minha vida, o meu porto seguro, a mãe dedicada da nossa garotinha.

A ideia de ver o corpo dela em uma mesa fria de necrotério corta a minha mente como uma lâmina afiada. E Rose… minha menininha indefesa, sozinha nas mãos de monstros.

— Eu… eu estou indo — minha voz sai num fio miserável, sufocada pelos soluços convulsivos que rasgam o meu peito. — Não desliguem… por favor… não me deixem sozinho no escuro…

Mas a chamada é encerrada com um bip seco e impessoal do outro lado.

— Fico ali, ajoelhado no chão por longos e agoniantes segundos, completamente imóvel, engolido por um vazio devorador, negro e absoluto.

A sensação física é de que a minha alma foi arrancada à força do meu peito e o que restou aqui foi apenas uma carcaça inútil e sangrenta.

—Puxo o ar com força, sentindo o oxigênio queimar os meus pulmões como se fosse ácido puro.

Levanto-me cambaleando, segurando-me nas paredes até chegar à sala. Pego as chaves do carro sobre o aparador e percebo que a minha mão treme tanto que mal consigo firmar os dedos ao redor do metal. O chaveiro balança sem parar, batendo ruidosamente contra a minha pele amortecida.

Abro a porta de entrada com um arranco e saio desespero adentro em direção à garagem.

— Entro no carro com o coração martelando contra as minhas costelas, acelerando rumo ao pior lugar do mundo, rumo à confirmação definitiva do pesadelo que acabou de destruir para sempre cada pedaço do meu mundo.

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