Mundo de ficçãoIniciar sessãoO DIA EM QUE MEU MUNDO DESABOU
O som estridente e cortante do meu celular rasga a penumbra do quarto, despedaçando o leve e miserável cochilo em que finalmente consegui afundar. O toque agudo me arranca brutalmente de um pesadelo sufocante que venho tendo repetidamente ao longo das últimas setenta e duas horas. — Mas a verdade mais cruel é que acordar não me traz alívio algum: o pesadelo de olhos abertos é a minha própria e devastadora realidade. Há exatamente três dias eu não sei o que é dormir em paz, não sei o que é engolir uma única colher de comida. O meu corpo, num ato de rejeição visceral, recusa qualquer alimento ou descanso enquanto eu não tiver uma resposta clara, concreta e viva sobre onde estão a minha esposa e a minha filhinha. —Recuso-me terminantemente a atuar como um homem são, recuso-me a atender chamadas de amigos e parentes que tentam em vão me consolar com palavras vazias. Permaneço aqui, encarcerado na escuridão do meu próprio quarto, encarando as paredes frias e esperando, em um silêncio absoluto, denso e torturante, que a polícia me dê qualquer sinal de vida. E cada segundo desses três dias tem se arrastado como um século de suplício, queimando as minhas entranhas com o peso insuportável da incerteza. Minhas mãos tremem tanto que quase deixo o aparelho deslizar pelos meus dedos suados quando tento atender. — A respiração trava inteiramente na minha garganta, arranhando o meu peito. — Alô? — minha voz sai trincada, um sussurro seco, rasgado e rouco que mal lembra a voz de um ser humano. Do outro lado da linha, o tom do interlocutor é estritamente profissional, mas carrega uma gravidade pesada, uma cautela calculada que faz cada gota do meu sangue congelar instantaneamente nas veias. — Senhor Carter Davenport? Aqui é do Departamento de Polícia de Oakland County. Precisamos que o senhor compareça ao Instituto Médico Legal imediatamente. Nesse exato instante, o mundo ao meu redor perde completamente a cor, a forma e o som. O quarto parece girar em um turbilhão violento, o ar é simplesmente sugado do meu peito e sinto o chão desaparecer debaixo dos meus pés, como se a casa inteira e a minha própria existência tivessem desmoronado em um abismo sem fim. — Um zumbido agudo e insuportável assume o controle dos meus ouvidos, enquanto uma pressão esmagadora prensa a minha caixa torácica, fazendo-me sentir como se cada uma das minhas costelas estivesse prestes a se despedaçar sob o peso do pavor. — Por quê? — pergunto, as palavras saem rasgando a minha garganta, em um tom gutural e aterrador que nem sequer reconheço como meu. — Por que o IML? — Ouve-se um breve e torturante silêncio do outro lado da linha. Aquele tipo de silêncio cruel, pesado e covarde que sempre antecede uma sentença de morte. — Posso ouvir o ruído da respiração pausada do policial antes de ele criar coragem para pronunciar as palavras que vão destruir a minha vida. — Encontramos um corpo feminino compatível com as características físicas da sua esposa, senhor Davenport. O meu coração simplesmente para de bater. Sinto um golpe invisível e devastador ser desferido bem no meio do meu peito, fazendo a minha visão escurecer por uma fração de segundo. — O choque elétrico da negação invade cada célula do meu corpo. — NÃO! — começo a gritar, a minha voz falhando desesperadamente, subindo de tom e rasgando a minha garganta enquanto o pavor puro se espalha pelas minhas veias. — Isso não pode ser verdade, meu Deus! —Vocês estão enganados, estão confundindo as coisas! — Não é a minha Lise, não pode ser ela, ela está viva! — Senhor Davenport… por favor, tente manter a calma — pede o agente, a sua voz tentando soar apaziguadora, o que só aumenta o meu desespero. — Entenda… nós precisamos que o senhor venha fazer o reconhecimento formal do corpo, é o procedimento padrão. Aperto o celular contra a orelha com uma violência tão desmedida que as articulações dos meus dedos ficam completamente pálidas, sem sangue. — A dor física nos meus dedos não é nada, absolutamente nada comparada à tempestade de fogo e pânico que devora a minha mente. — E a minha filha?! — urro para o telefone, tomado por uma agonia cega, descontrolada e visceral. — Minha filha estava com ela! — A minha garotinha de três anos estava naquele carro! — Onde está a minha filha?! Onde está a Rose?! Outra hesitação brutal e angustiante na linha. —O silêncio do agente é como uma lâmina embriagada cravada direto na minha jugular. — Senhor… não havia nenhuma criança no local onde o corpo foi localizado. O meu corpo inteiro congela de dentro para fora. —O sangue nas minhas veias parece se transformar em blocos de gelo pontiagudos. Sinto a mão gélida da morte me abraçar no meio daquela sala. — O que… o que vocês estão me dizendo? — engulo em seco, mas a minha garganta está destruída, em carne viva. — Vocês estão me dizendo que encontraram a minha esposa morta… e que a minha filhinha simplesmente sumiu? — É só isso que vocês têm para me dizer?! Que a minha bebê desapareceu, que me esposa está morta?! — Senhor Davenport… nós… acreditamos que sim. Passo a mão livre pelo rosto com força selvagem, cravando as unhas na minha própria pele, arranhando-me, querendo rasgar o meu próprio rosto para acordar dessa alucinação infernal que está despedaçando a minha alma. — Cambaleio para o lado, esbarrando com violência na cômoda do quarto, e me seguro no batente da porta para não desabar de vez. — Eu avisei vocês! — minha voz explode em um rugido de desespero e raiva incontida, o choro finalmente rompendo a minha garganta. — Eu denunciei o sequestro no mesmo instante em que recebi a porcaria daquela ligação! — Eu mandei todas as provas! Eu entreguei o vídeo que aqueles desgraçados fizeram delas! — Eu fiz tudo o que vocês me mandaram fazer! —Vocês me garantiram que estavam investigando! — Disseram para eu não fazer nada estúpido, para eu não pagar o resgate por conta própria! — E agora a minha mulher está morta e a minha filha sumiu?! — Nós estamos investigando, senhor, eu garanto — responde o policial, o seu tom revelando um desamparo impotente. — Continuamos nas buscas, mas, neste exato momento, o protocolo exige que o senhor venha imediatamente ao IML. Os meus joelhos fraquejam de vez, caí de joelhos no chão frio de madeira, o impacto ressoando pelas minhas pernas, mas a dor física nem sequer alcança a minha consciência anestesiada pelo choque. Lise… a minha esposa, a minha companheira, a mulher da minha vida, o meu porto seguro, a mãe dedicada da nossa garotinha. A ideia de ver o corpo dela em uma mesa fria de necrotério corta a minha mente como uma lâmina afiada. E Rose… minha menininha indefesa, sozinha nas mãos de monstros. — Eu… eu estou indo — minha voz sai num fio miserável, sufocada pelos soluços convulsivos que rasgam o meu peito. — Não desliguem… por favor… não me deixem sozinho no escuro… Mas a chamada é encerrada com um bip seco e impessoal do outro lado. — Fico ali, ajoelhado no chão por longos e agoniantes segundos, completamente imóvel, engolido por um vazio devorador, negro e absoluto. A sensação física é de que a minha alma foi arrancada à força do meu peito e o que restou aqui foi apenas uma carcaça inútil e sangrenta. —Puxo o ar com força, sentindo o oxigênio queimar os meus pulmões como se fosse ácido puro. Levanto-me cambaleando, segurando-me nas paredes até chegar à sala. Pego as chaves do carro sobre o aparador e percebo que a minha mão treme tanto que mal consigo firmar os dedos ao redor do metal. O chaveiro balança sem parar, batendo ruidosamente contra a minha pele amortecida. Abro a porta de entrada com um arranco e saio desespero adentro em direção à garagem. — Entro no carro com o coração martelando contra as minhas costelas, acelerando rumo ao pior lugar do mundo, rumo à confirmação definitiva do pesadelo que acabou de destruir para sempre cada pedaço do meu mundo.






