####CAPÍTULO 03

— As primeiras horas são repletas de choque, e cada segundo se arrasta como se o próprio tempo estivesse desacelerando em uma tortura interminável.

Nos momentos seguintes, Lise se entrega a uma súplica silenciosa, um mantra repetido em sua mente que, se for ouvido, pode acalmar não apenas a sua alma, mas também a de sua filha.

— A mãe fala baixinho com a criança, cantando uma música suave e nostálgica que vaga como um eco em meio ao silêncio angustiante do cativeiro, mesmo sabendo que as palavras dificilmente alcançam a menina adormecida.

É uma tentativa desesperada de criar uma rede de amor, um fio invisível entre as duas que o destino cruel não seja capaz de quebrar.

— Lise fala porque precisa, de alguma forma, manter a sua essência viva dentro daquele espaço claustrofóbico e sem uma janela para o amanhã — um ambiente que antes poderia ter sido um lar acolhedor, mas que agora se transformou em uma prisão de puro desespero.

O segundo dia chega sem que Lise perceba a passagem do primeiro; é uma eternidade comprimida em cada instante enquanto os sentimentos se multiplicam, entrelaçando-se como uma teia viscosa de ansiedade e resistência.

A fome começa a se manifestar no corpo da mulher, nunca como uma preocupação superficial, mas como uma realidade implacável que a faz lembrar de que sua força física está se esvaindo rapidamente.

— Em um esforço desesperado para escapar daquele pesadelo, a mente de Lise começa a traçar imagens do que ela havia deixado para trás: os risos em família, a luz do sol atravessando as copas das árvores no parque e as pequenas alegrias de uma vida normal que agora parece assustadoramente distante.

O medo se intensifica a cada hora, inchando no peito de Lise até causar dor física.

— Mas é então que ela avista a janela da varanda.

Lá do outro lado, há um prédio residencial tão próximo quanto distante — uma estrutura que pode representar tanto uma continuação daquela prisão quanto a sua única saída.

— Ao olhar para o outro apartamento, a possibilidade de resgate ganha forma. Enquanto a luz do sol da manhã começa a se filtrar pela poeira do cômodo e as sombras dançam nas paredes manchadas, uma nova e forte esperança cresce dentro do peito de Lise.

Quando ela ouve o som dos passos dos sequestradores se afastando e a porta principal se fechando, uma fagulha de coragem irrompe em seu coração, iluminando-a como uma chama viva em meio à escuridão.

Tentar algo ali parece loucura, um ato quase impossível, mas é a sua única chance real.

— Essa centelha de ousadia dá a Lise a determinação exata de que necessita.

— Guiada por esse impulso, a mãe luta desesperadamente para libertar os pulsos das amarras mal ajustadas pelos criminosos, agindo como uma ave que b**e as asas com violência para escapar de uma gaiola.

As mãos de Lise tremem sem parar — não apenas pelo frio que começa a surgir à medida que a temperatura cai, mas devido à descarga de adrenalina que pulsa em suas veias.

— O coração da mulher parece prestes a saltar pelo peito, impulsionado pelo pavor e pela vertigem da possibilidade de liberdade que se desenrola diante dela.

A pequena Rose continua dormindo no canto do quarto, totalmente ignorante do desespero que as cerca, envolta no mundo dos sonhos infantis enquanto a mãe luta contra os limites impostos por aquele destino cruel.

Lise se aproxima e abre a porta da varanda com extrema delicadeza, fazendo com que cada movimento seja um reflexo do seu cuidado em não alarmar os captores, caso eles voltem de surpresa.

— O vento frio da manhã acaricia o rosto de Lise, trazendo consigo um gelo que a lembra de que ela ainda está viva e de que cada segundo conta.

Com extrema dificuldade e o corpo trêmulo, Lise sobe no parapeito da varanda.

— Ela estica o braço em busca da grade lateral da edificação vizinha, mantendo o olhar fixo no prédio ao lado que parece tão perto, quase ao alcance das mãos… e, ao mesmo tempo, terrivelmente distante do abismo abaixo.

— Só mais um pouquinho… — sussurra Lise para si mesma, cheia de esperança, como se aquelas poucas palavras pudessem flutuar pelo ar, alcançar o seu destino e envolvida em um abraço definitivo de coragem.

— Mas, de repente, o pé de Lise escorrega na superfície lisa do parapeito.

O movimento é assustadoramente rápido, e a realidade se distorce em um turbilhão caótico de sensações.

— A gravidade faz o seu trabalho de forma imediata, e o mundo vira de cabeça para baixo.

O ar, antes puro e frio, parece sumir dos pulmões de Lise enquanto seu corpo despenca em um desespero silencioso.

— O grito da mãe, que começa como um lamento de socorro, é abruptamente silenciado pelo impacto brutal contra o solo.

Justamente naquele momento, um dos sequestradores, que está de vigília na rua perto do prédio, ergue o olhar e vê o corpo de Lise despencar do alto.

O espetáculo trágico precede uma onda imediata de confusão e pânico entre os pedestres, que começam a gritar na calçada — gritos de horror que ecoam pela rua como um lamento coletivo.

— O sangue do criminoso gela ao perceber a catástrofe que acaba de se desenrolar diante de seus olhos.

— Ela caiu! — grita o homem ao invadir o apartamento, com a voz transbordando uma mistura de choque e incredulidade para o comparsa. — Aquela mulher caiu!

O outro sequestrador fica pálido no mesmo instante.

—Uma sombra de terror absoluto cruza o seu rosto, e a arrogância que antes o caracterizava se dissolve por completo, sendo substituída pelo instinto primitivo de sobrevivência.

— Droga… ela estava tentando fugir! — esbraveja ele, enquanto o pânico se instala rapidamente em sua mente e domina suas decisões.

— Eles vão entrar aqui agora!

As pessoas viram, a polícia vai cercar o prédio!

O tempo se torna o pior inimigo dos criminosos, e cada segundo é decisivo.

Em questão de instantes, os dois homens começam a recolher freneticamente o que podem carregar: documentos, dinheiro e objetos valiosos que possam garantir a sua fuga.

— O telefone celular utilizado para fazer a chantagem contra Carter é destruído com um golpe brutal e descartado no chão.

Quando a pequena Rose acorda com o barulho e começa a chorar desesperadamente ao ser arrancada do quarto, a urgência e a adrenalina da situação atingem o limite.

— Os sequestradores pegam a criança e descem apressados por uma rota de fuga oposta, pelos fundos do edifício, tomando todo o cuidado para não cruzar com testemunhas.

Os passos dos homens pesa como se grilhões invisíveis estivessem prendendo os seus destinos àquele crime.

Horas mais tarde, já na porta do orfanato em Birmingham, com o coração acelerado e as mãos trêmulas pelo pavor de serem capturados, os criminosos deixam a pequena Rose encolhida no chão, enrolada apenas em um cobertor fino — o único abrigo que restou à menina no meio daquele caos.

— Eles tocam a campainha com pressa, fazendo o som rasgar o silêncio da noite, e fogem rapidamente para longe da região, desaparecendo na escuridão antes que a porta seja aberta e a verdade sobre o paradeiro da garotinha comece a ser revelada.

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