####CAPÍTULO 05

CHEGADA AO INSTITUTO MÉDICO LEGAL

Os pneus do meu carro cantam no asfalto e o veículo derrapa levemente quando piso no freio com violência, parando de qualquer jeito em frente ao prédio cinzento do Instituto Médico Legal.

O trânsito fraco do início da manhã não justifica a velocidade insana em que dirigi, nem o pavor brutal que faz meu coração martelar contra as minhas costelas.

—O ar gelado e úmido da manhã atinge o meu rosto, mas não faz absolutamente nada para aliviar a sensação de sufocamento que queima no meio do meu peito.

Tenho a nítida e aterradora impressão de que o céu cinzento e o próprio universo inteiro me observam em um silêncio pesado, cruel e opressivo.

—'É como se o mundo tivesse parado de girar apenas para assistir ao meu desastre.

— Senhor Davenport? — uma voz me chama quando coloco os pés na calçada do prédio.

Olho para o lado e vejo um agente de polícia se aproximar a passos rápidos.

— Ele está tenso, com o rosto incrivelmente pálido e traços profundos de preocupação desenhados ao redor dos olhos.

O olhar dele evita o meu por um segundo antes de se fixar em mim, e essa hesitação sutil revela toda a gravidade do horror que me aguarda lá dentro.

—O sangue corre ainda mais rápido e desordenado pelas minhas veias.

Assenti em silêncio com a cabeça, as palavras estão completamente presas na minha garganta, empacadas como pedras afiadas, como se a minha própria capacidade de falar tivesse sido destruída pela dor que me sufoca.

— Por aqui, por favor — diz o agente, indicando a porta de entrada.

Entro no prédio e começo a caminhar por um corredor estreito, frio e extremamente silencioso. O cheiro de produtos químicos agressivos já começa a impregnar minhas narinas.

— No teto alto, cada lâmpada fluorescente pisca de maneira incômoda, emitindo um zumbido elétrico e incansável, lutando miseravelmente para continuar existindo naquele ambiente saturado de luto e tragédia.

O som isolado dos meus passos no piso claro ecoa pelas paredes, quebrando o silêncio mortal do lugar.

— A cada metro que me aprofundo por aquele corredor, a realidade se aproxima de mim com uma força avassaladora e brutal, lembrando-me de que a minha existência inteira está prestes a ruir em pedaços irreversíveis.

— Nós precisamos que o senhor confirme oficialmente a identidade do corpo para podermos dar prosseguimento ao protocolo investigativo… — o agente tenta explicar ao meu lado, mantendo o tom baixo e cauteloso.

Entretanto, eu já não consigo escutar o que ele diz. —O som das palavras dele se transforma em um murmúrio distante e irrelevante.

A ansiedade dentro de mim avoluma-se como um mar revolto em meio a uma tempestade devastadora, pronta para me afogar a qualquer momento.

—O agente para diante de uma porta pesada de metal, gira a maçaneta e a abre.

No mesmo instante em que ponho os pés dentro daquela sala fria, um cheiro insuportável de antisséptico concentrado, misturado a um odor metálico e denso que minha mente recusa sumariamente a identificar, invade as minhas narinas com a força de um soco

— Aquele aroma grotesco revisita tudo o que há de pior dentro de mim, escancarando a realidade insuportável que estou prestes a encarar.

No centro da sala de azulejos brancos e frios, uma maca de metal aguarda em silêncio.

—Sobre ela, há uma forma humana totalmente coberta por um lençol branco e rígido, repousando como um espectro terrível que espera apenas pelo momento de sua revelação final.

Paro de repente, a três passos da maca. Entro em um estado de choque completo, paralisado, sendo envolvido por um manto pesado e sufocante de pavor.

—Meus pés parecem colados ao chão de cimento; não consigo mover um único músculo do corpo.

O funcionário do IML, posicionado ao lado da maca, olha para mim, aguardando um sinal.

—Como não me movo, ele se aproxima e puxa o lençol branco devagar, revelando o rosto e a parte superior do tórax.

Naquele exato momento o tempo para, o mundo congela ao meu redor em uma agonia física e palpável.

— Lise… — a palavra sai da minha boca como um sussurro quebrado, despedaçado, carregando em seu som a dor insuportável de mil tragédias reunidas.

Ela continua linda, mesmo na morte, a doçura dos traços do seu rosto ainda está lá, mas a visão é aterradora e quase irreconhecível devido às marcas brutais da queda.

— Seus ossos estão desalinhados sob a pele pálida, há dezenas de cortes profundos cuidadosamente suturados com linha preta e espessa, e os traumas físicos remodelaram as feições do seu rosto de um jeito cruel, deixando apenas uma sombra dolorosa do que ela costumava ser quando me deu um beijo antes de sair de casa.

— O contraste brutal entre a sua beleza radiante habitual e a violência devastadora da sua condição atual é uma tortura que supera o limite do que consigo suportar.

A pessoa que era o ponto de luz mais brilhante da minha vida transformou-se em uma lembrança sombria sobre uma mesa de autópsia.

— Meu Deus… Lise… meu amor… o que foi que esses monstros fizeram com você? — murmuro, levando minhas mãos trêmulas até o rosto dela.

Toco a sua pele fria com a ponta dos meus dedos de forma extremamente cautelosa, temendo que qualquer contato um pouco mais forte possa desfazê-la em pedaços, como se a fragilidade daquele corpo inerte fosse se quebrar ao menor toque.

A pele dela está gelada de um jeito que queima a minha alma.

— O meu corpo inteiro começa a tremer sem parar. Minha boca fica completamente seca, o ar recusa-se a entrar nos meus pulmões e, no entanto, nem mesmo uma única lágrima surge nos meus olhos — ainda não.

— O choque é tão brutal e absoluto que me despid de absolutamente tudo, como se uma parte vital da minha própria alma tivesse sido arrancada do meu peito e levada embora junto com ela, deixando para trás apenas um eco insuportável de dor e um vazio ensurdecedor.

Crio coragem de onde não tenho, viro o meu rosto na direção do agente de polícia e do perito que me observam em silêncio.

— Eu avisei vocês! — minhas palavras saem entrecortadas e desordenadas, misturadas com uma respiração arfante, enquanto me perco em um labirinto sufocante de culpa e desespero.

— Eu avisei que ela tinha sido sequestrada!

No exato segundo em que aqueles desgraçados me ligaram exigindo o resgate, eu procurei a polícia!

Eu implorei por ajuda desde o primeiro dia! Eu entreguei as filmagens, dei os detalhes, implorei para vocês rastrearem aquela ligação!

E vocês não fizeram nada!

A realidade desdobra-se diante de mim em toda a sua crueldade, revelando um mundo frio onde as minhas súplicas desesperadas foram completamente ignoradas, um universo indiferente que se recusou a ouvir o meu pedido de socorro.

—' A impotência atravessa o meu peito como um corte profundo, afiado e insensível, enquanto a raiva e a frustração queimam como brasa viva no meu interior.

Minha mão se fecha em um punho rígido ao lado do meu corpo, impotente, carregada de uma fúria cega que não tem para onde ir.

Fico encarando o corpo sem vida da minha esposa, me questionando desesperadamente sobre o que mais eu poderia ter feito.

— Como a minha vida pôde tomar um rumo tão desgraçado em apenas três dias?

Cada pensamento ecoa na minha mente como um réquiem doloroso para todas as nossas esperanças e planos de futuro.

— O sofrimento é algo tangível, cobrindo meus sentidos aguçados enquanto capto cada detalhe aterrorizante daquela sala fria.

Era um pesadelo que continuava a se desenrolar diante dos meus olhos enquanto eu contemplava a extrema fragilidade da vida, a facilidade assustadora com que anos de felicidade sincera podem se desvanecer em um único instante de maldade pura.

E agora, Lise está aqui, morta, estendida sobre uma maca de metal.

— Dou um passo à frente, debruço-me sobre o corpo dela e apoio minha testa contra a dela, sentindo o gelo da morte atravessar a minha pele.

— Onde está a nossa filha, Lise? — sussurro no ouvido dela, enquanto o desespero finalmente rasga o meu peito e as primeiras lágrimas quentes começam a queimar o meu rosto. — Para onde eles levaram a nossa Rose? Me diz… por favor… o que eu faço agora sem vocês?

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