Mundo ficciónIniciar sesión— O senhor Eduardo deixou a maior parte de seus bens e ações para a senhora Lívia Azevedo.
O ar sumiu.
Não foi uma metáfora. Foi físico.
Lívia sentiu o peito esvaziar, como se alguém tivesse aberto uma janela dentro dela e arrancado todo o oxigênio. O mundo ficou distante, abafado, como se estivesse submersa.
— Isso é um engano — ela disse, quase num sussurro. — Deve haver outra pessoa. Outro nome.
Do outro lado da linha, a resposta veio sem hesitação.
— Não é. — A voz era firme, treinada para lidar com choques. — E é justamente por isso que precisamos conversar pessoalmente.
Camila, que até então observava em silêncio, arregalou os olhos.
— Quando? — perguntou, antes mesmo que Lívia pudesse reagir.
— Amanhã pela manhã. — Houve uma breve pausa. — O advogado responsável pelo processo também estará presente.
Lívia sentiu o estômago se contrair.
— Qual advogado?
O silêncio que se seguiu foi curto, mas carregado. Um daqueles silêncios que anunciam algo grande demais para ser ignorado.
— Doutor Dante Moreira.
O nome atravessou o espaço entre elas como algo palpável.
Dante Moreira.
Não despertava lembranças. Não trazia imagens. Mas carregava peso. Autoridade. Algo definitivo, como uma porta que se fecha atrás de você quando é atravessada.
— Certo — Lívia respondeu, sem saber de onde vinha aquela firmeza. — Me diga o endereço.
Ela anotou mecanicamente, desligou o telefone e deixou o aparelho cair no colo.
O silêncio no apartamento voltou.
Mas agora era outro tipo de silêncio.
Camila respirava com dificuldade, passando as mãos pelos cabelos.
— Lívia… isso não é normal. — A voz saiu baixa. — Pessoas não deixam impérios para ex-noivas que abandonaram horas antes do casamento.
Lívia não respondeu de imediato.
Ela estava olhando para frente, para um ponto fixo na parede, como se ali estivesse a resposta para tudo.
Horas atrás, ela tinha sido descartada como um erro social. Uma mulher inadequada. Um equívoco que precisava ser corrigido antes que causasse danos maiores.
Agora, aquele mesmo mundo… se movia em sua direção.
— Parece que minha vida não acabou hoje — Lívia murmurou, finalmente. — Só virou do avesso.
Camila sentou-se ao lado dela.
— Você tá com medo?
Lívia demorou a responder.
— Tô. — admitiu. — Não do dinheiro. Nem do escândalo.
Ela engoliu em seco.
— Tô com medo do motivo.
Porque nada daquilo fazia sentido.
Eduardo tinha escolhido a família. Tinha sido claro. Cruel. Definitivo. Então por que, no fim, deixaria tudo justamente para ela?
Aquilo não era um gesto de amor.
Era outra coisa.
E Lívia sentia isso no fundo do peito.
— O que você vai fazer? — Camila perguntou.
Lívia respirou fundo.
— Eu vou ouvir. — respondeu. — Só isso, por enquanto.
Ela se levantou devagar e caminhou até o quarto. Parou diante do espelho.
A mulher refletida ali não parecia uma herdeira. Nem uma vilã de manchete. Parecia alguém cansada, com os olhos marcados por uma noite longa demais.
Ainda usando o vestido de noiva.
O vestido que nunca cumpriu seu propósito.
Lívia levou a mão ao tecido, apertando-o com força.
— Eles acham que eu não pertenço — murmurou para si mesma. — Talvez estejam certos.
Mas essa constatação não doeu como antes.
Ela voltou para a sala e encarou Camila.
— Seja o que for que venha amanhã… — disse, com a voz mais firme. — Eu não vou mais aceitar ser empurrada pra fora.
Camila assentiu, emocionada.
— Então você não vai sozinha.
Lívia sorriu de leve. Um sorriso pequeno, mas real.
Quando finalmente se deitou naquela noite, o sono não veio fácil.
Pensamentos se atropelavam. Manchetes. Olhares. O nome de Eduardo ecoando de um jeito estranho, definitivo.
Mas havia outro nome agora.
Um nome novo.
Dante Moreira.
E, enquanto o céu começava a clarear do lado de fora, Lívia teve a certeza silenciosa de que aquele homem não seria apenas um advogado.
Ele seria a linha divisória entre a mulher que ela foi…
e a mulher que estava prestes a se tornar.Nada mais seria simples.
Nada mais seria pequeno.
E, pela primeira vez desde o altar, o medo que sentia não vinha só da dor.
Vinha do poder.







