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CAPÍTULO 4 — A SALA DOS LEÕES

O prédio do Grupo Brandão ocupava quase um quarteirão inteiro.

Vidro, aço e linhas frias. Um monumento erguido para lembrar quem mandava — e quem jamais pisaria ali sem permissão.

Lívia sentiu isso no instante em que atravessou a porta giratória.

Os olhares vieram primeiro.

Depois, o silêncio calculado.

Camila caminhava ao lado dela, firme, mas Lívia sabia: aquele não era um território neutro. Era um campo de batalha. E ela estava entrando desarmada.

— Bom dia, senhora Azevedo — disse a recepcionista, com um sorriso tenso demais para ser cordial. — A reunião será na sala do conselho.

Claro que seria.

O elevador subiu em silêncio. Cada andar parecia aumentar o peso no peito de Lívia. Quando as portas se abriram, ela sentiu.

O ar ali era diferente. Mais denso. Mais hostil.

A sala do conselho era ampla, elegante, com uma mesa longa de madeira escura e cadeiras altas que pareciam tronos. Nas paredes, quadros antigos — fundadores, patriarcas, homens que haviam construído aquele império com sobrenomes, não com escolhas.

E eles estavam todos lá.

Helena Brandão foi a primeira a se levantar.

Vestia preto. Elegante. Impecável. O luto nela parecia mais estratégico do que real.

— Então você veio — disse, com um sorriso contido. — Confesso que pensei que não teria coragem.

Lívia manteve a postura.

— Eu fui convocada.

— Convocada… — Helena repetiu, saboreando a palavra. — Que interessante.

Augusto Brandão permanecia sentado, os dedos entrelaçados sobre a mesa, o olhar frio, avaliador. Os irmãos de Eduardo ocupavam outras cadeiras — Rafael, com o mesmo sorriso enviesado de sempre; Marcelo, sério, fechado; e uma prima distante, Clara, que observava tudo como se assistisse a um espetáculo.

— Vamos direto ao ponto — Augusto disse, a voz grave. — Isso tudo é um erro que será corrigido.

Lívia sentiu Camila se mover ao seu lado, pronta para reagir.

Mas antes que pudesse responder, uma nova presença se impôs na sala.

A porta se abriu.

E o ambiente mudou.

Dante Moreira entrou sem pressa.

Não anunciou a si mesmo. Não precisou.

Alto, terno escuro impecável, postura firme demais para alguém que estivesse ali apenas como advogado. O olhar percorreu a sala com frieza calculada, demorando-se um segundo a mais nos Brandão… antes de pousar em Lívia.

Não havia julgamento ali.

Havia análise.

— Bom dia — ele disse, finalmente. — Peço desculpas pelo atraso.

A voz era calma. Controlada. Perigosa.

— Doutor Moreira — Helena respondeu, estendendo a mão. — Esperávamos mais… pontualidade.

Dante não sorriu.

— Eu cheguei exatamente quando devia. — Virou-se para Lívia. — Senhora Azevedo.

Ele assentiu levemente, em reconhecimento.

Lívia sentiu um arrepio estranho. Não era atração. Ainda não.

Era a sensação incômoda de estar sendo vista de verdade.

— Vamos começar — Dante continuou, sentando-se à cabeceira da mesa. — Esta reunião não é um debate. É uma formalidade legal.

Augusto bateu a mão na mesa.

— Formalidade? Meu filho morreu ontem! E estamos aqui porque essa mulher—

— Essa mulher — Dante interrompeu, a voz ainda calma — é a beneficiária legal do testamento. Independentemente do desconforto dos senhores.

O silêncio caiu pesado.

Helena riu, curto.

— Meu filho jamais deixaria tudo para ela. Ele estava sendo manipulado.

Dante abriu uma pasta preta sobre a mesa.

— O testamento foi assinado há três meses. Com testemunhas. Em plena capacidade mental.

Rafael inclinou-se para frente.

— Três meses? — Ele riu. — Justamente quando ela começou a pressioná-lo para casar?

Lívia sentiu o rosto queimar.

— Eu nunca pressionei ninguém — disse, firme. — Eduardo escolheu—

— Escolheu errado — Helena cortou, fria. — E corrigiu isso antes de morrer.

Dante levantou o olhar lentamente.

— Não. — Ele respondeu. — Ele corrigiu antes de viver o suficiente para se arrepender novamente.

Augusto se levantou.

— O que exatamente Eduardo deixou para ela? — perguntou, controlando a raiva.

Dante respirou fundo, como quem se prepara para detonar uma bomba.

— Sessenta e dois por cento das ações ordinárias do Grupo Brandão. — Ele fez uma pausa precisa. — E a presidência interina, até que o conselho aprove — ou não — uma sucessão definitiva.

A sala explodiu.

— Isso é um absurdo!

— Ele estava confuso!

— Isso não pode ser válido!

Helena ficou branca.

— Você está dizendo… — a voz dela falhou pela primeira vez — que ela manda?

Dante olhou para Lívia antes de responder.

— Estou dizendo que, a partir deste momento, qualquer decisão estratégica passa por ela.

O olhar de Helena cravou-se em Lívia como uma lâmina.

— Você fez isso — disse, baixa, venenosa. — Você se infiltrou. Se fez de vítima. Se aproveitou do meu filho.

Lívia respirou fundo.

— Se eu tivesse esse poder todo, senhora Brandão — respondeu, com dignidade — eu não teria sido humilhada no altar.

Um silêncio cortante se espalhou.

Dante observava tudo.

— Esta reunião termina aqui — ele anunciou. — Os documentos serão encaminhados ainda hoje. Recomendo que mantenham suas manifestações… privadas.

Augusto deu um passo à frente.

— Isso não acabou.

Dante se levantou, lentamente.

— Não. — concordou. — Agora começou.

Ele virou-se para Lívia.

— Senhora Azevedo, se quiser me acompanhar, precisamos conversar.

Lívia sentiu o coração bater mais forte.

Ela olhou para a mesa. Para os rostos que a desprezavam. Para o império que nunca quis — mas que agora a encarava de volta.

E se levantou.

— Vamos.

Ao sair da sala, Lívia sentiu o peso real do que tinha acontecido.

Ela não era mais apenas a ex-noiva descartada.

Era a mulher que estava sentada, sem querer, no lugar mais perigoso daquele jogo.

E atrás dela, os Brandão não aceitariam a derrota em silêncio.

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