Mundo ficciónIniciar sesiónO prédio do Grupo Brandão ocupava quase um quarteirão inteiro.
Vidro, aço e linhas frias. Um monumento erguido para lembrar quem mandava — e quem jamais pisaria ali sem permissão.
Lívia sentiu isso no instante em que atravessou a porta giratória.
Os olhares vieram primeiro.
Depois, o silêncio calculado.Camila caminhava ao lado dela, firme, mas Lívia sabia: aquele não era um território neutro. Era um campo de batalha. E ela estava entrando desarmada.
— Bom dia, senhora Azevedo — disse a recepcionista, com um sorriso tenso demais para ser cordial. — A reunião será na sala do conselho.
Claro que seria.
O elevador subiu em silêncio. Cada andar parecia aumentar o peso no peito de Lívia. Quando as portas se abriram, ela sentiu.
O ar ali era diferente. Mais denso. Mais hostil.
A sala do conselho era ampla, elegante, com uma mesa longa de madeira escura e cadeiras altas que pareciam tronos. Nas paredes, quadros antigos — fundadores, patriarcas, homens que haviam construído aquele império com sobrenomes, não com escolhas.
E eles estavam todos lá.
Helena Brandão foi a primeira a se levantar.
Vestia preto. Elegante. Impecável. O luto nela parecia mais estratégico do que real.
— Então você veio — disse, com um sorriso contido. — Confesso que pensei que não teria coragem.
Lívia manteve a postura.
— Eu fui convocada.
— Convocada… — Helena repetiu, saboreando a palavra. — Que interessante.
Augusto Brandão permanecia sentado, os dedos entrelaçados sobre a mesa, o olhar frio, avaliador. Os irmãos de Eduardo ocupavam outras cadeiras — Rafael, com o mesmo sorriso enviesado de sempre; Marcelo, sério, fechado; e uma prima distante, Clara, que observava tudo como se assistisse a um espetáculo.
— Vamos direto ao ponto — Augusto disse, a voz grave. — Isso tudo é um erro que será corrigido.
Lívia sentiu Camila se mover ao seu lado, pronta para reagir.
Mas antes que pudesse responder, uma nova presença se impôs na sala.
A porta se abriu.
E o ambiente mudou.
Dante Moreira entrou sem pressa.
Não anunciou a si mesmo. Não precisou.
Alto, terno escuro impecável, postura firme demais para alguém que estivesse ali apenas como advogado. O olhar percorreu a sala com frieza calculada, demorando-se um segundo a mais nos Brandão… antes de pousar em Lívia.
Não havia julgamento ali.
Havia análise.
— Bom dia — ele disse, finalmente. — Peço desculpas pelo atraso.
A voz era calma. Controlada. Perigosa.
— Doutor Moreira — Helena respondeu, estendendo a mão. — Esperávamos mais… pontualidade.
Dante não sorriu.
— Eu cheguei exatamente quando devia. — Virou-se para Lívia. — Senhora Azevedo.
Ele assentiu levemente, em reconhecimento.
Lívia sentiu um arrepio estranho. Não era atração. Ainda não.
Era a sensação incômoda de estar sendo vista de verdade.
— Vamos começar — Dante continuou, sentando-se à cabeceira da mesa. — Esta reunião não é um debate. É uma formalidade legal.
Augusto bateu a mão na mesa.
— Formalidade? Meu filho morreu ontem! E estamos aqui porque essa mulher—
— Essa mulher — Dante interrompeu, a voz ainda calma — é a beneficiária legal do testamento. Independentemente do desconforto dos senhores.
O silêncio caiu pesado.
Helena riu, curto.
— Meu filho jamais deixaria tudo para ela. Ele estava sendo manipulado.
Dante abriu uma pasta preta sobre a mesa.
— O testamento foi assinado há três meses. Com testemunhas. Em plena capacidade mental.
Rafael inclinou-se para frente.
— Três meses? — Ele riu. — Justamente quando ela começou a pressioná-lo para casar?
Lívia sentiu o rosto queimar.
— Eu nunca pressionei ninguém — disse, firme. — Eduardo escolheu—
— Escolheu errado — Helena cortou, fria. — E corrigiu isso antes de morrer.
Dante levantou o olhar lentamente.
— Não. — Ele respondeu. — Ele corrigiu antes de viver o suficiente para se arrepender novamente.
Augusto se levantou.
— O que exatamente Eduardo deixou para ela? — perguntou, controlando a raiva.
Dante respirou fundo, como quem se prepara para detonar uma bomba.
— Sessenta e dois por cento das ações ordinárias do Grupo Brandão. — Ele fez uma pausa precisa. — E a presidência interina, até que o conselho aprove — ou não — uma sucessão definitiva.
A sala explodiu.
— Isso é um absurdo!
— Ele estava confuso! — Isso não pode ser válido!Helena ficou branca.
— Você está dizendo… — a voz dela falhou pela primeira vez — que ela manda?
Dante olhou para Lívia antes de responder.
— Estou dizendo que, a partir deste momento, qualquer decisão estratégica passa por ela.
O olhar de Helena cravou-se em Lívia como uma lâmina.
— Você fez isso — disse, baixa, venenosa. — Você se infiltrou. Se fez de vítima. Se aproveitou do meu filho.
Lívia respirou fundo.
— Se eu tivesse esse poder todo, senhora Brandão — respondeu, com dignidade — eu não teria sido humilhada no altar.
Um silêncio cortante se espalhou.
Dante observava tudo.
— Esta reunião termina aqui — ele anunciou. — Os documentos serão encaminhados ainda hoje. Recomendo que mantenham suas manifestações… privadas.
Augusto deu um passo à frente.
— Isso não acabou.
Dante se levantou, lentamente.
— Não. — concordou. — Agora começou.
Ele virou-se para Lívia.
— Senhora Azevedo, se quiser me acompanhar, precisamos conversar.
Lívia sentiu o coração bater mais forte.
Ela olhou para a mesa. Para os rostos que a desprezavam. Para o império que nunca quis — mas que agora a encarava de volta.
E se levantou.
— Vamos.
Ao sair da sala, Lívia sentiu o peso real do que tinha acontecido.
Ela não era mais apenas a ex-noiva descartada.
Era a mulher que estava sentada, sem querer, no lugar mais perigoso daquele jogo.
E atrás dela, os Brandão não aceitariam a derrota em silêncio.







