Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio dentro do apartamento parecia mais alto do que o salão lotado horas antes.
Lívia estava sentada no sofá, ainda usando o vestido de noiva. A renda branca agora parecia um erro — um símbolo deslocado naquele espaço pequeno, simples, que sempre foi seu refúgio. O salto tinha sido abandonado perto da porta, jogado sem cuidado. Os pés descalços tocavam o chão frio, mas ela mal sentia.
Camila andava de um lado para o outro, falando sem parar.
— Isso vai dar processo, Lívia. Processo, escândalo, tudo! Eles não podem fazer isso com você!
Lívia respirava devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrá-la.
— Cami… — murmurou.
— O quê?
— Pode parar um pouco? Minha cabeça tá… cheia.
Camila parou. Sentou-se ao lado dela.
— Desculpa. Eu só tô com muita raiva.
Raiva. Vergonha. Dor.
Tudo se misturava dentro de Lívia como um nó impossível de desfazer.
O celular vibrava sobre a mesa de centro.
Ela fingia que não via.
Até não conseguir mais.
Pegou o aparelho.
O vídeo apareceu automaticamente.
O momento exato em que Eduardo dizia, diante de todos:
“Eu não vou assinar esse casamento.”O título abaixo fez o estômago de Lívia se revirar:
NOIVO ABANDONA CASAMENTO DE LUXO APÓS PRESSÃO DA FAMÍLIA
Ela deslizou a tela.
“Golpista.”
“Queria o sobrenome.”“A família fez certo.”— Eles nem me conhecem… — murmurou.
— Internet não quer verdade — Camila respondeu. — Quer um vilão.
O celular vibrou novamente.
Eduardo.
— Não atende — Camila disse rápido.
Lívia hesitou.
E atendeu.
— O que você quer? — perguntou, sem rodeios.
— Eu sei que foi horrível — Eduardo disse. — Mas eu não tive escolha.
— Teve. — A voz dela saiu firme. — Só não escolheu a mim.
— Eu vou resolver isso. Vou falar com a imprensa.
— Não. — Lívia respondeu, fria. — Você não vai falar por mim.
— Lívia—
— Se você disser meu nome publicamente, eu falo tudo. — Houve um silêncio tenso. — E você sabe que eu falo.
Ela desligou.
Camila a encarou.
— Você mudou.
Lívia pousou o celular no colo.
— Eu cansei de implorar por respeito.
O silêncio voltou.
Mas não era mais vazio.
Era alerta.
O celular vibrou novamente.
Número desconhecido.
Lívia atendeu.
— Boa noite, senhora Lívia Azevedo. Falo do escritório Brandão & Associados.
O coração bateu seco.
— Não é um bom momento.
— Entendo. Mas o assunto é urgente. Trata-se do doutor Eduardo Brandão.
Ela fechou os olhos.
— O que houve?
Houve uma pausa.
— Ele sofreu um acidente esta noite.
O mundo desacelerou.
— Ele… morreu? — a palavra saiu estranha.
— Sim, senhora.
O telefone escorregou da mão de Lívia.
Camila levou a mão à boca.
Eduardo Brandão estava morto.
Horas depois de destruí-la.
O silêncio que caiu foi absoluto.
E definitivo.
Lívia não chorou.
Não imediatamente.
Ela ficou sentada, imóvel, como se o corpo tivesse esquecido como reagir.
— Lívia… olha pra mim — Camila pediu, segurando o rosto dela. — Você tá bem?
— Eu não sei o que sentir. — respondeu, com honestidade brutal.
O celular vibrou novamente.
O mesmo número.
Lívia atendeu.
— Senhora Lívia — a voz retornou, mais grave. — Preciso informar outro ponto importante.
— Pode falar.
— O doutor Eduardo deixou um testamento.
O coração dela acelerou.
— E…?
— O nome da senhora consta nele.
Lívia franziu a testa.
— Como assim?







