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CAPÍTULO 2 — O ECO DA HUMILHAÇÃO

O silêncio dentro do apartamento parecia mais alto do que o salão lotado horas antes.

Lívia estava sentada no sofá, ainda usando o vestido de noiva. A renda branca agora parecia um erro — um símbolo deslocado naquele espaço pequeno, simples, que sempre foi seu refúgio. O salto tinha sido abandonado perto da porta, jogado sem cuidado. Os pés descalços tocavam o chão frio, mas ela mal sentia.

Camila andava de um lado para o outro, falando sem parar.

— Isso vai dar processo, Lívia. Processo, escândalo, tudo! Eles não podem fazer isso com você!

Lívia respirava devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrá-la.

— Cami… — murmurou.

— O quê?

— Pode parar um pouco? Minha cabeça tá… cheia.

Camila parou. Sentou-se ao lado dela.

— Desculpa. Eu só tô com muita raiva.

Raiva. Vergonha. Dor.

Tudo se misturava dentro de Lívia como um nó impossível de desfazer.

O celular vibrava sobre a mesa de centro.

Ela fingia que não via.

Até não conseguir mais.

Pegou o aparelho.

O vídeo apareceu automaticamente.

O momento exato em que Eduardo dizia, diante de todos:

“Eu não vou assinar esse casamento.”

O título abaixo fez o estômago de Lívia se revirar:

NOIVO ABANDONA CASAMENTO DE LUXO APÓS PRESSÃO DA FAMÍLIA

Ela deslizou a tela.

“Golpista.”

“Queria o sobrenome.”

“A família fez certo.”

— Eles nem me conhecem… — murmurou.

— Internet não quer verdade — Camila respondeu. — Quer um vilão.

O celular vibrou novamente.

Eduardo.

— Não atende — Camila disse rápido.

Lívia hesitou.

E atendeu.

— O que você quer? — perguntou, sem rodeios.

— Eu sei que foi horrível — Eduardo disse. — Mas eu não tive escolha.

— Teve. — A voz dela saiu firme. — Só não escolheu a mim.

— Eu vou resolver isso. Vou falar com a imprensa.

— Não. — Lívia respondeu, fria. — Você não vai falar por mim.

— Lívia—

— Se você disser meu nome publicamente, eu falo tudo. — Houve um silêncio tenso. — E você sabe que eu falo.

Ela desligou.

Camila a encarou.

— Você mudou.

Lívia pousou o celular no colo.

— Eu cansei de implorar por respeito.

O silêncio voltou.

Mas não era mais vazio.

Era alerta.

O celular vibrou novamente.

Número desconhecido.

Lívia atendeu.

— Boa noite, senhora Lívia Azevedo. Falo do escritório Brandão & Associados.

O coração bateu seco.

— Não é um bom momento.

— Entendo. Mas o assunto é urgente. Trata-se do doutor Eduardo Brandão.

Ela fechou os olhos.

— O que houve?

Houve uma pausa.

— Ele sofreu um acidente esta noite.

O mundo desacelerou.

— Ele… morreu? — a palavra saiu estranha.

— Sim, senhora.

O telefone escorregou da mão de Lívia.

Camila levou a mão à boca.

Eduardo Brandão estava morto.

Horas depois de destruí-la.

O silêncio que caiu foi absoluto.

E definitivo.

Lívia não chorou.

Não imediatamente.

Ela ficou sentada, imóvel, como se o corpo tivesse esquecido como reagir.

— Lívia… olha pra mim — Camila pediu, segurando o rosto dela. — Você tá bem?

— Eu não sei o que sentir. — respondeu, com honestidade brutal.

O celular vibrou novamente.

O mesmo número.

Lívia atendeu.

— Senhora Lívia — a voz retornou, mais grave. — Preciso informar outro ponto importante.

— Pode falar.

— O doutor Eduardo deixou um testamento.

O coração dela acelerou.

— E…?

— O nome da senhora consta nele.

Lívia franziu a testa.

— Como assim?

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