Capítulo 04

Ele pegou a máscara e a colocou no rosto. Mesmo que lobisomens fossem acostumados a cicatrizes, o rosto dele tinha quase sido partido em três pedaços. Não era uma boa visão. E pior do que olharem para a máscara, era olharem para ele diretamente. Sem falar nas crianças. Elas se assustavam. Zane não as culpava, mas também não era obrigado a passar por aquele tipo de situação. 

Scarlett estava andando de um lado para o outro, esfregando as mãos. Por que estavam demorando tanto? Ninguém dizia nada! 

A mala dela estava no canto, intocada. Para o caso de ela ser chutada dali — ou mandada de volta para o IronClaw. 

Zane bateu na porta, mas Scarlett não escutou. Ele bateu com um pouco mais de força e ouviu os passos dela. Mesmo com a madeira entre eles, Zane sentiu um cheiro diferente de tudo o que ele já tinha sentido, e inspirou fundo, bem na hora em que Scarlett abriu a porta. 

Ela não esperava ver uma máscara de ferro encarando-a, e olhos castanhos profundo que pareciam fuzilar-lhe a alma. Scarlett levou a mão à boca e deu um passo para trás, instintivamente. Isso fez Zane apertar os punhos. 

Ela estava com medo? Agora estava com medo? Onde estava aquele medo quando resolveu ir até o bando dele e fazê-lo de idiota? 

Zane deu um passo para frente, e mais um. Estava dentro do quarto. Scarlett afastava-se mais dele, até que bateu contra a parede. As palavras de Rosemary voltaram à mente dela. Aquele era o Alfa, o que venceu a Batalha Infernal, e aquele que era considerado louco, agressivo. E para quem Alan a mandou para casar-se com. 

Ele a observou por uns momentos. Cabelos castanhos escuros, contrastando com os olhos cinzas. Sardas tomavam o rosto dela, dando-lhe um ar adorável, mas os lábios carnudos, fizeram Zane lamber os dele próprio por baixo da máscara. Ela era linda, ele não iria negar isso. Hel rosnou dentro dele. 

[“Vai dizer que ela não é apetitosa?”]

[“Calado!”]

“O que exatamente veio fazer no meu bando?” ele perguntou, sem rodeios. A diferença de tamanho e porte dos dois era tremenda, o que fazia Scarlett parecer um ratinho acuado. 

Ela abriu a boca, mas nada saiu. Quando ficava muito nervosa, não conseguia falar. Scarlett levantou as mãos e usou libras. 

“Não consigo entender o que você fala,” ela disse. “O som está muito abafado e baixo.” 

A expressão de Zane ficou diferente, apesar de Scarlett não poder enxergar. Ela era muda? 

[“Você reclamou que aquelas fêmeas não calavam a boca. Bom, continua sendo um bom negócio, não acha?”]

Zane ignorou o comentário idiota de Hel. Ele olhou com mais atenção e viu algo na orelha dela. Ela era surda. Ou quase. 

O Alfa fechou os olhos. Ainda bem que ele tinha aprendido libras, como parte da educação dele, ou seria impossível uma comunicação. Desgostoso, ele repetiu a pergunta com as mãos. 

Scarlett ficou surpresa, de um jeito bom, com o fato de que ele podia entendê-la e se comunicar de volta! Muitos lobos não podiam. Ela podia ler lábios, mas como ela o faria com aquele Alfa, se ele usava uma máscara? 

“Meu pai me enviou para casar. Eu não sabia com quem. E talvez ele também não.”

Mas algo dentro de Scarlett dizia que ele sabia, sim. Zane Kingsley era considerado instável. Nunca que Alan, ou mesmo Vanessa, permitiriam que a filha adorada deles fosse enviada para sofrer. 

Zane estreitou os olhos. Ou ela era muito tonta, ou muito boa atriz. Ele ainda não saberia dizer qual das duas opções. 

“Você vai dormir aqui. Pode descansar. Mas amanhã de manhã, vai voltar para o bando de onde veio.” 

O Alfa virou-se para sair, porém, Scarlett segurou-lhe o braço. Ele parou e olhou primeiro para o braço, depois para ela. Ela o soltou na mesma hora, pressentindo que talvez tivesse acabado de estragar tudo. 

“Alfa, eu gostaria de pedir para ficar. Eu… eu não gostaria de voltar ao IronClaw.” 

Ele levantou uma sobrancelha e a olhou com descrença. 

“Está me pedindo para ser a Luna?” 

Scarlett sacudiu a cabeça. 

“Não! Estou pedindo para ficar. Como uma humana. Eu vou trabalhar. Eu só quero poder…”

Ele compreendeu antes que ela pudesse completar o ‘ser livre’. 

Nos eventos da Organização Beneficente, os Cantrell eram aplaudidos por serem tão bondosos. Por não só ajudarem orfanatos, como eles mesmos terem adotado uma criança, e uma com deficiência, tratando-a como filha. 

‘Parece que não é exatamente isso,’ ele disse a si mesmo. 

“Eu vou pensar sobre isso.” 

“Obrigada!”, ela fez uma reverência, genuinamente agradecida. 

Zane andou até a porta e parou, virando-se. 

“Nunca mais toque em mim sem a minha permissão, entendeu?” 

Scarlett arregalou os olhos, mas concordou, balançando a cabeça, e a abaixando, enquanto Zane saía dali. 

Uma vez sozinha, ela levou a mão ao peito e soltou o ar. Deixou-se então cair na cama macia e fechou os olhos. 

Ela tinha sobrevivido. O Alfa não a tinha matado, nem mandado que a prendessem. E não a enviou imediatamente para os Cantrell. 

“Talvez ele não seja essa Besta que todos falam,” ela pensou, e não percebeu que sorria. 

Apesar do medo, ela sentiu algo diferente. Mesmo com a máscara, o Alfa Zane Kingsley tinha alguma coisa que a atraiu. E quando tocou no braço dele, ela pôde sentir o quão quente ele era. Ela beliscou a si mesma. 

“Deixa de besteira!”

Zane não foi para o escritório, mas sim para o próprio quarto. O corpo dele ainda estava queimando. O toque daquela humana o fez sentir-se… excitado. 

Ele já estava atraído, mas quando ela colocou a mão nele, foi por um triz que ele não se descontrolou e não a colocou sobre a cama. 

Lobisomens eram serem sexuais, mas Zane sempre se controlou muito bem. Até aquele momento. E, acima de tudo, com uma humana. 

Ele arrancou a máscara assim que fechou a porta e soltou o ar, jogando o acessório de lado e passando a mão nos cabelos escuros. O que estava acontecendo com ele? 

Zane tirou a blusa e decidiu que precisava de um banho gelado. Mas nem isso o ajudou. 

O resto do dia passou, e Scarlett não saiu do quarto. Zane deu ordens de que ela deveria permanecer onde estava. 

A noite chegou e todos se recolheram. Zane estava rolando na cama, sem conseguir dormir, inquieto. Já passava de duas da manhã quando ele finalmente dormiu, porém, o sonho dele não foi nada tranquilo. Lá, ele se via sentindo prazer, deitado sobre uma fêmea e o cheiro dela… algo ativou na mente dele e Zane levantou a cabeça. A mulher que olhava para ele não era outra se não Scarlett Cantrell. 

Os braços dela passavam pelo pescoço dele, os olhos estavam lânguidos, cheios de prazer, enquanto ela se movia em sincronia com ele. 

“Meu Alfa,” ela dizia, ronronando de prazer. 

A mão dela tocou no rosto dele e isso fez com que Zane acordasse, devido ao susto. Porém, quando os olhos dele focaram um pouco, ele notou que não estava no próprio quarto. O cheiro dela o atingiu e ele sentiu a garganta seca. Virou com cuidado a cabeça. Lá estava a humana, dormindo tranquilamente, com o lençol cobrindo-lhe apenas o suficiente para que ele não visse sua intimidade. 

Zane sacudiu a cabeça. Que tipo de loucura era aquela? 

E a tatuagem nas costas dele começou a arder, e ele soltou um urro baixo de dor, movendo-se bruscamente na cama. E foi isso que acordou Scarlett. Quando ele olhou para o lado, ela o encarava de volta. 

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