Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuando Helena viu Caio Draven sair daquele carro preto, a primeira coisa que sentiu foi vontade de dar um passo para trás.
Não por ele ter feito alguma coisa, nem por ter dito algo ameaçador, mas porque havia homens que não precisavam levantar a voz para tomar espaço. Caio era assim, alto, vestido de preto, com um sobretudo que parecia feito para aquela noite fria, ele tinha uma presença pesada, quase absurda, como se até o vento tivesse parado para observar sua chegada. Seus cabelos eram escuros, ombros largos, olhos intensos e uma pele levemente bronzeada, caminhava como um rei, mas não de forma soberba, ao menos não totalmente.
Helena o reconheceu de eventos antigos, jantares desconfortáveis onde os Vasconcelos fingiam elegância enquanto cochichavam sobre aquele parente distante que ninguém gostava de contrariar. Leonardo sempre mudava de postura quando Caio aparecia, Odette ficava rígida. Isadora, quando ainda fingia ser sua amiga, tinha dito uma vez que ele parecia perigoso e estranho.
Na época, Helena riu.
Agora não via graça nenhuma.
— Helena Duarte, não é? — ele perguntou.
Ela apertou a pasta contra o peito, lembrando que estava sozinha, sem dinheiro, sem mala, perto de uma floresta escura e diante de um homem que mal conhecia.
— Era Vasconcelos até algumas horas atrás, mas acho que devo mesmo voltar a usar meu sobrenome de solteira agora.
Caio observou seu rosto por um instante longo demais. Os olhos dele eram escuros, quase pretos, mas havia uma intensidade estranha ali, como se ele estivesse lendo mais do que ela tinha mostrado. Helena se incomodou com aquilo, naquele dia, todos olharam para ela como se fosse uma coisa quebrada, um problema, uma vergonha.
Não queria mais ninguém avaliando seus pedaços.
— Eu sei do divórcio.
— Claro que sabe. Rico nenhum fofoca, né? Só troca informação estratégica.
Um canto da boca dele quase se moveu, mas não chegou a ser sorriso.
— Também sei da casa do seu pai.
A frase atingiu Helena como um empurrão.
— Leonardo te mandou aqui? Foi isso? Se aquele maldito traidor acha que você vai me intimidar, pode mandar ele se foder, entendeu?
Claro que estava mentindo, ele a intimidava pra caralho, mas fingiria que não até o ultimo momento.
— Leonardo não me manda fazer nada.
— Então como sabe da minha casa?
— Tenho bons contatos.
— Isso não responde minha pergunta.
— Não, mas é o que vou dizer, ao menos por enquanto.
Helena soltou uma risada sem humor, sentindo as lágrimas voltarem a queimar.
Ah, ótimo, mais um homem poderoso falando pela metade igualzinho o mestre dos magos, decidindo quanto ela merecia saber da própria vida. Tinha acabado de sair de uma casa onde todos tratavam seus sentimentos como lixo e, agora, surgia Caio Draven no meio da rua, elegante e misterioso, como se fosse dono de alguma solução que ela deveria aceitar de joelhos.
— Eu tive um dia horrível, senhor Draven. Então, se veio fazer alguma proposta suja, ameaça educada ou discurso bonito sobre como eu não tenho saída, pode economizar seu tempo.
— Eu vim justamente porque você não tem saída.
— Que delicadeza.
— Mas eu posso te dar uma.
Helena ficou em silêncio.
Caio deu um passo, não perto demais, mas perto o suficiente para que ela sentisse o cheiro dele. Não era perfume caro como o de Leonardo, enjoativo e calculado. Era algo mais limpo e escuro, como madeira molhada, noite fria, café fresco, mas amargo, e alguma coisa que ela não soube nomear. Isso a irritou ainda mais, porque seu corpo, aquele traidor miserável, pareceu perceber antes da cabeça que havia algo diferente nele.
"Para com isso, Helena! Você nem sabe quem ele é, não importa se ele é um gostosão cheiroso!"
— Um contrato de noivado falso — Caio disse. — Três meses, aparições públicas, sigilo absoluto. Em troca, eu quito a dívida da casa do seu pai ainda esta noite, garanto que Leonardo não toque mais em nenhum bem seu e te levo de volta para aquela mansão como minha noiva, vai poder passar isso na cara deles a vontade. Seria uma boa vingança, não? Posso te dar um cartão sem limite e um bom dinheiro quando o contrato atacabar.
Helena piscou.
Depois riu.
Riu porque, se não risse, talvez gritasse, ou talvez sentasse no meio-fio e chorasse até o corpo não aguentar mais. Aquilo era absurdo demais. Noivado falso? Com o tio distante do ex-marido? Na mesma noite em que foi traída, descartada e expulsa? Parecia uma piada cruel do universo, e Helena já estava cansada de ser a idiota principal em todas elas.
— Você é maluco?
— Não costumo ser.
— Pois hoje parece.
— Eu não teria vindo se não fosse necessário.
— Necessário para quem? Para mim ou para você?
Caio sustentou seu olhar.
— Para nós dois.
Helena apertou os documentos com tanta força que amassou a ponta da pasta.
— Não. Eu acabei de sair de uma prisão, não vou entrar em outra só porque o carcereiro agora tem um carro mais bonito.
Algo passou pelos olhos de Caio, rápido, quase imperceptível, uma sombra de irritação, talvez, ou incômodo, mas ele não se afastou.
— Leonardo vai anunciar Isadora hoje. Ela será apresentada como a mulher que deu aos Vasconcelos o herdeiro que você não deu. Amanhã, todos os jornais sociais vão repetir a história que eles escolherem contar. A esposa infértil, uma interesseira que foi descartada, a amante grávida, elegante e aceita pela família. E você? Você estará sem dinheiro, sem casa e terá seu nome jogado na lama.
Cada palavra bateu em Helena com precisão cruel.
— Cala a boca.
— Até posso, mas isso nãovai tornar o que eu falei mentira.
— Você não me conhece.
— Tem razão, mas isso não importa e nem muda nada.
Helena engoliu em seco.
O ódio que sentia de Leonardo não desapareceu, a mágoa por Isadora também não, mas, por baixo de tudo, havia a casa. A varanda pequena, o portão azul, o pé de jabuticaba, o cheiro de terra depois da chuva. A última lembrança dos pais dela, quase arrancada de suas mãos para pagar um carro da mulher que destruiu sua vida. Helena podia perder vestidos, joias, o sobrenome, até a ilusão ridícula de que um dia foi amada por Leonardo, mas aquela casa não. Aquela casa era tudo que ainda provava que ela existiu antes dos Vasconcelos.
— Quero ver esse contrato — ela falou, com a voz baixa.
Caio abriu a porta do carro.
— Então entre.
— Não encosta em mim.
— Não tenho pretenção nenhuma de fazer isso, não se preocupe.







