Inicio / Lobisomem / A Loba Branca Rejeitada da Matilha Sem Lei / CAPÍTULO 4 — CERIMÔNIA DE MAIORIDADE
CAPÍTULO 4 — CERIMÔNIA DE MAIORIDADE

O quarto estava envolto na penumbra suave quando três batidas firmes soaram na porta de madeira maciça.

Annaluz deu o último giro diante do espelho alto, ajeitando o caimento perfeito do vestido branco de tecido pesado que abraçava a sua silhueta com elegância, contrastando drasticamente com os cabelos longos, negros como a noite, soltos em ondas selvagens pelas costas. Ela respirou fundo, sentindo o perfume de lavanda e o frio na espinha que antecede os grandes marcos da vida. Quando abriu a porta, deparou-se com o pai.

Demétrio estacou no batente. O homem forte e severo que governava com pulso firme pareceu desmoronar por um segundo. Os olhos cinzentos exatamente, iguais aos dela, marejaram instantaneamente, a íris brilhando sob a luz fraca do corredor. Ele sem fala, a mão calejada tateando o ar antes de pousar trêmula no ombro da filha.

— Como você está linda, minha Luz... — a voz dele falhou, grave e embargada, tremendo um pouco no fim da frase. — Dezoito anos. Parece que foi ontem que você nasceu naquela noite fria, brilhando com toda aquela luz branca nos meus braços.

Annaluz sentiu a garganta apertar com a vulnerabilidade rara do pai. Ela deu um passo à frente, contornando a seriedade do momento com um sorriso terno, embora os olhos também brilhassem. Ele quase nunca se emocionava assim, na frente dela.

— Pai, não chora, por favor... hoje é um dia feliz, nada de lágrimas antes da hora — sussurrou ela, erguendo os braços para envolvê-lo pelo pescoço num abraço, tentando aliviar o clima, mesmo com os próprios olhos ameaçando arder.

Demétrio puxou-a para um abraço apertado, sufocando um soluço contido contra os cabelos dela. Por longos segundos, o mundo lá fora deixou de existir, era apenas o patriarca e sua filha única, a loba branca que carregava o futuro nas costas. Quando ele a afastou minimamente, havia um orgulho feroz misturado à dor velada em seu rosto.

Quando se afastaram, Demétrio limpou os olhos discretamente e voltou a sorrir, agora com firmeza.

— Eu tenho um presente para você. Abre — disse ele, tirando do bolso do paletó uma caixinha de veludo escuro e estendendo-a.

Annaluz ergueu a tampa com cuidado. Sobre o tecido macio, repousava um anel de ouro lapidado, adornado com uma pedra branca impecável e esculpido com o brasão imponente da matilha da Asa. Ela levou a mão à boca, emocionada.

O fôlego dela escapou num sussurro.

— Pai... é lindo.

— É, Luz. Você é a melhor filha que um pai poderia ter. É o meu maior orgulho — afirmou Demétrio, fitando-a segurando o rosto dela com as duas mãos, como se quisesse gravar aquele momento. — Você cresceu forte, tornou-se uma parteira excelente, salvou vidas quando ninguém mais ousaria. Tenho certeza absoluta de que esta cerimônia vai te trazer coisas maravilhosas.

— Claro que vai, pai — concordou ela, um sorriso confiante iluminando o rosto.

— Vamos logo, senão a Annaluz vai conseguir o impossível, chegar atrasada na própria cerimônia! — do corredor, a voz de Nívea cortou o momento, prática como sempre, mas com um sorriso escondido por trás da urgência.

Demétrio riu, ainda com os olhos brilhantes, e estendeu o braço pra filha.

— Vamos.

Minutos depois, a família já estava acomodada no banco traseiro do imponente carro de luxo da família, guiado pelo motorista em silêncio respeitoso no banco da frente.

O veículo deslizava silenciosamente pelas ruas calçadas da capital, em direção ao grande salão onde a cerimônia aconteceria quando parou num sinal. Annaluz olhava pela janela, o coração ainda quente pela cena com o pai, quando algo, ou melhor, alguém, chamou sua atenção.

Um rapaz, parado na calçada, olhando diretamente pra ela.

Na calçada esparsa, o mundo desacelerou.

Seus olhos azuis colidiram de imediato com os de um homem parado na esquina. Ele era uma visão magnética e improvável, trajava uma camisa preta ajustada ao corpo denso e musculoso, coberto por uma jaqueta de couro pesada, calças jeans escuras e botas de trilha gastas, nada que gritasse elegância, mas havia algo na postura dele, ombros largos, queixo erguido, que fazia questão de ocupar espaço.

O rosto marcante exibia traços rústicos, a mandíbula forte sombreada por uma barba por fazer, cabelos longos e castanhos presos frouxamente, e uma cicatriz fina cortando levemente a sobrancelha que acentuava a intensidade selvagem do seu olhar, olhos verdes claros, quase transparentes, fixos nos dela com uma intensidade que não parecia proposital, como se ele mesmo tivesse sido pego de surpresa. Ele tinha o peito descoberto pela gola aberta, revelando uma perfeição física brutal e uma energia magnética que parecia vibrar no ar.

Por breves e intermináveis segundos, o tempo parou. Os olhos dele fitaram os dela através do vidro do carro, carregados de uma curiosidade súbita e magnética. Annaluz sentiu o coração falhar uma batida, em vez de desviar o rosto, um sorriso involuntário, fascinado e desafiador, desenhou-se em seus lábios. Ele achou ela linda, era a imagem da sofisticação e do perigo contido em seu vestido branco, enquanto ele exalava o puro instinto das ruas.

O sinal abriu, o carro passou zunindo, cortando a esquina e deixando o estranho para trás.

Na calçada, Henry permaneceu imóvel, estático. O corpo musculoso tensionou enquanto ele acompanhava a trajetória do carro de luxo com os olhos fixos até o veículo sumir completamente na curva da rua. O perfume de rosas e mel selvagem misturados juntos da imagem daquela fêmea de cabelos negros e olhos marcantes pareceram queimar em sua mente.

— Muito linda, né? — a voz irônica de Liam quebrou o transe, materializando-se ao lado dele. Liam vestia uma camisa escura, calça jeans, botas gastas e um boné escuro puxado para a testa, os cabelos curtos e pretos aparecendo nas pontas. Seus olhos castanho-escuros curiosos encararam o amigo, o sorriso de quem já sabia exatamente o que tinha visto.

Henry piscou, sacudindo a cabeça como se saísse de um sonho febril, e franziu a testa, fechando a cara por puro instinto de defesa.

— Quem?

— Não se faz de desentendido. A fêmea do carro. Vi você estaciado olhando pro carro com cara de quem viu um fantasma.

— Eu? Tá louco, Liam. Você tá vendo coisa onde não tem.

— Tá bom, vou fingir que acredito nessa tua cara de tacho — riu Liam, dando um encontrão de ombro no amigo. — Mas mudando de assunto... sabia que o movimento na cidade tá estranho hoje? É dia de cerimônia de maioridade lá no alto.

Henry cruzou os braços sobre o peito, fingindo desinteresse, embora as palavras tenham ecoado.

— De quem?

— É da filha do líder da matilha da Asa. Dizem que ela é parteira... e uma das boas, daquelas que não erram um parto nem fodendo.

— Então é a filha da Nívea — murmurou Henry, lembrando-se das lendas sussurradas entre as matilhas sobre a linhagem de sangue puro daquelas mulheres.

— Exato. Será que ela é tão marrenta e boa quanto a mãe?

Antes que Henry pudesse responder, o o ronco do motor encostou na calçada ao lado deles. A janela abaixou revelando o rosto severo de Walter, o pai de Henry.

— Entrem. Precisamos ir. Tenho que falar com um aliado antes da muvuca começar — ordenou Walter, o olhar duro vasculhando a rua vazia.

Os dois rapazes abriram as portas e saltaram para dentro do carro.

— Que aliado é esse, pai? — perguntou Henry, ajeitando-se no banco de trás enquanto o veículo voltava a arrancar em disparada discreta.

— Um líder de matilha influente que nos ajuda há anos nas sombras — respondeu Walter sem tirar os olhos da estrada. — A filha dele completa dezoito anos hoje. Quero cumprimentá-lo antes que a cerimônia oficial comece. Vocês sabem as regras. Não podemos dar bandeira por aqui, nossa presença nessa região é estritamente confidencial. Mantenham a boca fechada e sejam discretos.

Henry assentiu em silêncio, mas enquanto a paisagem passava veloz pela janela, a imagem dos olhos azuis e do sorriso rápido daquela fêmea de branco continuava queimando na sua mente, recusando-se a sumir.

O salão de cerimônias estava lotado. As matilhas se organizavam em blocos, cada uma reconhecível pela cor e pelo brasão bordado nas roupas de seus representantes, todas ali, reunidas, exceto uma. A ausência da matilha sem lei, pesava no ar como um vazio que ninguém ousava comentar em voz alta.

Henry e Liam se mantinham encostados atrás de uma pilastra grossa, na sombra, longe da luz que iluminava o centro do salão. Walter ficou um pouco à frente, cumprimentando outros líderes com aceno breve, discreto, o suficiente pra não chamar atenção.

O silêncio que tomou conta da multidão quando a cerimônia começou foi quase sepulcral, como se todos ali soubessem, por instinto, que aquele momento carregava peso além do óbvio.

Annaluz sentiu isso na pele. Centenas de olhos cravados nela, avaliando, julgando, esperando. Ela manteve o queixo erguido, mas por dentro o estômago se revirava.

Ao lado dela, Nívea ajustava os últimos detalhes do vestido com uma seriedade cortante os dedos ágeis, o olhar fixo em cada prega, cada fio de cabelo fora do lugar, como se aquilo fosse uma forma de controlar o próprio nervosismo através do dela.

— Fica parada — sussurrou Nívea, ajeitando um brinco. — Está tudo certo.

Annaluz assentiu, sem palavras.

Mais longe, perto de uma coluna de mármore, Demétrio observava a filha com uma expressão que misturava orgulho e algo mais pesado, remorso, talvez, de uma conversa que os dois tiveram no escritório dias antes, palavras que ainda ecoavam entre eles mesmo sem serem repetidas ali.

E na multidão, discreto entre os representantes de sua matilha, Valentin observava tudo com a paciência de quem já sabia exatamente o que ia fazer.

O Sábio, um ancião de longas vestes cinzentas e rugas profundas como fendas na rocha, ergueu o báculo e chamou, e o salão inteiro se calou por completo.

— Hoje estamos todos reunidos para celebrar a maioridade da jovem loba Annaluz, filha do líder Demétrio, da matilha da Asa, e sua legítima herdeira, ecoou a voz grave do ancião pelo salão. — Como de costume, hoje vou lhe entregar o amuleto ancestral do destino. Estenda a mão esquerda.

Um murmúrio baixo passou pela multidão — reconhecimento, expectativa.

Annaluz respirou fundo, erguendo a mão com uma precisão milimétrica, embora por dentro o estômago despencasse. Quando o Sábio pousou o amuleto metálico pesado na palma da mão dela, o mundo pareceu parar de girar.

Longe dali, escondido atrás da pilastra, Liam franziu a testa, cutucando o braço do amigo. — O que diabos significa isso? — sussurrou ele, os olhos estreitos. — A cerimônia deles é totalmente diferente da nossa...

— Shiiii. Cala a boca e presta atenção — sibilou Henry, sem conseguir desviar os olhos da fêmea no altar.

No mesmo instante em que o metal frio tocou a pele de Annaluz, um arfar coletivo ecoou pela multidão. Os olhos dela mudaram de cor, brilhando com o tom lupino selvagem revelando, o âmbar intenso da loba por trás deles, visível pra todo o salão, e o corpo dela virou-se bruscamente diante de todos. Do amuleto, um fio de luz vermelha e incandescente irrompeu, esticando-se como uma linha viva que cortava o ar.

Um murmúrio de choque varreu o salão. O fio brilhante significava apenas uma coisa, o companheiro de destino dela estava presente na cerimônia. Um sorriso incrédulo, misturado a um alívio febril, iluminou o rosto de Annaluz.

Atrás da pilastra, o fôlego de Henry travou na garganta.

— É a garota do carro... — murmurou Henry, um sorriso torto e fascinado surgindo nos lábios enquanto o coração disparava violentamente contra as costelas.

E então, um fio vermelho, fino como seda, começou a se desenrolar do próprio amuleto, flutuando no ar como se tivesse vida própria. O fio vibrava, desenhando uma trajetória linear e implacável direto para o canto escuro onde Henry e Liam se escondiam. A energia daquele chamado era magnética, puxando-o para a frente. Mas, antes que a luz pudesse tocar a sua pele ou revelar sua presença proibida ali, uma mão pesada agarrou o seu ombro com força.

— Vamos. Já fiz o que vim fazer. — A voz de Walter foi rápida, discreta, a mão pousando no ombro do filho antes que ele pudesse sequer processar o que estava acontecendo. Walter vinha se aproximando por entre as pessoas havia alguns instantes, sem nunca ter erguido os olhos na direção do fio, atento apenas em tirar os rapazes dali antes de serem notados.

Henry mal teve tempo de protestar antes de ser levado embora, os três saindo discretamente por uma entrada lateral, o som da cerimônia ainda ecoando atrás deles, entraram no carro em silêncio, o motor ligando quase de imediato.

Do centro do salão, Valentin sentiu o fio se aproximando dele e, por reflexo, olhou por cima do próprio ombro, na direção de onde a energia parecia vir. Só havia uma pilastra ali. E, saindo de trás dela, apenas o vulto rápido de alguém de costas, já se afastando entre as sombras impossível saber quem era.

Valentin não pensou duas vezes. Deu um passo pequeno, quase imperceptível, pro lado o suficiente pra se colocar exatamente na linha por onde o fio ainda avançava.

O fio parou.

O brilho se ancorou nele, com uma naturalidade que enganaria qualquer um que não conhecesse a verdade, deixou o fio tocá-lo, forjando diante de todo o salão que era ele o companheiro de destino de Annaluz, manipulando perante os olhos de todas as matilhas a ilusão de que era ele o escolhido pelo destino.

Os olhos dela voltaram ao normal. Annaluz piscou, o brilho intenso diminuindo. Ela olhou para o fio conectado a Valentin, a confusão lutando contra a resignação em seu peito.

Um silêncio de expectativa tomou conta do ambiente antes que os aplausos começassem. O povo estava emocionado, acreditando testemunhar algo raro e sagrado.

Valentin não perdeu um segundo. Com um sorriso triunfante, ele ajoelhou-se diante dela sobre as pedras frias, os olhos erguidos pra encontrar os dela. Tirou de dentro da veste uma caixinha de veludo com um anel cravejado de rubis.

— Annaluz. — a voz saiu forte o bastante, alta e limpa reverberando pra todos ouvirem, mas com um tom suave, quase reverente. — O destino escolheu por nós hoje, diante de todos. E eu não poderia estar mais honrado. Deixe-me honrar a sua força, o seu sangue e o seu nome perante todas as matilhas. Aceita se tornar minha esposa, minha rainha, e reinar ao meu lado por todos os dias que a vida nos permitir?

O salão inteiro prendeu a respiração.

Annaluz olhou para ele, o coração ainda confuso pelo que tinha acabado de sentir o fio, o calor, a certeza que por um segundo pareceu vir de outro lugar. Mas ali, diante de todos, com o próprio corpo ainda dizendo que aquilo era verdade, ela não tinha motivo pra duvidar.

Annaluz sentiu o peso do mundo desabar sobre os seus ombros. Antes de dar qualquer resposta, ela desviou o olhar do príncipe e procurou na multidão. Viu Nívea, com os braços cruzados e um olhar indecifrável de aviso. Viu Demétrio ao fundo, com a expressão sombria, lembrando-a da conversa no escritório, deixando a escolha inteiramente nas mãos dela.

Annaluz voltou o olhar pra Valentin, ajoelhado à sua frente, esperando. Ela respirou fundo, fechou os olhos por um segundo para enterrar a dúvida, e olhou para Valentin.

— Sim — disse ela, finalmente. — Eu aceito.

Um rugido de aplausos e vivas explodiu entre as matilhas, sufocando o som do vento e selando o destino.

Enquanto os aplausos estrondosos da multidão ainda ecoavam pelo salão, Valentin ergueu o queixo com um triunfo ensaiado, segurou a mão de Annaluz com firmeza e a conduziu em direção aos pais dela. A atmosfera estava carregada de uma eletricidade festiva que para Annaluz parecia estranhamente pesada, como uma cortina de fumaça escondendo o que realmente havia acontecido sob a luz do amuleto.

O salão explodiu em vivas e aplausos. O príncipe, ainda segurando a mão de Annaluz, o sorriso de vitória estampado no rosto enquanto acenava discretamente pra multidão que celebrava. Ele a guiou entre as pessoas até onde Demétrio e Nívea observavam tudo, os dois com expressões que misturavam orgulho e uma sombra de apreensão.

— Demétrio. — Valentin estendeu a mão livre, cumprimentando o futuro sogro com firmeza calculada. — Sei que isso é repentino, mas o destino não pede licença.

Demétrio apertou a mão dele, o gesto correto, protocolar, mas os olhos buscaram os da filha por um instante, como se quisesse ter certeza de que aquilo era o que ela realmente queria. Annaluz sorriu de volta, e ele pareceu se acalmar, ainda que não completamente.

— Bem-vindo à família — disse Demétrio, a voz firme, embora algo em seu tom carregasse um peso que só ele conhecia.

Nívea abraçou a filha, sussurrando um "parabéns, minha menina" no ouvido dela, e por trás do sorriso protocolar trocado com Valentin, seus olhos permaneceram atentos, avaliando.

A festa se estendeu noite adentro música, taças erguidas, conversas efusivas sobre os preparativos de um casamento que já começava a ser planejado antes mesmo da meia-noite.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP