CAPITULO 5 — PENSAMENTOS

Longe dali, na casa de Henry, a água quente escorria pelos ombros dele enquanto o vapor subia lento pelo banheiro, mas a imagem daquela fêmea de vestido branco, cabelos negros e olhos marcantes continuava nítida, queimando em sua mente.

Um sorriso involuntário, fascinado e suave, desenhou-se em seus lábios, quase sem permissão.

Você gostou dela, não foi? — ecoou a voz grave e instintiva de Luke, seu lobo interior, ressoando fundo em sua consciência.

Henry desligou o registro, secando o rosto com uma toalha enquanto olhava para o próprio reflexo no vidro embaçado.

— Você viu o olhar dela, Luke? O quanto ela é bonita? Aquele olhar... eu me perderia naqueles olhos azuis pelo resto da vida.

— Eu sei. Eu também gostei dela. Ela é especial. — Luke fez uma pausa, e quando voltou a falar, o tom era mais sério. — A nossa alma estremeceu quando ela virou com aquele amuleto nas mãos. O seu coração bateu de um jeito diferente, nunca tinha batido assim antes, foi mais profundo. 

— Eu também percebi... Só que não entendi direito o significado daquele ritual deles. Estávamos longe demais no salão para ouvir o que o Sábio dizia — murmurou Henry, franzindo a testa enquanto vestia uma calça de moletom e caminhava para o quarto.

Por que você não vai atrás dela amanhã na cidade? — insistiu Luke, a urgência pulsando no peito de ambos. — Você sabe muito bem onde fica a mansão do líder da matilha da Asa. É só dar dois passos até lá.

Henry parou no meio do quarto, balançando a cabeça com um misto de cautela e dúvida.

— Ela acabou de fazer dezoito anos hoje, Luke. Acabou de passar pela cerimônia de maioridade. Ela deve estar confusa, procurando pelo verdadeiro companheiro de destino dela. Eu não quero forçar a barra.

E quem disse que eu me importo com o destino escrito em runas? — retrucou o lobo, a possessividade lupina roncando na garganta de Henry. — Eu não me importo em ser o companheiro de marcação dela, se for preciso.

— Não se importa mesmo? — Henry parou, surpreso com a própria certeza vinda de dentro de si mesmo. Um sorriso de canto surgiu, sentindo o calor daquela audácia correr em suas veias.

— Não. Ela é diferente das outras fêmeas. Você também sentiu. Por ela eu posso esquecer essa ideia e não esperar mais por nenhuma loba aleatória.

— Concordo. Só com ela eu senti essa vontade de não esperar a nossa companheira de destino.

— Então vamos lá amanhã?

— Vamos... Amanhã bem cedo nós vamos lá — decidiu Henry, deitando-se na cama e cruzando os braços sob a nuca. — Mas vamos com calma, vamos observar primeiro, entender o terreno antes de falar de compromisso.

— Você de novo com essa cautela irritante...— resmungou Luke, quase rindo.

— Cala boca, Luke.

Henry fechou os olhos, mas o sono demorou a vir, sua mente continuava presa nos traços daquela loba que tinha virado seu mundo do avesso.

[...]

Enquanto isso, no quarto silencioso da mansão da matilha da Asa, Annaluz trancou a porta. Ela andava de um lado para o outro, o vestido branco farfalhando contra o assoalho, o peito arfando de uma excitação nervosa. Parou diante do espelho, tocando o anel de noivado que reluzia em seu dedo. Annaluz suspirava, o peito ainda quente de emoção.

— Mia... Você viu? — sussurrou ela para a própria reflexão, a voz trêmula de uma alegria eufórica. — Ele cumpriu a promessa. Agora somos noivos. Eu sou a noiva do Valentin!

A resposta de Mia veio mais contida, cautelosa.

Luz... Eu sei que você quer acreditar nisso e vou aceitar ser a companheira de marcação apenas por causa das suas escolhas, — murmurou Mia, cansada e distante. — Mas você viu muito bem para onde o fio do amuleto estava indo. O nosso verdadeiro companheiro de destino estava lá na cerimônia, escondido na multidão. Isso quer dizer que ele nos conhece, que o nosso sangue o reconheceu.

Annaluz fechou os olhos com força, balançando a cabeça em negação, tentando abafar a própria intuição.

— Bobagem, Mia! O fio parou em Valentin, todo mundo viu no salão! Foi nele que a luz ancorou. Ele é o nosso companheiro de destino, sim.

No recôndito de sua mente, a voz de sua loba interior soou fria, cortando a euforia com a precisão de uma lâmina.

Eu não sei... — insistiu a loba, a voz carregada de uma tristeza profunda, quase hesitante. — O meu instinto está vazio. Eu não sinto a conexão sagrada de destino com o Valentin. O peito dele estava frio quando nos abraçamos.

Annaluz suspirou, sentando na beirada da cama, os dedos brincando distraidamente com o anel que o pai tinha dado mais cedo.

— Chega, Mia! Vá descansar — cortou Annaluz, elevando a voz num sussurro áspero, tentando estancar a brecha de dúvida que rasgava seu peito. — Amanhã ele vem jantar aqui em casa para fecharmos os preparativos do casamento. Valentin quer casar rápido, quer tudo pronto antes da próxima lua. É isso o que importa.

Ela se deitou, os olhos fixos no teto, o coração ainda acelerado pela noite, mas em algum canto silencioso da mente, a dúvida de Mia insistia em ecoar, mesmo que ela se recusasse a escutar.

Um silêncio pesado instalou-se na mente de Annaluz, até que a loba respondeu, resignada e distante.

— Boa noite, Annaluz.

— Boa noite, Mia — murmurou ela para o vazio do quarto, abraçando o próprio corpo, sentindo o frio do anel de noivado congelar contra a sua pele enquanto a noite caía de vez sobre a capital.

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