A nevasca durou exatamente sete dias.
Sete dias em que o mundo lá fora desapareceu atrás de uma cortina branca, sete noites em que o vento gritou como se estivesse sendo esfolado vivo. Dentro da cabana grande de Arthur, o fogo nunca apagou. Ele acordava antes do sol (se é que o sol ainda existia) e colocava mais lenha. Lívia acordava com o calor dele já rondando o ambiente, o cheiro de pinho queimado misturado ao cheiro dele: terra gelada, couro e algo selvagem que fazia a loba dela erguer as orelhas mesmo dormindo.
Eles não falavam muito. Não precisavam ainda.
Arthur saía cedo para checar as cabanas, voltava coberto de neve até a cintura, batia as botas na porta e pendurava o casaco pesado no gancho. Lívia ficava na cozinha improvisada, aquecendo caldo de cervo ou assando pão de raiz que Freya havia ensinado. Quando ele entrava, o ar mudava. Ficava mais denso. Mais quente. Ela sentia antes de ver.
Na quarta noite, ele chegou mais tarde. O vento tinha derrubado duas árvores na tril