Mundo de ficçãoIniciar sessão
— Não respira tão fundo, Maia — sussurrou Nara, a voz quase sumindo no burburinho do salão. — Eles sentem o cheiro do teu medo a dez metros.
Maia engoliu em seco. A garganta ardeu, seca. Diante dela, no centro do salão elevado da Alcateia do Norte, o fogo da pira principal estalava, projetando sombras longas sobre centenas de lobos alinhados em silêncio. No topo dos degraus de pedra, Aren D'Ávila a aguardava. Ele parecia impossível de mover dali. A postura ereta, a capa escura pesando nos ombros largos, a mandíbula tão travada que o músculo no canto da bochecha pulsava ritmicamente. Aren era o Alfa Supremo, o homem que o Norte aprendeu a temer antes mesmo de respeitar. E, naquela noite, ele deveria torná-la sua Luna. Maia deu o primeiro passo subindo a escadaria. O vínculo apertava dentro do peito. A cada degrau, ficava mais difícil ignorar. Não era uma metáfora bonita das histórias antigas. Era um puxão físico, violento, que fazia os ossos de Maia vibrarem. Quando ela pisou no último degrau, o cheiro dele — cedro, chuva forte e fumaça — atingiu seu nariz com a força de um soco no estômago. A pele arrepiou. As coxas vacilaram por um segundo. O pulso disparou, martelando no pescoço. Aren olhou para ela. Os olhos dele, de um castanho tão escuro que parecia preto sob a luz das tochas, fixaram-se na curva entre o pescoço e o ombro de Maia. Onde a marcação deveria acontecer. Ninguém dizia uma palavra. Na primeira fileira, os anciãos do Conselho acompanhavam cada movimento com os olhos estreitados. O olhar da mãe de Aren, a antiga Luna, era puro gelo. Maia sabia o que todos eles pensavam. Maia Valença era a filha de uma linhagem sem renome, sem exércitos, sem terras. Uma "fraqueza" que o Norte não podia se dar ao luxo de ostentar enquanto as alcateias do Oeste rondavam as fronteiras. Mas o vínculo não ligava para política. A Deusa da Lua não pedia permissão ao Conselho. Aren deu meio passo à frente. Ergueu a mão direita, os dedos longos e calejados se aproximando da pele da nuca de Maia. A proximidade fez a pele dela reagir na hora. Cada centímetro do corpo pedia que ele não parasse. — Maia — o nome dela saiu da boca dele num sussurro rouco, audível apenas para os dois. A mão dele tocou a pele abaixo do queixo dela. O contato direto fez Maia soltar o ar num arfado involuntário. As pupilas de Aren se dilataram, cobrindo a íris, a parte lobo dele reagindo instantaneamente à presença da companheira destinada. A respiração dele falhou. Por um instante, ela acreditou. Acreditou que a força daquele laço esmagaria qualquer dúvida, qualquer pressão política, qualquer jogo do Conselho. Aren endureceu de repente. A mão dele parou no ar, a poucos milímetros da pele dela, como se algo o tivesse detido pelo pescoço. Maia viu a pupila dele contrair violentamente. A dor piscou no olhar do Alfa Supremo, substituída em uma fração de segundo por um brilho frio, distante. Então uma voz invadiu a cabeça de Aren, limpa demais para ser ignorada: "Aceitar essa mulher é condenar o Norte à ruína." O músculo do braço dele se tensionou. A mão que quase tocava a nuca de Maia recuou. O calor do vínculo, que antes preenchia o peito de Maia com uma promessa de pertencimento, virou uma pressão incômoda, um aviso de perigo. — Aren? — a voz de Maia saiu falhada, quase sumindo. Ela viu o exato momento em que o homem diante dela desligou tudo o que sentia. Os olhos de Aren ficaram opacos, desprovidos do brilho quente de segundos atrás. O passo que ele deu para trás fez o fio invisível entre os dois esticar de forma dolorosa, queimando a pele por dentro. Um murmúrio baixo percorreu o salão. As dezenas de guerreiros e betas alinharam os ombros, percebendo a quebra do protocolo. Nara deu um passo à frente no pé da escada, a mão no cabo da adaga, a expressão dominada pelo pavor. Aren virou ligeiramente o rosto em direção ao Conselho. O ancião líder deu um único e sutil aceno de cabeça. O selo da sentença estava dado. Um segundo ancião, sentado à direita da mãe de Aren, inclinou a cabeça na direção dela, como quem confirma um acordo fechado havia semanas. Maia entendeu antes mesmo de conseguir aceitar: aquilo não fora impulso do momento. Tinha sido decidido antes de ela subir os degraus, antes de vestir aquele vestido, antes de acreditar que aquela noite lhe pertencia. As chamas das tochas oscilaram. Ninguém fazia um único movimento. Do fundo do círculo, alguém tossiu — baixo, nervoso, do tipo que quebra um silêncio grande demais para ser sustentado. Ninguém se moveu para ajudá-la. Ninguém nunca se move quando é a Luna quem cai. O estômago de Maia revirou. O rosto dela queimou de vergonha. Aren voltou a encará-la. Ele não hesitou mais. A rigidez do seu rosto era a de um juiz prestes a assinar uma execução, sem espaço para misericórdia. Ele ergueu a voz, e o tom de Alfa Supremo ressoou pelas paredes de pedra do salão, vibrando no peito de cada lobo presente: — Eu, Aren D'Ávila, Alfa Supremo da Alcateia do Norte... O ar fugiu dos pulmões de Maia. A pele da sua nuca formigou, rejeitando as palavras antes mesmo de serem concluídas. — ...recuso a determinação dos céus e declaro a quebra. Eu rejeito você, Maia Valença, como minha Luna e minha companheira.






