Eu sempre soube que havia algo errado naquela casa.
Não errado no sentido simples. Não um detalhe fora do lugar, um comportamento estranho ou um silêncio mal explicado. Era algo estrutural. Como se tudo estivesse apoiado em um alicerce rachado, sustentado apenas porque ninguém ousava olhar para baixo.
Mas até aquele dia, eu ainda acreditava que o erro tinha um tamanho possível de ser compreendido.
Eu estava enganada.
A ficha não caiu de uma vez. Ela foi se formando aos poucos, como uma imagem borrada que começa a ganhar contorno quando alguém insiste em olhar por tempo demais.
Tudo começou com um e-mail.
Não era para mim.
Chegou impresso.
Dobrado em quatro partes, esquecido sobre a mesa do escritório secundário, aquele que Henrico quase não usava mais. Eu só entrei ali porque precisava buscar alguns documentos de Aurora. Nada além disso. Não estava bisbilhotando. Não estava procurando respostas.
Mas as respostas estavam me esperando.
O papel não tinha remetente.
Apenas uma frase digit