O silêncio do meu escritório no topo da torre da família costuma ser o único momento do dia em que realmente controlo meu próprio tempo. Mas a calmaria durou pouco. Assim que fechei a pasta de contratos e deslizei os dedos pelo tampo de mogno polido, o celular sobre a mesa vibrou, emitindo uma notificação que fez minha espinha gelar por um milésimo de segundo. Uma localização em tempo real enviada por Degudenh.
Suspirei, passando a mão pelo rosto. Quando decido cruzar as portas da minha casa, preciso de um bom motivo — algo que realmente valha o meu tempo, que me divirta ou desperte meu interesse. No entanto, quando se trata do meu irmão caçula, a motivação é diferente. É dever.
Abri a garagem subterrânea e caminhei até o meu Bugatti Chiron. A lataria preta reluzia sob as luzes de LED, espelhando a aura de poder que a nossa família carrega. Ajustei os punhos do terno, dei partida e ouvi o ronco grave do motor W16 ecoar pelas paredes de concreto. Aquele som costuma acalmar meus nervos, mas a urgência da mensagem de Degudenh indicava que a noite seria longa. Meu irmão tem apenas dezenove anos, o sangue quente e um talento inato para se enfiar em confusões violentas. E, como de costume, a responsabilidade de limpar o rastro de sujeira que ele deixa para trás recai sobre os meus ombros.
O GPS me guiou até o estacionamento subterrâneo e mal iluminado de uma das boates mais exclusivas da cidade. O cheiro de gasolina, fumaça de cigarro e pneu queimado impregnava o ar. Assim que desacelerei o Bugatti e a luz dos faróis cortou a penumbra, a cena à minha frente me fez travar o maxilar de raiva.
Vários homens vestidos com ternos alinhados, visivelmente armados e com o porte rígido de seguranças particulares, cercavam o local. No centro do caos estava Degudenh. Ele vestia uma camiseta branca rasgada, enrolada com firmeza ao redor da mão direita para proteger os nós dos dedos ensanguentados. Seus olhos faiscavam com uma adrenalina perigosa, e sua postura era a de um predador prestes a saltar. O grande problema? Ele estava prestes a partir para cima de um homem de meia-idade que apontava uma pistola diretamente para o seu peito.
Um arrepio frio percorreu minha espinha. Esse desgraçado tem desejo de morrer, não é possível!
Abri a porta do carro e saí com passos calmos, exalando uma autoridade fria que fez alguns dos seguranças hesitarem. Me posicionei exatamente entre a linha de tiro e o meu irmão, cobrindo o corpo dele com o meu.
— Degudenh, que diabos você aprontou agora? — perguntei, a voz baixa, controlada, mas carregada de perigo. — Quem são esses homens e o que você fez desta vez?
O homem com a arma em riste — agora apontada diretamente para a minha testa — berrou, a voz descontrolada e embargada por um ódio cego.
— ELE ESTÁ SAINDO COM A MINHA MULHER! — ele gritou, as veias do pescoço saltadas. — ELE E AQUELA VAGABUNDA VÃO MORRER HOJE!
Pela primeira vez, desviei o olhar para o carro de luxo estacionado a poucos metros. No banco do passageiro de uma SUV preta, vi uma mulher ruiva. Seus cabelos estavam alvoroçados, a maquiagem manchada por lágrimas e havia um rastro de sangue seco no canto de seus lábios. O som de seu choro desesperado ecoava pelo galpão.
Essa mulher não passa de hoje, pensei, sentindo um desprezo frio. A raiva por Degudenh subiu pela minha garganta.
— Degudenh, com tanta mulher solteira neste mundo, você tinha que se envolver logo com uma casada? O que você tem na cabeça?! — perguntei, virando-me ligeiramente para ele, com a vontade clara de esganá-lo ali mesmo. Eu esperava uma briga por bebida, por ego, por qualquer tolice da idade dele — menos por uma mulher casada.
— Eu não sabia, irmão! Eu juro! — Degudenh respondeu, tentando dar um passo à frente, mas os amigos dele o seguraram. — Eu a conheci no clube na semana passada. Saímos algumas vezes. Hoje estávamos aqui na boate quando esse maluco chegou com os seguranças dele, me cercou e disse que ela era esposa dele e que eu iria morrer!
Os amigos e os seguranças de Degudenh assentiram rapidamente, confirmando a versão. Encarei o homem armado mais uma vez.
— Você ouviu — cortei, com o tom implacável. — Meu irmão não sabia de nada. A responsabilidade do compromisso era da sua esposa, não dele. Ele não tinha como adivinhar.
O homem segurando a arma piscou devagar. De repente, a fúria em seu rosto deu lugar a uma dor patética. Ele baixou o braço devagar, a pistola apontando para o chão, e lágrimas grossas começaram a escorrer por suas bochechas. Aquela demonstração repentina de fraqueza me deixou ainda mais intrigado e alerta.
— Eu dei tudo o que o dinheiro pode comprar para aquela desgraçada... — ele sussurrou, a voz trêmula de desespero. — Joias, carros, viagens... Mas pelo visto nunca é o suficiente. Ela sempre dava um jeito de procurar outros homens. Mas de hoje ela não passa. O destino dela já está selado.
Ele guardou a arma no coldre sob o paletó, caminhou até a SUV preta, entrou no banco do motorista e acelerou ruidosamente. Os outros veículos da comitiva o seguiram imediatamente, sumindo na escuridão da noite. Capangas e empregados leais até o fim.
Olhei sério para meu irmão assim que o poeira baixou.
— Você realmente não fazia ideia de que ela era casada?
— Não! De verdade, irmão. Eu não tinha menor noção. Essa mulher é mais louca do que o marido — respondeu Degudenh, respirando fundo.
Eu sabia que era verdade. Degudenh pode ser inconsequente, mas nunca mentiria para mim. Entre nós, a verdade sempre foi uma regra inegociável.
— Vamos embora — decretei, fazendo sinal para que ele entrasse no Bugatti.
No caminho, o silêncio da cabine foi cortado pelo som abafado do motor. Tentei mudar de assunto para aliviar a tensão.
— Comprei uma casa nova. Fica num condomínio fechado, bem ao lado da propriedade de um velho amigo que trabalha comigo. Quando eu me enjoar do lugar, coloco para alugar. Mas antes, quero desfrutar da privacidade de lá.
Degudenh sorriu fraco, olhando pela janela.
— Está certo, irmão. Nosso pai está muito contente com o seu desempenho nos negócios. A empresa cresce a cada dia sob o seu comando.
— Fico feliz em ouvir isso. E não se preocupe, no futuro será você quem estará dividindo essa carga comigo e cuidando de tudo isso.
Degudenh olhou para as próprias mãos machucadas e suspirou, um tom soturno cobrindo sua voz.
— Será, irmão? Tem dias que eu simplesmente não me vejo nesse futuro...
Um aperto estranho e incômodo atingiu meu peito ao ouvir aquilo.
— Não diga bobagens — respondi rapidamente, reprimindo o desconforto. — Você, assim como nosso pai e eu, nasceu para liderar. Será um grande empresário. Nossa família é unida por homens que sempre buscam a excelência. Você sabe que sempre somos os melhores no mercado, os número um, e assim continuará sendo.
Degudenh olhou para mim, os olhos brilhando com um respeito genuíno.
— Obrigado por ser o melhor irmão do mundo.
Deixei Degudenh em segurança na mansão dos nossos pais, garantindo que ele cuidasse dos machucados na mão, e segui direto para a minha propriedade recém-adquirida.
A mansão era impecável. Uma obra-prima da arquitetura moderna, construída em vidro, aço e pedra escura, destacando-se facilmente como a mais imponente de todo o condomínio de alto padrão. Subi as escadas, tomei um banho demorado e quente para tirar o cheiro de pólvora e estresse da pele, e vesti roupas confortáveis de algodão escuro.
Com um copo de uísque na mão, caminhei até a imensa varanda do segundo andar. A noite estava límpida e agradável. Dali, eu tinha uma visão privilegiada da casa ao lado — a residência do meu amigo e homem de confiança na empresa. Fiz questão de comprar o imóvel vizinho exatamente pela praticidade; temos muitos negócios de alto nível para tratar, ele é brilhante no que faz e pretendo dar a ele ainda mais oportunidades de crescimento.
Enquanto observava o jardim iluminado da casa vizinha, meus pensamentos foram abruptamente interrompidos.
Uma jovem caminhava pela calçada em direção à entrada principal. Ela era de uma beleza estonteante e magnética. Cabelos longos e escuros caindo em ondas suaves pelas costas, um corpo de curvas esculpidas e perfeitamente avantajadas — do tipo que causaria inveja a qualquer mulher e atrairia o olhar de qualquer homem —, mas que guardava uma jovialidade inegável no rosto. Ela parecia recém-chegada à vida adulta, uma mistura perigosa de inocência e sedução.
Ela parou. Lenta e deliberadamente, levantou o olhar em direção à minha varanda.
Nossos olhos se cruzaram no escuro. Mesmo percebendo que eu a encarava fixamente, ela não desviou o olhar. Pelo contrário: manteve a firmeza.
Naquele exato milésimo de segundo, o ar ao meu redor pareceu congelar. Uma química instantânea, avassaladora e inexplicável atingiu meu peito como um golpe direto. Meu coração, que raramente saía do ritmo controlado, acelerou. Sentimentos confusos de fascínio e eletricidade percorreram minhas veias.
De repente, um sedã preto familiar dobrou a esquina e estacionou na entrada da casa vizinha. Meu amigo saiu do veículo, cumprimentou a jovem com um gesto afetuoso e familiar, e os dois caminharam juntos para o interior da propriedade.
A realização me atingiu como um balde de água fria. Eu sabia que ele tinha uma filha pequena que havia mandado para estudar fora há alguns anos... Mas será que aquela mulher era ela?
Apertei o copo de uísque com força na mão, observando a porta da casa vizinha se fechar.
Espero do fundo do meu coração que isso não me traga sérios problemas.