Mundo de ficçãoIniciar sessãoEssa garota é infinitamente mais perigosa do que eu jamais poderia ter imaginado. Quando olho para ela, vejo uma inocência cristalina brilhando em suas írises, mas, ao mesmo tempo, algo no fundo daquele olhar me diz que ela não é tão inocente assim. Há um fogo adormecido ali, uma faísca de malícia e curiosidade que me instiga de uma forma que eu não previa. Minha vontade, nesse exato segundo, é sequestrá-la da própria vida. Sumir com ela por alguns dias, trancá-la em algum lugar onde apenas eu tenha a chave, apenas para descobrir qual é o seu verdadeiro sabor, para desvendar cada camada de sua personalidade complexa e, acima de tudo, para saciar essa sede inexplicável que ela despertou em mim.
Lavei o rosto na pia de mármore do lavabo, tentando afastar aqueles pensamentos predatórios, mas foi inútil. Ao sair, caminhei pelo extenso corredor da mansão de sua família. O ambiente era luxuoso, decorado com obras de arte clássicas e tapetes espessos que abafavam meus passos, mas minha atenção foi inteiramente roubada pela visão no final do corredor. Ela estava lá, me esperando. Rand. Seu olhar estava distante, perdido através da grande janela de vidro, como se estivesse presa em seus próprios pensamentos. A luz suave da noite refletia em seus cabelos, e a curva de seu pescoço parecia um convite irrecusável. Assim que o som sutil dos meus sapatos de couro quebrou o silêncio, ela despertou de seu transe. Seus olhos se focaram em mim, e senti um baque surdo no peito. O modo como ela me olhava, com uma mistura de timidez e algo mais... algo cru. Aproximei-me, mantendo a postura impecável que a sociedade exigia de mim, e abri um sorriso charmoso, cuidadosamente ensaiado. — O que você gosta de fazer no seu tempo livre? — Perguntei, tentando soar casual, apenas para descontrair a tensão palpável que pairava entre nós. Ela piscou, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha, um gesto delicado que acompanhei com os olhos. — Eu geralmente vou ao shopping, ou ando em alguns parques por aí. Não sou muito de sair, na verdade... — sua voz era suave, quase uma melodia. Analisei-a mentalmente. Com certeza, pensei, uma garota com essa aparência deve ter namorado muito. Ainda mais na flor da juventude. Com essa beleza estonteante, os pretendentes devem fazer fila na porta. — Deve ter muitos rapazes atrás de você — comentei, dando um passo sutil em sua direção, diminuindo a distância entre nossos corpos. — Com essa beleza, acho difícil não ter uma legião deles. Para minha surpresa, ela não esbanjou nenhuma reação de vaidade. Pelo contrário, seus ombros caíram levemente e ela respondeu de forma desanimada, olhando para as próprias mãos. — Bem, até que tem alguns... mas eu não me sinto atraída por nenhum deles. Prefiro ficar na minha. Para ser sincera, só tive um namorado em toda a minha vida. E posso te afirmar, com toda a certeza, que foi uma experiência horrível. Aquilo me pegou desprevenido. — Uau... você me surpreendeu agora — murmurei, minha curiosidade genuinamente aguçada. — Com essa beleza magnífica, namorou apenas uma vez? Isso é algo muito raro de se ver hoje em dia. Uma sombra densa cruzou o rosto dela. A expressão de tristeza foi instantânea, e eu quase me arrependi de ter prolongado o assunto, até que ela começou a falar, revelando um fragmento de sua alma que me deixou petrificado. — Eu... eu quase fui violentada pelo meu antigo vizinho — a voz dela embargou levemente, mas seus olhos sustentaram os meus com uma força surpreendente. — De certa forma, isso mexeu muito comigo, deixou marcas. Ele era um homem casado. Uma certa noite, quando meus pais estavam trabalhando até mais tarde, ele invadiu a minha casa e tentou se aproveitar de mim. Mas eu não deixei. Eu bati nele com toda a força que eu tinha, lutei até conseguir escapar e... bem, foi isso. Meu sangue gelou e, logo em seguida, ferveu. Uma fúria obscura e possessiva tomou conta de cada músculo do meu corpo. Que história cruel. Como um delinquente, um verme nojento, ousa tentar se aproveitar de uma criatura tão perfeita dessa maneira? A mera imagem de outro homem forçando suas mãos sujas sobre a pele dela me causou um ódio que eu não sabia que era capaz de sentir. Era inadmissível. Minha mandíbula travou, mas forcei meu rosto a manter uma expressão de empatia polida. — Eu sinto muito, Rand... — minha voz saiu mais rouca e profunda do que eu pretendia. — Eu não sabia. Jamais tocaria nesse tipo de assunto se soubesse que lhe traria lembranças tão más. Ela suspirou, o peito subindo e descendo de uma forma que me obrigou a desviar o olhar por um milésimo de segundo. — Sem problemas. Eu já superei isso, de verdade... — E então, o clima mudou. Ela levantou o rosto e me olhou profundamente. A vulnerabilidade de segundos atrás desapareceu, dando lugar a um brilho diferente. Um brilho de desejo. Ela deu um passo à frente, entrando perigosamente no meu espaço pessoal. — Bem... — ela sussurrou, os olhos fixos na minha boca antes de subirem para os meus. — Ainda bem que agora você apareceu. Eu não esperava que uma pessoa tão interessante e fascinante pudesse cruzar a minha vida assim, tão de repente. A respiração dela bateu contra o meu queixo. O cheiro de sua pele — baunilha com um toque cítrico — invadiu minhas narinas, me embriagando. — Pois é — respondi em um sussurro contido, lutando contra o impulso de agarrá-la pela cintura ali mesmo. — Nem eu poderia imaginar. Antes que o magnetismo entre nós se transformasse em algo irreversível no meio do corredor, ouvimos vozes se aproximando. Recuamos instintivamente e caminhamos juntos em direção à área externa da mansão, onde a churrasqueira estava acesa. O clima lá fora era agradável e o cheiro de carne assada dominava o ar. O pai de Rand nos recebeu com um sorriso largo, segurando um pegador de carne. — Já coloquei a picanha para assar, não vai demorar para sair! — anunciou ele, animado. — Minha amada esposa está terminando de se arrumar lá em cima e já vai descer para se juntar a nós. Foi ela mesma quem preparou os acompanhamentos de hoje. — Muito obrigado pela recepção calorosa — eu disse, vestindo novamente minha máscara de vizinho perfeito e homem de negócios impecável. — Que isso, meu jovem! Você merece isso e muito mais — o pai dela respondeu, batendo de leve no meu ombro. — É uma honra imensa tê-lo como nosso vizinho. O que você e seu pai fizeram pela minha família, nos ajudando com aqueles contratos... não tem preço! Sinta-se em casa. Sorri em agradecimento, mas minha mente era um abismo de pensamentos pecaminosos. Se ele soubesse o que eu mais quero agora... Se ele imaginasse que o meu único desejo sob esse teto é arrastar a filha dele para a minha cama, duvido que ficaria tão feliz com a minha presença. Olhei de soslaio para Rande, que arrumava os talheres na mesa de madeira rústica. — A sua filha é uma jovem muito educada e simpática — comentei, girando o copo de uísque que o anfitrião havia acabado de me entregar. — E incrivelmente bonita. Com certeza já deve ter algum pretendente à altura. O homem suspirou, balançando a cabeça em reprovação. — Ah, minha linda Rand... Só teve um namorado, e o garoto era um autêntico palerma. Um traste que não durou nem três meses na nossa vida. Depois daquele idiota, ela não trouxe mais ninguém em casa. Como pai, eu quero que ela arrume alguém que seja um homem de verdade, entende? Alguém que a proteja. Quero que ela se case bem, tenha filhos e seja muito feliz. Mas, francamente, ela é jovem demais para pensar nisso agora. — Com toda a certeza — concordei, tomando um gole do líquido âmbar, sentindo a queimação descer pela garganta enquanto meus olhos encontravam os dela do outro lado da área gourmet. — Ela precisa pensar bem no futuro e focar nos estudos antes de qualquer outra coisa... Ela percebeu o duplo sentido no meu olhar. De soslaio, por trás da cortina de seus cílios espessos, ela sorriu. Um sorriso pequeno, secreto. Apenas nosso. A noite seguiu perfeitamente agradável para os padrões sociais. Comemos, bebemos, conversamos sobre amenidades e negócios. Despedi-me com a elegância de sempre e caminhei a passos lentos até a minha própria casa, a mais nova e imponente mansão do condomínio. O silêncio do meu lar, normalmente reconfortante, hoje me parecia sufocante. Caminhei até o bar na sala de estar, afrouxando a gravata e desabotoando os primeiros botões da camisa social. Cheguei a pensar em pegar as chaves do carro esportivo e ir para alguma boate de luxo no centro, dissipar a tensão com alguma mulher bonita e vazia, mas não consegui. Queria curtir o meu próprio momento a sós. Bem, na verdade... depois que vi aquela jovem, depois daquele olhar no corredor, meus pensamentos se tornaram um labirinto pecaminoso do qual eu não queria sair. Rande. Eu não conseguia parar de pensar nas curvas dela, na forma como o vestido marcava levemente seus seios fartos. Não parava de pensar naquele pescoço liso e cheiroso, no qual eu tinha uma vontade doentia de deixar a marca dos meus dentes. Sua boca... aqueles lábios carnudos e rosados que pareciam me chamar para uma dança silenciosa e proibida contra os meus. Eu a queria. A queria desesperadamente em minha cama, nua e entregue. Queria saber se ela ainda guardava sua pureza, ou se aquele palerma, como seu pai havia descrito, tinha tido a audácia de tirar sua virtude. Nunca, em toda a minha vida, me interessei por meninas mais jovens. Sempre preferi mulheres maduras, experientes, que soubessem exatamente as regras do jogo. Mas com ela... com ela era diferente. Foi uma química violenta, magnética. Foi algo fora do comum, um choque térmico na minha rotina impecável, algo que nunca me aconteceu. E olha que eu já me envolvi com os mais variados tipos de mulheres. Mas o desejo primitivo que está correndo nas minhas veias agora é completamente diferente. É obsessão. Preciso esfriar a cabeça. Ou talvez afundar nela. Decidi que tomaria um longo banho na minha suíte master. Pedi para que a governanta preparasse a hidromassagem com sais de banho relaxantes, peguei uma garrafa do meu vinho francês mais caro na adega, uma taça de cristal, e dispensei os funcionários pela noite. O banheiro estava imerso em uma penumbra sedutora, iluminado apenas pelas luzes indiretas e pela água espumante da banheira gigante de mármore negro. Tirei minhas roupas lentamente, deixando que caíssem pelo chão, e entrei na água quente. O contraste da temperatura relaxou meus músculos tensos, mas não acalmou meu sangue. Tomei um longo gole do vinho, encostei a cabeça na borda macia da banheira e fechei meus olhos, deixando a imaginação me dominar por completo. Na minha mente, a porta do banheiro se abria lentamente. Rande entrava, usando apenas um robe de seda escura que contrastava com a pele alva de suas pernas. Seus passos eram hesitantes, o olhar tímido, mas cheio de um fogo que ela não conseguia esconder. "— Sr. Dhehanks..." — a voz dela soava trêmula na minha fantasia, um sussurro carregado de antecipação. — "Eu... eu tenho medo. Não sei se é o momento certo..." Na minha mente, eu deixava a taça de vinho na borda e estendia a mão para ela, minha voz grave e reconfortante cortando o silêncio do cômodo. "— Olhe para mim, minha linda" — eu diria, puxando-a gentilmente até que ela estivesse ajoelhada na borda da banheira, o rosto próximo ao meu. — "Você acha mesmo que eu te machucaria? Que eu deixaria algo de ruim acontecer com você?" Aos poucos, a hesitação dela derretia. O robe de seda caía por seus ombros, revelando a perfeição absoluta de seu corpo. Suas mãos pequenas e macias tocavam meus ombros largos, os dedos deslizando pela minha pele molhada, começando a fazer uma massagem trêmula em meus braços. Seus olhos percorriam cada centímetro do meu peito nu, fascinados. O olhar dela me chamava, ardia em uma luxúria pura e inexplorada. A atração se tornaria insuportável. Eu a puxaria para dentro da água quente comigo. O choque térmico a faria arfar, colando seu corpo perfeitamente no meu. Minha boca não perderia tempo e atacaria seu pescoço, trilhando beijos úmidos e possessivos pela pele sensível, sentindo o pulso dela acelerar contra os meus lábios. O cheiro de baunilha se misturando ao vapor do banho me deixaria louco. Minhas mãos, grandes e firmes, passeariam por suas costas, descendo até a curva de seus quadris, para então deslizar por entre suas pernas com uma delicadeza contrastante, com carinho e precisão. Ao sentir meu toque no seu ponto mais íntimo e sensível, seus suspiros de prazer preencheriam o banheiro. A respiração dela bateria contra o meu ouvido, descompassada, o que me faria ficar completamente ereto sob a água de forma imediata. Eu capturaria seus lábios em um beijo profundo, desesperado, explorando o calor da sua boca enquanto meus dedos encontravam seu ponto de prazer, movendo-se com uma agilidade calculada. Entre a força dos meus beijos e o ritmo dos meus dedos a tocando sob a espuma, seus gemidos ficariam mais altos, mais intensos, e seu corpo inteiro ficaria mole, completamente entregue e rendido aos meus braços. Eu interromperia o beijo apenas o suficiente para olhá-la nos olhos, vendo as írises dela dilatadas e embriagadas de tesão. "— Se você já está assim agora..." — eu sussurraria contra a boca molhada dela. — "Imagine só quando eu te fizer minha por completo?" Ela me olharia, respirando de forma pesada e ofegante, os seios subindo e descendo freneticamente, pronta para me pedir, para implorar que eu a tomasse de uma vez por todas... O som estridente e insuportável do meu celular ecoou pelas paredes de mármore, rasgando o silêncio da suíte e estilhaçando a minha fantasia em mil pedaços. Abri os olhos de supetão, a respiração tão ofegante quanto a da minha ilusão. Olhei para o aparelho vibrando incessantemente em cima da bancada. — Mas que inferno! — rosnei para as paredes vazias, batendo a mão na água e espirrando espuma no chão. — Não posso nem mergulhar nos meus próprios pensamentos mais. Tinha que ser essa porcaria de celular tocando agora. Não é possível... Respirei fundo, passando a mão pelos cabelos molhados, tentando controlar a frustração evidente e o desejo latejante que ainda me consumia.






