Se todos os dias fossem assim, banhados por essa paz silenciosa e calculada… bem, nem pareceria a minha vida.
Olho para o copo de cristal na minha mão, o uísque dourado refletindo a luz suave do entardecer que invade a cobertura onde estou. O silêncio aqui em cima é quase desconfortável. Para um homem como eu, o silêncio não é descanso; é o prenúncio de uma tempestade ou o aviso de que alguém, em algum lugar, está prestes a cometer um erro terrível. E, na maioria das vezes, esse alguém tem o meu sangue.
Prazer, me chamo Dhehanks Dhabajhu.
O nome entrega a origem, eu sei. Minha família carrega as raízes profundas e intensas da Turquia, com tradições antiquadas que nunca combinaram muito comigo. Apesar da ascendência, a verdade é que desde que me conheço por gente o meu chão é o Brasil. Aprendi a transitar entre o exotismo do meu sobrenome e a ginga brasileira com uma facilidade quase perigosa. Tenho 33 anos, uma conta bancária com mais zeros do que a maioria das pessoas consegue contar sem se perder e uma vida que é um verdadeiro caos sob medida.
E quer saber de um segredo? Minha vida só é conturbada porque eu quero. Eu gosto. Pra ser bem sincero, a calmaria me dá tédio, e o tédio é o meu maior inimigo.
Há quem diga que acumular fortunas é uma busca por estabilidade. Para mim, a riqueza é só o combustível que mantém o motor da minha adrenalina funcionando. Viver, no meu dicionário, é um hobby caro e fascinante. Gosto da agitação, do barulho das grandes cidades, dos problemas aparentemente insolúveis e, acima de tudo, da sensação inebriante de ser a única pessoa capaz de resolver o que ninguém mais consegue. Eu sou o cara que entra em uma sala em chamas apenas pelo prazer de apagar o fogo e sair sem um único arranhão no terno.
E não posso negar: a moldura ajuda bastante o quadro. Tenho porte físico robusto, resultado de disciplina rigorosa e treinos diários — corpo musculoso, pele morena queimada pelo sol do tropicalismo que adotei, cabelo sempre em um corte social impecável e um sorriso que costuma abrir portas que o dinheiro às vezes demora a arrombar. Modéstia nunca foi meu forte, até porque prefiro a honestidade brutal. Sei o impacto que causo quando entro em qualquer lugar. O olhar das pessoas muda, a energia da sala pesa, e as atenções se voltam para mim como se eu fosse o centro de gravidade do ambiente.
Isso se aplica a tudo, especialmente às mulheres. Já tive mulheres de todos os tipos, jeitos, personalidades e sabores. Lindas, perigosas, fáceis, inalcançáveis. Mas se você está esperando a história de um canalha que se apaixonou e mudou de vida, pode ir tirando o cavalo da chuva. Me apegar de verdade a alguém é um fenómeno que simplesmente nunca aconteceu comigo. Houve algo na adolescência, claro — aquele draminha juvenil vago que todo mundo passa —, mas foi algo tão trivial, tão superficial, que nem sequer deixou cicatriz. O amor, para mim, é uma transação em que eu raramente aceito pagar o preço do meu controle.
Então, você deve estar se perguntando: no que um multimilionário de 33 anos, dono de si e sem amarras emocionais, gasta o seu tempo e o seu dinheiro?
A resposta é simples: bebedeiras lendárias nas melhores boates do mundo, festas exclusivas que duram dias, viagens luxuosas para destinos que a maioria das pessoas só vê em cartões-postais e... lidando com o meu irmão mais novo, Degudenh.
Ah, o Degudenh. Se a minha vida é um jogo de xadrez de alto risco, a dele é uma roleta-russa com o tambor cheio. Ele tem o talento nato para se enfiar em problemas fortíssimos. Não estou falando de multas de trânsito ou barracos em boates; estou falando de confusões gigantescas, perigosas e absurdamente complexas que, às vezes, nem mesmo eu, com todo o meu poder, dinheiro e contatos, sou capaz de arrumar de imediato. Ele é o meu ponto fraco, a minha maior dor de cabeça e, ironicamente, a minha maior fonte de entretenimento involuntário.
Coloco o copo de uísque sobre a mesa de centro de mármore e me aproximo da grande vidraça que dá para o horizonte da cidade. Os prédios começam a acender suas luzes, e o trânsito lá embaixo parece uma serpente iluminada se movendo devagar.
O telefone no meu bolso começa a vibrar. Não preciso nem olhar na tela para saber quem é. O momento de paz acabou, durou exatamente o tempo de eu me apresentar a você.
Sorrindo de canto, deslizo o dedo pela tela e atendo.
— Dhehanks... — a voz do outro lado vem afobada, com o som de frestas de vento e sirenes ao fundo. — Mano, eu juro que dessa vez não foi culpa minha. Mas você precisa vir aqui agora.
Aperto o celular contra a orelha, ajusto os punhos da minha camisa e dou uma última olhada para o meu reflexo no vidro. O jogo começou de novo.
— Fala logo o que você fez, Degudenh — respondo, com a voz calma, grave e o divertimento estampado no rosto. — E é bom que seja interessante.