O calor daquela tarde parecia desacelerar o tempo dentro do nosso condomínio fechado. O silêncio das alamedas perfeitamente alinhadas, cercadas por jardins impecáveis e palmeiras imponentes, trazia uma paz quase hipnótica. Sempre fui uma garota caseira, totalmente avessa ao falatório e às festinhas barulhentas do pessoal da minha escola. Prefiro o acolhimento do meu quarto, o silêncio da minha mente e a tranquilidade de uma vida sem grandes alardes. Tenho poucas amizades e nunca senti necessidade de sair por aí ficando com meio mundo em festas no fim de semana.
Talvez isso se deva ao meu jeito um pouco diferente de pensar. Aos meus dezessete anos, tenho plena consciência da minha aparência. Sou baixinha, mas tenho um corpo escultural e curvas bem definidas que naturalmente atraem olhares por onde passo. Meus cabelos escuros e longos caem pelas minhas costas, contrastando com a minha pele e com a profundidade dos meus olhos castanhos, quase negros. Eu sei que chamo atenção nos corredores do colégio. Contudo, os garotos da minha idade nunca conseguiram despertar nada profundo em mim. Tive apenas um namorado na vida, uma experiência rápida de seis meses que só serviu para me irritar. Ele era lento, sonso, sem atitude alguma — um moleque imaturo que só pensava em videogame e piadas sem graça. Aquela primeira experiência bobinha me ensinou exatamente o que eu não queria. Preciso de um homem de verdade. Alguém com maturidade, seguro de si e que saiba como tratar uma mulher. Não tenho paciência nenhuma para esses garotos crianças da minha idade.
Enquanto caminhava pela calçada de pedra polida, pensando sobre a vida e sentindo a brisa leve contra meu rosto, meus pensamentos foram abruptamente interrompidos por uma cena incomum. Estacionado logo na entrada da mansão ao lado — uma propriedade imensa de arquitetura ultra-moderna que fora vendida na semana passada —, estava um carro esportivo que parecia uma obra de arte sobre rodas. Era uma máquina impecável, reluzente, cujo valor facilmente compraria vários apartamentos de luxo.
Fiquei curiosa. Quem seria o novo morador?
Aproximei minha vista e, parado na calçada, observando a fachada da casa e a vista do condomínio com uma postura ereta e dominante, estava um homem. Meu coração deu um salto involuntário no peito. A imagem me deu um estalo imediato na memória: eu conhecia aquele rosto! Há poucas semanas, enquanto espiava sem querer o celular do meu pai sobre a mesa, vi uma foto dele na tela.
Era o chefe dele.
Meu pai trabalha há muitos anos para a família desse homem, começando na gestão do pai dele e, agora, atuando diretamente ao lado do filho. Hoje em dia, meu pai é um dos investidores da Pandore Commerce, uma gigante mundial do mercado corporativo, uma empresa cujo nome estampado em prédios espelhados ao redor do globo é sinônimo de poder absoluto. Graças a isso, minha família conquistou uma estabilidade financeira invejável; meu pai está na faixa dos milionários e vivemos com extremo conforto. No entanto, o homem à minha frente pertencia a outro planeta econômico: ele era um dos raros trilionários do mundo, um titã dos negócios.
Mas, olhando para ele ali, a última coisa em que pensei foi em seu patrimônio. A foto na tela do celular não fazia justiça à sua presença real. Ele parecia ter saído diretamente de uma capa de revista internacional. Alto, de ombros largos e uma postura transbordante de autoconfiança, ele era a definição viva de charme e virilidade. Estava completamente à vontade, vestindo apenas um short de seda maleável que desenhava suas pernas e chinelos de couro. Estava sem camisa. O sol da tarde bateu em seu peitoral definido, revelando uma pele bronzeada e músculos esculpidos sem o menor esforço. Ele parecia estar em um refúgio particular de férias, absolutamente despreocupado com o mundo ao seu redor. Um homem expansivo, festeiro e de magnetismo inegável.
De repente, como se sentisse o peso do meu olhar, ele virou o rosto na minha direção.
Nossos olhos se cruzaram no meio do caminho. O ar ao meu redor pareceu sumir instantaneamente. Sentindo um calor intenso subir pelo meu pescoço, percebi que meu rosto havia ficado completamente corado. Eu tentei disfarçar, mas era tarde demais.
Lentamente, sem pressa alguma, os olhos dele percorreram cada centímetro do meu corpo. Foi um olhar denso, profundo, quase palpável. Naquele segundo, sob a intensidade daquela avaliação, senti-me absolutamente desprotegida, como se estivesse desnudada no meio da rua por aquele olhar faminto e maduro. Meu coração martelava contra as minhas costelas, acelerado, descompassado. Ainda assim, por mais que meu pudor me mandasse desviar a atenção, meus olhos pareciam hipnotizados, incapazes de se soltar da sua face impecável e marcante. Ele claramente sabia o poder que exercia; tinha a plena consciência de que era deslumbrante. Ver uma jovem garota como eu paralisada por sua presença era apenas mais um detalhe cotidiano para o seu ego.
BIBI!
O som estridente de uma buzina cortou o ar como um chicote, quebrando o transe elétrico em que eu me encontrava. Um susto percorreu minha espinha e dei um pequeno pulo para trás, desviando o olhar bruscamente.
Era o carro do meu pai, que acabava de encostar junto ao meio-fio da nossa garagem. Ele baixou o vidro do motorista, sorrindo com um olhar confuso.
— O que faz parada aí na calçada, querida? — perguntou ele, divertido com a minha reação assustada.
Puxei o ar com força, tentando recompor o fôlego e conter o rubor quente que ainda queimava em minhas bochechas. Dei um sorriso sem jeito, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Ah... é que eu vi que chegou um vizinho novo e acabei me distraindo — respondi com a voz um pouco mais falhada do que gostaria, dando alguns passos em direção à porta da nossa casa.
Meu pai olhou pelo retrovisor e deu uma leve risada, desligando o motor do carro.
— Ele é o meu chefe! Decidiu comprar a casa logo ao lado da nossa.
Parei por um segundo, fingindo surpresa enquanto digeria a confirmação daquela coincidência avassaladora. Então era por isso que o rosto não me era estranho. Que homem, meu Deus... que homem!
— Ah... mas tanto lugar no mundo, justo aqui, pai? — perguntei com uma curiosidade mal disfarçada, tentando manter um tom leve na conversa.
— Ele tem várias mansões espalhadas pelo país, essa é apenas mais uma — explicou meu pai, saindo do carro e ajeitando o paletó. — Para o nível dele, quanto mais casas e propriedades, melhor para o patrimônio. Mas não se engane pela ostentação, ele é um bom homem. Apesar de ser extremamente festeiro e ter essa vida agitada, ele trata todos os funcionários com um respeito enorme e está se tornando um grande amigo meu.
— Que bom, pai... Fico feliz por você — murmurei, sentindo um frio na barriga só de pensar na proximidade diária daquele homem. — Vou entrar.
— Vou dar as boas-vindas a ele e já entro, querida. Beijos... — disse meu pai, trancando o veículo e caminhando a passos largos em direção à calçada da mansão vizinha.
Acompanhei de soslaio a aproximação dos dois antes de girar a maçaneta. Ao fechar a porta de casa atrás de mim e me encostar contra a madeira fria, soltei o ar que nem sabia que estava segurando. Meu peito ainda subia e descia com pressa. O novo morador da casa ao lado não era apenas o chefe bilionário do meu pai; era o homem que acabara de despertar em mim tudo aquilo que nenhum garoto da minha idade jamais conseguiu.