Ponto de Vista: Leonardo
O estúdio da gravadora havia se tornado minha tumba e meu altar. Eu já não sabia mais que dia da semana era, nem se o sol brilhava lá fora. O ar era sempre o mesmo: seco, frio, com aquele cheiro persistente de eletrônicos aquecidos e café velho. Eu me tornara uma extensão do equipamento. Minha voz, minhas mãos no piano e os fones de ouvido que pareciam ter se fundido às minhas têmporas eram as únicas coisas que restavam do homem que um dia achou que tinha o controle de sua própria vida.
Eu não saía para nada. O banheiro do camarim, com seu chuveiro de pressão insuficiente e azulejos brancos impessoais, era o único cenário que eu via além das paredes acústicas. Eu tomava banhos rápidos, mecânicos, tentando lavar o cansaço que parecia impregnado nos meus poros, mas a água nunca era quente o suficiente para relaxar a tensão nos meus ombros. Eu comia o que me traziam — saladas insossas, sanduíches que eu mal sentia o gosto — apenas para manter o corpo funcionando.