Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlgumas decisões não pedem permissão
Serena saiu do salão tentando parecer natural, mas o coração batia rápido demais para que isso fosse verdade. Caminhava devagar, fingindo observar a decoração, os quadros, as esculturas, enquanto, na realidade, seguia Caetano com o olhar, como se aquele homem tivesse se tornado um ponto fixo no espaço, algo impossível de ignorar. Ele atravessou o corredor lateral, passou por duas portas de vidro e subiu uma escada discreta que dava acesso à ala íntima da casa. Serena ficou onde estava por alguns segundos, respirando fundo, tentando convencer a si mesma de que aquilo era apenas curiosidade. Não era. Mesmo assim, foi atrás. O corredor era silencioso, iluminado por luzes indiretas, com portas idênticas alinhadas nos dois lados. Serena caminhava contando mentalmente os passos, o número de portas, até ver a última à esquerda se abrir e ele entrar. Parou ali, observando, como se o corpo tivesse entendido antes da mente o que aquilo significava. Quando a porta se fechou, seu coração disparou. Ela deu alguns passos à frente, memorizou o número do quarto e então voltou para o salão, como se nada tivesse acontecido. Mas tudo já era diferente. Agora, ela via com mais nitidez as mulheres se aproximando dele, rindo, tocando o braço dele, tentando chamar sua atenção. E ele ignorava. Não por arrogância, mas por indiferença. Aquilo mexeu com algo dentro dela, uma mistura confusa de raiva, desejo e medo, sentimentos que não sabiam coexistir, mas insistiam. Serena começou a beber. Uma taça, depois outra, depois mais uma. Falava pouco, sorria o mínimo, observava demais. Planejava em silêncio, como se aquilo não fosse impulso, mas uma decisão lenta, construída. Quando se deu conta, o salão já estava mais vazio. Algumas pessoas se despediam, outras se dirigiam para os quartos. Foi então que viu o pai se aproximar. — Estou cansado. Vou subir. Ele disse, já com o tom de quem não pretendia estender conversa. Ela assentiu. — Daqui a pouco eu vou. — Não demora. — Não vou. Ele beijou o rosto dela e saiu. Serena ficou ali, sozinha, segurando a taça, esperando. Esperou mais um pouco, até sentir que já não havia desculpas dentro dela. Então subiu. O corredor estava quase todo em silêncio agora. Serena caminhou até a porta que havia memorizado, entrou no banheiro social ao lado e trancou-se. Respirou fundo, como quem se prepara para atravessar algo irreversível. Tirou o vestido com mãos trêmulas e ficou apenas de lingerie. O espelho refletia uma versão dela que parecia estranha, distante, mas, ao mesmo tempo, assustadoramente decidida. Ela estava mesmo fazendo aquilo. Ouviu passos do outro lado da parede. A porta se abriu, depois se fechou. Trancou. Sons pequenos atravessaram o silêncio: sapatos sendo retirados, o ruído seco de uma camisa sendo jogada sobre uma cadeira. A respiração dela ficou presa no peito. Serena abriu a porta do banheiro e saiu. Caetano estava de costas, sentado na beira da cama, afrouxando o nó da gravata. Quando se virou, congelou. — Serena. Ela caminhou devagar, como se cada passo fosse um acordo silencioso. — Eu trouxe um presente. — Você está bêbada. Ele respondeu, tentando manter a voz firme. — Não o suficiente. Ele se levantou. — Isso é um erro. Saia daqui. — Não. — Agora. Ela se aproximou mais. — Não me mande embora. — Isso não é um jogo. — Para mim, é uma escolha. Ele deu um passo para trás, visivelmente em conflito. — Você não sabe o que está fazendo. — Eu sei exatamente. Ela tocou o peito dele. Ele segurou o pulso dela. — Não. Serena respirou fundo, o olhar firme. — Eu não sou uma criança. — Você é filha do meu melhor amigo. — Eu não sou só isso. Ele fechou os olhos por um instante, como se estivesse lutando contra algo maior do que ambos. — Isso não pode acontecer. — Mas já está. Ela o beijou. No início, ele não correspondeu. Depois, afastou. — Serena, por favor. — Eu não quero depois. Ela se aproximou de novo. E, dessa vez, ele não se afastou. A luz do quarto era baixa. O tempo pareceu suspenso. — Porra menina. Eu… Quero muito você. Esse seu cheiro. — O perfume que você me deu? — Não. Esse cheiro de fêmea, de mulher. O beijo foi intenso. O mundo desapareceu. Quando o dia começou a clarear, Serena vestiu o vestido em silêncio, calçou os sapatos na mão e abriu a porta com cuidado. Saiu de ponta de pé. O corredor estava vazio, e ela caminhava rápido, tentando apagar o que já não podia ser apagado. Foi então que alguém segurou seu braço. — Onde você estava? Ela congelou. Era o pai. — Eu… eu dormi no sofá. — Mentira. Ele apertou o braço dela. — Você saiu do quarto dele. — Pai, eu só… — Cala a boca. Ele a puxou pelo corredor, sem se importar com os olhares que começavam a surgir. — Você tem noção do que fez? — Não aconteceu nada. — Você acha que eu sou idiota? Ela tentou se soltar. — Eu só dormi no quarto errado. — Você sempre tratou ele como tio. — Eu estava bêbada. — Você é uma vergonha. Os olhos dela arderam. — Eu não fiz nada. — Eu vi você saindo do quarto dele. Ele chamou o motorista. — Pega as coisas dela. Serena tentou argumentar. — Pai, por favor. — Você não pisa mais nessa casa. — Não é assim. — É exatamente assim. No carro, ela chorava em silêncio. Quando chegaram em casa, ele jogou a mochila dela sobre a mesa. — Eu não quero esse tipo de filha na minha casa. — Eu não fiz nada. — Você se jogou no homem que eu chamo de irmão. — Eu só dormi lá. — Não mente pra mim. — Eu juro. Ele a encarou por alguns segundos, como se estivesse decidindo algo definitivo. — Você vai embora hoje. — Para onde? — Para a casa da sua tia. — Eu não vou. — Você vai. Ele começou a jogar roupas na mochila. — Você não manda mais em mim. — Eu mando enquanto você morar aqui. — Eu não fiz nada. — Você destruiu tudo. — Eu só estava confusa. — Você é uma decepção. Serena caiu sentada na cama. — Eu não sou isso que você está dizendo. — Você não fica mais. Ele chamou o motorista. — Leva. Aqui está o endereço. Ela se levantou. — Eu não vou. Ele segurou o braço dela. — Você vai. Serena foi colocada no carro, apagada sem saber par onde estava indo. O sol já estava alto. E ela sentia que algo dentro dela tinha se quebrado para sempre.






