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O café sobre a mesa já estava frio quando Josefina Abrantes leu, pela quinta vez, o mesmo e-mail.
"Agradecemos sua dedicação à Escola Bilíngue CAE. No entanto..."
As palavras pareciam embaralhadas na tela do notebook, como se, de tanto insistir em relê-las, pudessem mudar de significado.
Ela havia sido demitida.
O quarto permaneceu em silêncio, quebrado apenas pelo leve zumbido do relógio antigo. Josefina fechou o notebook devagar e levou as mãos ao rosto.
— E agora...? — sussurrou para si mesma.
Perder um emprego nunca faz parte dos planos de ninguém. Muito menos dos dela.
Nos últimos anos, dedicara boa parte da vida ao cuidado de crianças. Antes da escola bilíngue, havia estagiado em uma creche, onde aprendera que paciência e carinho eram tão importantes quanto qualquer formação. Gostava do que fazia, de ouvir, aconselhar e acolher. Gostava dos pequenos abraços inesperados e das risadas que transformavam um dia difícil em algo suportável. Por isso, a demissão doía ainda mais.
Ela respirou fundo e caminhou até o banheiro, onde decidiu se esconder por alguns minutos. O espelho, rachado em um dos cantos, refletia seus cabelos castanhos ondulados e as discretas olheiras acumuladas por noites mal dormidas. Seus olhos cor de mel ainda guardavam o brilho de quem se recusava a desistir, embora o cansaço insistisse em aparecer.
Josefina apoiou as mãos na pia.
— Você vai dar um jeito... como sempre deu.
Não era a primeira dificuldade da sua vida e, provavelmente, também não seria a última.
Depois de lavar o rosto, voltou ao quarto decidida a distrair a cabeça antes que a ansiedade a consumisse. Ligou a TV e começou a assistir a vídeos aleatórios. Séries, viagens, curiosidades... nada realmente prendia sua atenção.
Até que um título apareceu.
"Como funciona o programa Au Pair?"
Ela franziu a testa.
— Au pair...
Já tinha ouvido aquele termo algumas vezes, mas nunca parara para entender exatamente do que se tratava.
Clicou no vídeo.
Enquanto assistia, jovens mostravam suas rotinas vivendo com famílias em diferentes países, aprendendo novos idiomas, conhecendo culturas completamente diferentes e, ao mesmo tempo, cuidando de crianças. Algo dentro dela despertou. Era como se uma porta finalmente tivesse sido aberta.
"Você pode escolher vários destinos pelo mundo...", dizia a influenciadora.
— Qualquer lugar do mundo...
Josefina repetiu baixinho, quase sem perceber.
Seu coração acelerou.
Desde a adolescência, cultivava uma paixão silenciosa pela Coreia do Sul. Passava horas assistindo a doramas, escutando K-pop e pesquisando curiosidades sobre a cultura coreana. Aprendera até algumas expressões básicas apenas por diversão.
E havia Ye-jun.
O cantor e ator dono do sorriso que ela já pausara inúmeras vezes na televisão e nas redes sociais. Um daqueles amores platônicos que jamais admitira em voz alta, nem mesmo para a irmã ou para as amigas.
Sorriu, balançando a cabeça.
— Ninguém pode saber disso.
Mesmo assim...
Seus dedos já digitavam no navegador.
"Programa Au Pair na Coreia do Sul."
Poucas opções apareceram. Mesmo assim, passou boa parte da tarde pesquisando. Viu relatos de outras brasileiras que viveram em diferentes países, além de diversos depoimentos.
Ao entrar em um site especializado, conferiu as avaliações para verificar se aquilo era realmente seguro. Entrou em fóruns e pesquisou cada detalhe da agência que mais lhe chamou a atenção. Só depois de ter certeza de que tudo parecia sério resolveu preencher o formulário.
As perguntas eram tantas que pareciam contar a história da sua vida: experiência com crianças, idiomas, disponibilidade, objetivos... enfim.
Quando terminou, olhou para o botão "Enviar", exausta.
— Seria mais fácil simplesmente viajar como turista... — resmungou.
Então, ficou quase um minuto encarando a tela.
— Talvez eu esteja ficando louca!
Mesmo assim, clicou.
Na manhã seguinte, enquanto voltava da academia, seu celular vibrou.
Era um e-mail.
Seu coração disparou imediatamente.
"Parabéns. Seu perfil foi aprovado para a próxima etapa. Gostaríamos de agendar uma entrevista."
Ela levou alguns segundos para acreditar.
— Oh, my gosh...
Passou o restante do dia tentando controlar a ansiedade, mas manteve tudo em sigilo.
Na semana seguinte, arrumou-se cuidadosamente e respirou fundo antes de entrar na videoconferência.
A agente apareceu na tela, elegante, com um coque impecável e a expressão serena.
— Bom dia, Josefina! Sou Nicole. Antes de qualquer coisa, quero dizer que seu currículo nos chamou bastante atenção.
Josefina sorriu, nervosa.
— Obrigada.
— Você tem vinte e sete anos, excelentes recomendações, experiência sólida com crianças e fala inglês, alemão, francês e espanhol fluentemente. Encontrar esse conjunto de qualificações não é tão comum quanto parece.
Josefina sentiu os ombros relaxarem um pouco.
Nicole continuou:
— Entretanto, há um detalhe importante. Você demonstrou interesse específico pela Coreia do Sul. Algum motivo especial?
— É... talvez eu esteja fugindo do padrão... ou da minha própria realidade. — respondeu em um desabafo que nem pretendia fazer.
— Entendo. Mas a maioria das famílias aceita apenas candidatas que tenham pelo menos uma base de coreano.
Josefina assentiu, preocupada.
— Eu ainda estou aprendendo, mas já tenho uma boa base. Também conheço um pouco de mandarim. Tenho facilidade com idiomas e posso me dedicar ainda mais.
Nicole fez algumas anotações antes de levantar novamente os olhos para a câmera.
— Na verdade... surgiu um caso diferente estes dias.
Josefina endireitou a postura, intrigada.
— Existe uma família influente procurando alguém com o seu perfil. Eles têm uma criança que exige atenção especial, paciência e muita experiência. A remuneração é bem acima da média.
Josefina sorriu, até ouvir a continuação de Nicole.
— Este é um recrutamento de elite, bastante raro. Em dez anos trabalhando aqui, esta é apenas a terceira vaga desse tipo. E não costumamos oferecer essa oportunidade para candidatas recém-aprovadas. Apenas au pairs com anos de experiência, excelente qualificação e fluência em idiomas costumam ser selecionadas.
Nicole fez uma breve pausa, como se analisasse a situação.
— Mesmo assim, você se encaixa no perfil. Porém, existe uma condição.
Ela prendeu a respiração.
— A identidade da família permanecerá em sigilo absoluto. Você não saberá nada sobre eles até chegar a Seul. Faz parte do contrato de confidencialidade.
O silêncio tomou conta da chamada.
Josefina sentiu um frio percorrer o estômago, sem saber se aquilo era realmente seguro. Viajar para o outro lado do mundo sem saber exatamente quem a receberia... ou o que aconteceria?
Parecia loucura.
Talvez... seria realmente um risco?
Durante horas, voltou a pesquisar a agência. Conferiu registros oficiais, depoimentos, vídeos e avaliações de outras intercambistas. Tudo apontava para uma empresa séria.
Naquela noite, ajoelhou-se ao lado da cama.
— Meu Deus... será que esta é uma oportunidade ou uma cilada? Se isso não for seguro, por favor, me livre e me ajude a tomar a decisão correta.
Depois da oração, pegou o celular.
Como fazia nos dias difíceis, abriu o vídeo com a música favorita de Ye-jun e sorriu sozinha.
— Quem sabe um dia eu possa te ver bem de perto...
Era apenas uma fantasia. Ou, pelo menos, era isso que ela acreditava.
Nisso, tomou coragem para continuar com o plano de se mudar para a Coreia.
Restavam apenas três semanas até a viagem.
Três semanas para organizar toda a sua vida no Brasil e, durante esse curto espaço de tempo, estudar coreano o máximo possível.
Três semanas para descobrir se estava prestes a cometer a maior loucura da sua vida...
...ou a melhor decisão de todas.
Josefina apagou as luzes sem imaginar que, do outro lado do mundo, alguém também estava prestes a ter uma reviravolta com a sua chegada, querendo ou não.







