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Capitulo 6 - Sob os Olhares dos Predadores

O jovem ruivo trocou o peso do corpo entre os pés, colocando a mão no quadril de forma elegante e prepotente.

— É. A senhorita poderia estar morta agora — zombou ele, com um brilho de diversão nos olhos verdes.

— Mas não estou! — Orin retrucou, embora a gravidade da situação finalmente começasse a se infiltrar em sua mente. — Apesar de eu ainda não entender bem o porquê.

O homem de tranças longas também cruzou os braços fortes, ostentando um sorriso puramente provocante.

— Porque não somos bárbaros.

— Podemos não a querer aqui, mas não a mataríamos deliberadamente — expôs o de cabelo azul, mantendo sua expressão gélida.

— Não por querer... — O homem de pele ébano pigarreou, lembrando que o ataque anterior quase a pegou. — Mas você não teria a mesma sorte com os outros. Muitos odeiam humanos e não hesitariam em matá-la.

O de cabelo azul a observou em silêncio por um momento. E ele notou como ela se apoiava pesadamente contra o tronco da árvore, a palidez denunciando seu estado.

— Por falar nisso... — questionou ele, com sua sinceridade cortante — a senhorita consegue se levantar sozinha?

Orin abaixou a cabeça, respirando fundo antes de tentar se afastar da árvore. Mas sem conseguir conter, uma careta de dor surgiu em seu rosto, fazendo-os observá-la com uma apreensão silenciosa.

O homem de longas tranças se aproximou, e o instinto de defesa de Orin a fez recuar bruscamente contra o tronco. No movimento, ela tropeçou em uma pedra, perdendo o equilíbrio.

Ela fechou os olhos com força, preparando-se para o impacto e a dor que certamente viriam. Mas nada aconteceu.

Confusa, Orin abriu as pálpebras e soltou um suspiro de choque ao perceber que estava flutuando a poucos metros do chão, envolta por uma brisa invisível e firme.

— O quê?

O jovem de tranças aproximou-se com um sorriso travesso, embora seus olhos carregassem um brilho de arrependimento.

— Uns hematomas por minha causa já são mais do que o suficiente, não acha, princesa?

Com um gesto suave, Alaric a colocou de volta no solo.

Orin ajeitou a saia do seu longo vestido, sentindo as bochechas queimarem. Ela agradeceu timidamente, mas não deixou de corrigi-lo.

— Obrigada, eu acho... E meu nome não é princesa!

Recuperando a postura, ela olhou para o grupo à sua volta.

— Como se chamam? Eu... não sei como me dirigir a vocês... — balbuciou, a timidez lutando contra a curiosidade.

Eles se apresentaram um a um, revelando que, por trás da aura letal, existiam seres de uma educação milenar.

— Sou Alaric, o dragão do ar — o homem de tranças foi o primeiro, tomando a mão de Orin e depositando um beijo galanteador sobre seus dedos. Ele era o dragão verde.

— Sou o Tork, o dragão da terra — apresentou-se o homem de pele ébano. Ele mantinha uma carranca, mas sua reverência foi impecável. Ele era o dragão marrom.

Logo em seguida, o ruivo fez uma mesura elegante e teatral.

— Eu sou o Pyro, dragão vermelho das chamas incandescentes.

O loiro também fez uma leve reverência, um pouco mais desajeitada que a de Pyro, mas carregada de uma solenidade respeitosa.

— Corvus. Dragão negro das chamas sombrias.

Por fim, o jovem dragão azul, que se mantinha à distância com os braços cruzados, falou de forma curta e direta.

— Dior. O dragão da água.

Orin absorveu cada nome e gesto, sentindo o coração martelar contra as costelas. O transe, porém, foi quebrado pela voz fria de Dior, que relembrou a realidade.

— Você deveria ir embora, humana.

Orin revirou os olhos, um gesto audacioso que fez Dior erguer uma sobrancelha, surpreso com tamanha petulância.

— Meu nome não é "humana", senhor Dior. É Orin.

— Aqui não é o seu lugar. Este solo é perigoso para a sua espécie — lembrou Tork, a voz profunda fazendo Orin finalmente aceitar a realidade de que havia sido pega invadindo o território deles. Mas como ela poderia adivinhar que as lendas realmente tinham vida naquele lugar?

— Mas o que a trouxe tão ousadamente ao nosso domínio, princesa? — questionou Alaric, mantendo o tom galante e a observando com curiosidade.

Enquanto os outros pareciam perdidos em seus próprios pensamentos, Orin caminhou calmamente, tentando controlar a respiração para não denunciar a dor lancinante em suas costelas.

Ela se abaixou, pegando seu cesto de ervas caído a poucos metros, e o mostrou para os gigantes.

A agonia era quase insuportável, mas ela precisava resistir. Não queria que eles a vissem como uma criatura frágil e decidissem "poupá-la" da pior forma possível.

— Vim por isto — disse ela, mostrando as ervas com um toque de tristeza no olhar. — Elas acabaram em Cilia, e achei que poderia encontrar algumas por aqui.

— E não passou por sua linda cabecinha que poderia morrer aqui em Solária? — questionou Corvus, observando-a com uma intensidade que a fez suspirar angustiada.

— Para dizer a verdade... eu achava que vocês nem existiam. Mesmo com tudo o que vem acontecendo lá fora, achei que os dragões fossem apenas histórias para assustar crianças.

Todos a observavam com atenção.

Orin sentou-se em uma enorme pedra, soltando uma careta suave de dor enquanto acomodava o cesto aos seus pés.

— Com os humanos e os seres místicos em guerra e tal... — começou ela, tentando justificar sua descrença.

— Então agora somos reais o suficiente para você, humana? — questionou Pyro com uma paciência irônica, fazendo-a confirmar com a cabeça, angustiada.

Ela sentia-se como uma criança recebendo uma bronca dos pais por ter desobedecido; por isso, decidiu ignorar, apenas dessa vez, o fato de ser chamada de "princesa" ou "humana".

— Está ficando tarde. Você deve ir embora agora — lembrou Dior, indicando suavemente o pôr do sol com o olhar.

Orin concordou ao perceber os tons alaranjados tingindo o céu atrás de si.

Timidamente, ela apertou o tecido das saias entre os dedos.

— Vocês... vão me deixar ir? Sabe... assim, sem nada e... viva?

— Vamos. Mas só se você se lembrar de que nunca esteve aqui — Tork impôs com firmeza, sendo seguido imediatamente por Corvus.

— E de que nós não existimos.

— E você não deve voltar mais aqui, princesa — acrescentou Alaric, com seu tom galante agora mais sério.

— Nunca mais — finalizou Dior.

— Não seremos complacentes com a senhorita da próxima vez — lembrou Pyro.

Orin percebeu que aquela era a primeira vez em que eles concordavam com algo sem discutir.

O silêncio que se seguiu mostrou que até eles mesmos estavam levemente apreensivos por terem alcançado um consenso tão rápido.

— Mas... esta erva só nasce por aqui agora — tentou Orin, a angústia voltando a apertar seu peito.

Pyro apenas deu de ombros, indiferente.

— Isso não é da nossa conta.

— E a guerra? — ela tentou novamente, buscando uma última conexão.

Desta vez, foi Corvus quem respondeu, com sua voz profunda e direta.

— Temos a nossa própria guerra para nos preocupar. Não nos envolveremos na de vocês.

Eles discutiram brevemente mais uma vez, mas o veredito final foi mantido. A jovem humana tinha que partir.

Expulsa do território deles, Orin iniciou o caminho de volta para casa, sentindo-se revoltada e confusa.

Ao anoitecer, ela finalmente voltou a vila. E entrou em sua modesta casa de pedras e barro, com telhado de palha e galhos secos.

Marcel, seu pai e o ancião da vila, a abraçou com força assim que ela cruzou a soleira.

— Onde você estava?

— Estava colhendo ervas, papai — respondeu Orin com um sorriso doce, amostrando o cesto e ignorando as leves dores para não deixá-lo preocupado.

— O dia todo? E por que está tão suja? Caiu na lama?

Orin corou, colocando uma mecha de seu cabelo ruivo, que havia se desprendido da trança, atrás da orelha.

— É que tive um pouco de dificuldade para encontrar estas, já que estão se acabando em Cilia.

Seu pai suspirou, o semblante carregado de preocupação.

— Volte cedo da próxima vez.

Orin concordou amavelmente, olhando ao redor e dando por falta de sua irmãzinha de treze anos.

— E Rosa?

— Já está dormindo. Hoje o dia foi bem cansativo com as crianças da vila.

Orin sorriu, compreensiva, enquanto seu pai a ajudava a acomodar o cesto de ervas.

Poucos minutos depois, deitada sobre peles macias que cheiravam a orvalho, Orin encarava o teto alto, mas sua mente ainda estava presa na clareira destruída de mais cedo. Ela fechava os olhos e o espetáculo recomeçava em suas pálpebras.

Primeiro, veio o calor. Ela ainda sentia o rastro das chamas de Pyro, aquele ruivo insolente que parecia ter o sol correndo nas veias. Depois, o calafrio gélido de Dior; ela tocou o próprio pulso, onde a água dele a curara. Ele era um mistério cortante, uma beleza que afastava e atraía como o abismo do mar mais revolto.

Um suspiro trêmulo escapou de seus lábios ao lembrar de Tork. Ele a chamara de "estúpida", mas a força bruta daqueles músculos de ébano dele tinham uma intensidade que a fazia se sentir pequena e estranha.

E havia Alaric... com aquele sorriso galanteador. Ele a olhara como se ela fosse um tesouro, raro e especial. Por fim, tinha Corvus, o loiro das chamas negras, o silêncio e a pressão de estar perto dele pesava mais do que as palavras de todos os outros.

— Dragões... — sussurrou ela para a escuridão, a voz falhando. — Eles não são mitos. São reais. E são tão reais, que sua beleza chega ser um insulto.

Orin se resignou e encolheu, sentindo o coração bater descompassado. Ela fora buscar ervas para salvar sua vila e seu pai, mas agora, sentia que quem precisava ser salva de um incêndio interno era ela mesma.

Entre o medo de ser uma guerra que batia em sua porta e o fascínio por aqueles cinco rostos esculturais, o sono finalmente a reivindicou, mas seus sonhos, pela primeira vez, não tinham os monstros usuais, apenas os belos homens dragão que conhecera.

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