Mundo de ficçãoIniciar sessãoO retorno ao Reino Verde foi feito nas sombras. Alaric não voou majestosamente sobre as torres esmeralda do palácio como costumava fazer; em vez disso, ele deslizou entre as correntes de ar mais baixas, camuflando seu rastro entre as copas das árvores gigantescas.
Ele conhecia cada corredor externo e cada varanda cega que seu pai, o Rei Skydancer, raramente vigiava.
Com um movimento fluido, ele pousou na sacada de seus aposentos privados. Suas asas verdes se recolheram com um farfalhar sedoso antes de desaparecerem por completo.
Ele entrou no quarto, trancando as portas de carvalho pesado com um estalo seco.
— Finalmente... — murmurou, jogando-se em sua cama forrada de seda, os braços atrás da cabeça.
O silêncio do quarto deveria ser um alívio, mas o rosto de Orin parecia gravado no teto. Ele conseguia sentir o aroma de terra e flores silvestres que emanava dela, um cheiro tão puramente humano que chegava a ser exótico para suas narinas acostumadas ao perfume inebriante das fêmeas draconianas.
— Ela é mais linda que qualquer fêmea que conheci... Quase como uma princesa... — Alaric sorriu, um brilho astuto e calculista surgindo em seus olhos verdes. – Princesa...
Ele pensou na pressão de seu pai, nas ameaças de um casamento arranjado e nos contratos de união que Skydancer já devia estar redigindo. A ideia de ser acorrentado a uma draconiana feia e entediante o fazia querer incendiar o próprio jardim. Mas Orin... Orin era diferente.
Ela era insolente. Ela era corajosa. E, acima de tudo, ela era linda.
"- Se meu pai exige uma companheira para garantir o trono," - pensou ele, virando-se de lado e observando a brisa agitar as cortinas - "por que não alguém que eu mesmo escolhi? Alguém que nenhum deles esperaria."
A ideia começou a criar raízes em sua mente manipuladora. Trazer uma humana para o trono de Solária seria um escândalo sem precedentes, um caos político que faria a cabeça de seu pai explodir. E Alaric adorava o caos, especialmente se ele viesse acompanhado de lábios carnudos e olhos esmeraldas que o desafiavam sem medo.
— Você não faz ideia, Lady Orin... — ele sussurrou para o vazio, o sorriso galanteador tornando-se algo mais profundo e possessivo. — Mas o vento acabou de mudar de direção. E ele está soprando exatamente para a sua vila.
O Reino de Corvus erguia-se em silêncio sob o manto da noite. Corvus pousou em sua varanda de pedra escura com a leveza de uma pluma, apesar de sua envergadura impressionante. Suas asas negras, que pareciam feitas de fumaça e obsidiana, recolheram-se até desaparecerem em suas costas, deixando-o apenas em sua forma humanoide.Ele soltou um suspiro pesado, sentindo a armadura de couro apertar seu peito. A imagem da humana ruiva que surgiu na clareira não o abandonava.
— Orin... — ele murmurou, a voz soando rouca no ar gélido.
Buscando algo para acalmar os nervos, Corvus caminhou até uma mesa de mogno onde repousava uma garrafa de vinho antigo e uma taça de cristal fino. Ele serviu-se do líquido rubro, brilhando sob a luz da lua cheia que dominava o céu.
Ele sentou-se no parapeito da varanda, e observou o satélite prateado, mas em vez das crateras lunares, ele via o brilho esmeralda dos olhos dela. Ele pensou na pressão de seu próprio conselho, na exigência por uma "Rainha". Mas tudo o que ele conseguia pensar agora era em Orin. Ela era atrevida e possuía um fogo dentro de si, mesmo sendo tão pequena, que o deixara curioso e inquieto.
"- Uma companheira..." - pensou ele, sentindo o rosto esquentar. - "Seria uma loucura. Uma humana no trono dos dragões negros?"
A ideia de tê-la ao seu lado, de protegê-la de tudo e de todos, fez seu coração martelar contra as costelas de um jeito que nenhuma batalha jamais conseguira. Ele se imaginou apresentando-a ao reino, chamando-a de sua...
Perdido em seus devaneios românticos e na imagem do sorriso malicioso que ela dera, Corvus sentiu uma onda de timidez tão forte que seus movimentos, geralmente precisos e letais, falharam.
Ao tentar levar a taça aos lábios, sua mão tremeu levemente. O cristal bateu contra seus dentes e, num movimento estabanado para corrigir o curso, ele acabou virando o vinho sobre a própria camisa.
— Maldição! — exclamou ele, levantando-se num salto, tropeçando na própria cadeira e quase derrubando a garrafa no processo.
Ele olhou para a mancha vermelha em seu peito e para a cadeira caída, sentindo-se o dragão mais idiota de toda a história. O grande e temido Corvus, o senhor das chamas negras, estava agindo como um recruta desastrado por causa de uma camponesa humana?
— Controle-se, Corvus — repreendeu-se, tentando limpar o vinho com a mão, apenas para borrar ainda mais. — Ela é apenas uma humana. Uma senhorita... muito... atrevida.
Ele voltou a olhar para a lua, mas agora com um sorriso tímido e desajeitado no rosto. O destino de Solária estava prestes a ficar muito mais complicado, e ele, pela primeira vez, não se importava de ser o motivo do caos que estava fantasiando.
O retorno de Dior ao seu santuário atras da cachoeira foi silencioso, um deslizar de esguio sob o luar. Dior entrou na caverna úmida, onde o som da queda d’água ecoava como uma canção de ninar constante. Antes de qualquer coisa, seus olhos buscaram o ninho aquecido. Lá estavam eles, seus pequenos filhotes, amontoados em um sono profundo e tranquilo.
Dior observou-os por um longo tempo, a expressão monótona suavizando-se apenas por um milésimo de segundo. Eles eram a sua prioridade.
Sem fazer barulho, ele seguiu para a bacia natural de águas cristalinas nos fundos da caverna. Despiu-se com movimentos lentos e mergulhou. O choque térmico teria paralisado um humano, mas para o Dragão da Água, era como um abraço familiar.
Ele emergiu no centro da piscina, boiando de costas, deixando que a flutuação carregasse o peso de seus ombros enquanto encarava a lua através da abertura no teto da caverna.
— Orin... — o nome flutuou de seus lábios, quase inaudível.
Ele se perguntou se a humana havia chegado bem. E uma pontada de culpa, rara e incômoda, cutucou seu peito. Dior sabia que não a havia curado completamente; deixara propositalmente um rastro de dor e fraqueza em seu corpo.
“-Foi para o bem dela” – justificou-se mentalmente. - “Se ela se sentisse revigorada, voltaria, e Solária a mataria.”
Mas ao fechar os olhos, em vez da escuridão, ele viu olhos verdes. Aqueles olhos esmeralda, cheios de uma vida ardente e uma insolência que o desarmava. Ele sentiu uma inquietação súbita, o sangue parecendo esquentar contra a água fria.
Abruptamente, Dior impulsionou o corpo para fora da água, os músculos tensos e gotejando enquanto ele caminhava para o leito.
— Esqueça isso, Dior. Ela é frágil. Tem sangue quente e sua vida é curta. — resmungou para as paredes de água.
Ele se deitou, mas um sorriso involuntário, quase imperceptível, curvou o canto de seus lábios ao lembrar da forma como ela o desafiara. Ela era... diferente. Absolutamente diferente de tudo o que ele conhecia.
Entretanto, o sorriso morreu assim que a imagem de Luminara invadiu seus pensamentos. As palavras cruéis dela ecoavam em sua mente como veneno, lembrando-o de sua "feiura", da cicatriz que marcava seu rosto e da monotonia de sua alma por cause de seu nível de poder muito elevado. Ele apertou os lençóis, os nós dos dedos brancos.
“-Quanto mais alto o nível de um ser, menos sentimentos teremos.”
Ele suspirou, se lembrando de sua realidade.
"Orin nunca iria querer ser tocada por alguém como eu..." - pensou ele, a amargura obscurecendo seu olhar. - "E Luminara pode tentar os seus jogos o quanto quiser, mas eu jamais cederei a nenhum deles. Não serei o brinquedinho de ninguém."
Dior virou-se para a parede, fechando os olhos com força, tentando substituir o veneno de Luminara pelo brilho esmeralda daquela humana teimosa que, por um breve momento, o fizera esquecer que se sentia um morto-vivo.
O Palácio das Chamas Incandescentes ainda resplandecia com o calor das tochas mágicas quando Pyro cruzou os corredores de mármore avermelhado. Ele caminhava com sua habitual arrogância, mas havia um peso estranho em seus interior, uma inquietação que nada, nem ninguém conseguia aplacar.
Ao entrar em seus aposentos vastos e luxuosos, ele parou abruptamente. Sobre os lençóis de seda escarlate, sua irmã repousava, adormecida em uma posição graciosa. Em qualquer outra noite, Pyro teria se deitado ao lado dela sem hesitar, buscando o calor familiar e o conforto de uma presença feminina para silenciar seus pensamentos.
Mas, desta vez, ele estancou o passo.
Ele observou a curva do ombro dela, o ritmo da respiração... e sentiu um nó de repulsa apertar sua garganta. Não era apenas ela; era a ideia de qualquer fêmea draconiana. Todas pareciam interesseiras demais, previsíveis demais, pálidas demais, diante do que ele vira naquela clareira.
— Orin... — ele sibilou, o nome queimando sua língua como uma brasa viva.
Ele fechou os olhos e, por um instante, não estava no palácio. Estava diante daquela humana pequena e atrevida. Ele lembrou da forma como ela o chamara de "estúpido", e do brilho desafiador naqueles olhos verdes, e principalmente, do fato de que estar perto dela, de uma criatura tão frágil e "inferior", não o enojara. Pelo contrário, a ideia de dormir ao lado daquela ruiva esguia e pecaminosamente bela, parecia ser a única coisa capaz de acalmar o incêndio que crescia em seu sangue.







