Mundo ficciónIniciar sesiónCICATRIZES INVISÍVEIS
A chuva voltou naquela madrugada. Forte. Violenta. Barulhenta. Os relâmpagos iluminavam o quarto escuro de Ayla em flashes rápidos enquanto o som do trovão estremecia as janelas do apartamento. Ela despertou assustada. A respiração falhando imediatamente. Por alguns segundos, não conseguiu distinguir realidade de memória. Seu corpo inteiro tremia. O peito apertado. A garganta queimando. Os dedos frios agarrando desesperadamente os lençóis. Não. De novo não. Ayla fechou os olhos com força tentando controlar o próprio corpo. Mas era tarde. A lembrança já tinha voltado. A maternidade. O cheiro forte de remédios. A dor do parto. O vazio. A perda. Ela levou a mão até a boca tentando impedir o som quebrado que escapou de sua garganta. Cinco anos… Cinco anos e aquela noite ainda a destruía como se tivesse acontecido ontem. A chuva batia violentamente contra os vidros enquanto Ayla se levantava da cama com dificuldade. As pernas fraquejaram quando ela caminhou até a cozinha escura do apartamento. Tudo naquele lugar era silencioso demais durante a madrugada. O silêncio sempre piorava as lembranças. Ela abriu a geladeira apenas para ocupar as mãos. Água. Respiração. Controle. Mas então o trovão explodiu novamente do lado de fora. E Ayla desabou. A lembrança veio inteira dessa vez. O rosto molhado de lágrimas. O quarto pequeno da maternidade. Os braços vazios. — Minha filha… A voz dela saiu quebrada. Pequena. Ayla apoiou as mãos na bancada fria enquanto tentava respirar. Porque era sempre assim. As noites de chuva a arrastavam de volta para aquele inferno. Ela ainda conseguia sentir: O peso da bebê nos braços; O cheiro dela; O calor do pequeno corpo recém-nascido. E depois… nada. Vazio. Escuridão. Dor. Ayla apertou os olhos com força. Ela não lembrava exatamente do momento em que perdeu a consciência naquela noite. Só lembrava do desespero ao acordar. Do berço vazio. Dos gritos. Da sensação de enlouquecer. Seus dedos tremiam violentamente agora. Ela precisava se acalmar. Precisava. Mas como alguém se acalma depois de perder um filho? Ayla levou as mãos até o rosto molhado. E então ouviu o celular vibrar sobre a bancada. Elisa. Ela hesitou antes de atender. — Você está acordada? A amiga perguntou imediatamente. A voz preocupada fez Ayla fechar os olhos. — A chuva me acordou. Mentira. As memórias a acordaram. Elisa ficou em silêncio por alguns segundos. Como se soubesse. — Você teve crise de novo? Ayla encostou a testa na parede fria da cozinha. E pela primeira vez naquela noite… permitiu-se ser honesta. — Eu sonhei com ela. A própria voz parecia cansada. Quebrada. Do outro lado da linha, Elisa soltou a respiração devagar. — Ayla… — Eu não consigo esquecer. As lágrimas finalmente começaram a cair. Silenciosas. Pesadas. — Eu tento seguir em frente… —Eu tento tanto… A voz falhou completamente. Porque aquela era a verdade. Ela tentou. Construiu empresa. Nova vida. Nova cidade. Mas nunca conseguiu deixar de ser mãe. Nunca. — Você não precisa fingir que está bem comigo. Elisa sussurrou. Ayla apertou o telefone com força. — Eu não sei onde ela está. Aquilo saiu carregado de dor. — Não sei se ela está viva. —Não sei se alguém cuidou dela. —Não sei se ela sente medo… A respiração dela falhou novamente. — E isso está me matando todos os dias. O silêncio do outro lado da ligação doeu ainda mais. Porque não existiam palavras capazes de curar aquilo. Depois de alguns minutos, Elisa finalmente falou: — Você vai ao evento? A pergunta fez Ayla abrir os olhos lentamente. O evento. Os Valença. Gael. Seu corpo inteiro ficou tenso imediatamente. — Não sei. Mentira outra vez. Ela sabia. Estava apavorada. Porque encontrar Gael significava encarar tudo o que destruiu sua vida. Elisa suspirou. — Fugir talvez piore as coisas. Ayla soltou uma risada baixa. Dolorosa. — Você acha que isso pode piorar? E realmente podia? Cinco anos atrás ela perdeu: O homem que amava; A filha; A própria vida. O que mais ainda existia para destruir? Depois da ligação, Ayla permaneceu imóvel na cozinha por muito tempo. A chuva continuava forte lá fora. E o apartamento parecia pequeno demais para tanta dor. Foi então que ela caminhou lentamente até o quarto. Ajoelhou-se diante da última gaveta da cômoda. E hesitou. Sempre hesitava. Porque abrir aquela gaveta significava abrir feridas. Mesmo assim… abriu. Dentro dela havia apenas uma caixa branca pequena. Ayla segurou a tampa por alguns segundos antes de abrir lentamente. Ali dentro estavam: Exames antigos; Uma pulseira da maternidade; Uma fotografia borrada da ultrassonografia; E uma pequena meia infantil rosa. A primeira peça de roupa que comprou para a filha. Os dedos dela tocaram o tecido delicadamente. E algo dentro dela se partiu outra vez. Porque durante cinco anos… aquilo foi tudo o que restou. Ayla levou a meia até o peito enquanto as lágrimas caíam silenciosamente. Ela tentou imaginar: c Como Lívia estaria agora. Se gostava de dormir abraçada em algo. Se tinha medo do escuro. Se alguém penteava seu cabelo. Ou se chorava procurando uma mãe que nunca voltou. Ayla fechou os olhos com força. A dor foi tão intensa naquele instante que seu corpo inteiro curvou levemente. Como se o próprio peito não suportasse mais carregar aquilo. Horas depois, já perto do amanhecer, ela finalmente conseguiu se levantar do chão. Exausta. Destruída. Mas então o celular vibrou novamente sobre a cama. Uma nova mensagem. Número desconhecido. Ayla limpou rapidamente o rosto antes de abrir. E o sangue desapareceu lentamente de suas veias ao ler o conteúdo.






